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terça-feira, 29 de novembro de 2016

Paulo Julio Clement

Há uns dez dias, nos encontramos no batizado do filho de um grande amigo comum. Chovia quando eu cheguei e, ainda nas imediações da igreja, encontrei o Paulo Julio. Ele só havia achado  vaga para o carro longe dali e sua camisa estava encharcada. Dei lugar a ele debaixo do meu guarda-chuva. Paulo foi padrinho do filho desse nosso amigo, o também queridíssimo André Balocco. A certo momento da cerimônia, com a blusa molhada colada ao corpo, ele me perguntou:

_ Você acha que vou ser um bom padrinho?

_ Claro _ eu disse. Lógico que vai!


Paulo Julio Clement foi um dos jornalistas mais brilhantes que conheci. Foi bem na mídia impressa, no rádio e na TV. Sabia tudo de esportes, futebol principalmente. Lembrava de tudo e este era um dos meus motivos preferidos para encontrá-lo. Ficávamos horas lembrando de jogadores e jogos dos quais ninguém lembra mais. Agora que a fatalidade levou o Paulo, com quem vou falar do Fanta, obscuro meio-campista do Fluminense no início dos anos 80?

Trabalhamos juntos pela primeira vez no Globo, mas em editorias diferentes. Anos depois, no JB, ficamos mais próximos e pude comprovar o excelente caráter desse colega. Era justo como chefe, sabia cobrar e comandar com generosidade e gentileza.

Me chamava de "ponta recuado", aquele que ajuda o meio-campo.

Politicamente, era meu companheiro na esquerda. No Facebook, no auge do tiroteio, não ficava em cima do muro, embora fosse sempre muito mais ponderado do que eu. Descia a lenha no prefeito elitista, combatia o golpe, os preconceitos de toda ordem.

Há alguns meses, depois de várias caipirinhas, mandei-lhe uma declaração de afeto pelo Facebook. Era tarde da noite e ele estranhou. Perguntou por que aquele repente.

Envergonhado, de início culpei as caipirinhas. Mas depois lhe disse que amizades verdadeiras são raras e é preciso celebrá-las.

É difícil acreditar que nunca mais o verei. Até saber que ele estava na lista, a tragédia para mim era distante, televisiva. Mas, por volta das nove horas, soube que Paulo Julio, tão próximo, tão parecido comigo, estava naquele avião.

A morte de alguém próximo choca demais. Nos dá a terrível noção de que amanhã nós mesmos podemos não estar mais aqui e que isso é tão natural quanto essa força vital fascinante que experimentamos todas as manhãs.

Quando penso nas fotos dele com o filho Theo, na declaração de amor que fez outro dia para a esposa Flávia, tudo perde a graça, nada faz o menor sentido. Espero que os dois tenham força e luz para seguir em frente.

E que um dia eu possa reencontrar o meu grande amigo Paulo Julio Clement.

Hoje, da forma mais triste, eu descobri o porquê daquelas caipirinhas.







9 comentários:

  1. Bela mensagem. Bela homenagem. Bela capirinha.

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  2. Não tive o privilégio de conhecer o Paulo, assim como o Victorino e o Mario Sergio, grandes jornalistas. Do Paulo tive informações de uma amiga cujo filho estuda com o filho dele e ratifica um pouco do que você relata como sendo uma grande pessoa. Mas o que me impressionou bastante nesse episódio triste foi o fato de que enquanto o presidente usurpador enviou uma nota protocolar e os deputados golpistas se refestelavam votando seus pacotes de maldades, o povo colombiano deu a maior demonstração de respeito e carinho deste caso. Já estive duas vezes na Colômbia e posso testemunhar o que eles sentem em relação a nós. Mas o que vimos no estádio colombiano onde seria realizado o jogo foi o que podemos verdadeiramente chamar de coisa de "hermanos".

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  3. PJ era um cara do bem e tinha uma Luz fantástica. Trabalhamos juntos no JB, pra mim uma honra. Peço a DEUS que o ilumine e o guarde em sua nova morada.

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  4. Fiquei emocionado com seu sincero relato...lembrei-me da morte (nunca a esqueci) , há décadas, de meu maior amigo (sem desmerecer outros, claro!). Concordo absolutamente que: "amizades verdadeiras são raras e é preciso celebrá-las". E acrescento: depois da saúde, o melhor da vida são os encontros com os amigos leais, de afinidades eletivas e, evidentemente éticos e/ou de bom caráter, sem exceções.

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