Translate

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Todos dormem

O povo brasileiro caminha passivamente para levar a maior enrabada da História. Em país de otário, pato canta de galo.

A quantidade de absurdos desse processo golpista e a passividade da maioria da população mostram a que nível chegou o embotamento geral. Somos um povo zumbi que se alimenta de novela.

A Globo tenta anunciar com otimismo o futuro ministério, que mais parece um circo dos horrores. Serra, Romero Jucá...


Só por ter acabado com o projeto dos Cieps, Moreira Franco, por exemplo, nunca mais deveria merecer um voto sequer dos cidadãos do Rio de Janeiro. Mas ele está aí, é o "homem forte" do governo golpista. Por incrível que pareça, foi o PT que o manteve vivo, mandando na Caixa Econômica Federal e depois na Aviação Civil.

Só um cerco ao Congresso formado por um milhão de pessoas evitaria que o país embarcasse nesse trem fantasma. Mas onde estão os 54 milhões que elegeram Dilma?

Então fica combinado assim: no dia 11 eles consumam o golpe. No dia seguinte, tornam Lula inelegível para a Presidência por não ter curso superior. Depois, restringem o acesso à internet cobrando tarifas semelhantes às dos celulares. Em seguida, aniquilam boa parte dos direitos trabalhistas sob alegação de que só assim o empresariado poderá voltar a contratar.
Por último, deveriam escalar um daqueles deputados debilóides pra passar na sua casa e dormir com a sua mulher.



Quem sabe aí você faz alguma coisa...

terça-feira, 19 de abril de 2016

O (d)efeito Bolsonaro

Meu dentista se entusiasma:

_ Voto em Jair Bolsonaro seja qual for o cargo a que ele se candidatar. Presidente, governador, prefeito, síndico do meu prédio, presidente do Botafogo!

Preocupado com a onda de assaltos próximo ao seu trabalho, o rapaz de pouco mais de 20 anos, gay, revela seu próximo voto:

_ Jair Bolsonaro.

O rapaz também é negro, ou seja, está em duas listas de extermínio.

Mais do que responsabilizar judicialmente o homem que homenageou no plenário da Câmara o torturador Brilhante Ustra, é importante investigar o fascínio que esse deputado de extrema direita exerce sobre fatia cada vez maior da população do Rio de Janeiro. Vivemos um tempo de ódio, não só na política, também no trânsito, nas relações de trabalho, nos jogos de futebol, nos bares e baladas. Tudo é motivo para o insulto, para a agressão física.

Na Universidade Federal Fluminense e no não menos tradicional Colégio Pedro II, alunas fazem manifestação contra os frequentes casos de estupro. O estarrecedor é que elas acusam seus próprios colegas pelos crimes. O ódio está no ar.

Da boca dos deputados evangélicos surgiram algumas das acusações mais virulentas na votação do impeachment. O presidente da Câmara age com ódio revanchista pouco se importando com o futuro da nação. O juiz do STF e o promotor da Lava-Jato não se envergonham de colocar sua ira acima das leis.

Bolsonaro, a cada aparição, afronta mais radicalmente o bom senso e a convivência humana. Não sofre sanções e ninguém que deveria puni-lo parece importar-se. Seu comportamento fica, portanto, legitimado aos olhos da crescente parcela fascista da sociedade.

E alguns ingênuos reclamam que há muito ódio no Facebook...

Bolsonaro é o ícone do nosso tempo. Cada vez mais gente se sente representada por ele. É o que assusta, e não o fato de ainda a maioria o odiar.

Qualquer dia, ele vai apresentar um projeto para erguer um monumento ao seu ídolo torturador. É só o que falta.

Foto: Marcelo Migliaccio



segunda-feira, 18 de abril de 2016

Espetáculo deprimente

Molecagem, gritaria, cinismo, exaltação a torturados, pilantragem evangélica... são os representantes do povo brasileiro.

Você ficou surpreso com o que viu e ouviu na votação do impeachment na Câmara dos Deputados? 

Eu não. 

Aqueles parlamentares não são ETs, receberam 42 milhões de votos para estarem ali.

E se o espetáculo deprimente em rede nacional teve algo de bom foi mostrar a nós mesmos e ao mundo a que nível de indigência mental e de canalhice chegou a nossa sociedade.

Estou com Frei Beto, para quem um dos maiores erros do PT foi não iniciar um processo de politização do povo nesses 13 anos. Achou que bastavam três refeições por dia e dinheiro pra comprar uma máquina de lavar. Quando o empresariado golpista liderado pela Fiesp e pela UDR tirou da massa o poder de compra, ela voltou-se imediatamente contra o governo. A lavagem cerebral da mídia foi decisiva, mais uma vez.

O PT perdeu para si mesmo. Ao ser reeleita, Dilma achou que poderia levar o barco sem o Congresso. Basta ver o nível dos parlamentares que a estão derrubando e suas muitas pendências judiciais para tirar-lhes qualquer autoridade. Mas é bom lembrar que foi com a maioria deles que o PT governou desde 2003. Agora, está prestes a ser apeado do poder por aquela gente que vimos ontem transformando o plenário da Câmara num recreio de escola pública, com direito a bulying, cusparada, ofensas, empurrões, chacotas, gritaria pra não deixar o colega falar e macaquices diante das câmeras de TV.

A verdade é que o povão não se engajou na defesa de Dilma. As manifestações contra o impeachment só tinham gente politizada, com nível universitário e sindicalistas. O grosso da população passava apressado do outro lado da rua.

Queriam chegar em casa logo pra não perder a novela.

Muitos talvez nem saibam que o próximo capítulo será a chibata neoliberal.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Dos males, sempre o menor

O supermercado mais caro da Zona Sul estava cheio. Uma profusão infernal de coxinhas comprando pastinhas pra comer com vinhozinho enquanto assistem ao Jornal Nacional. Com minhas 50 gramas de mortadela e um pão francês em punho, estou na fila atrás de um senhor baixinho, cabeça branca, magrelo e muito bem vestido na moda de 40 anos atrás.

Eu já tinha aprendido que em fila de supermercado o melhor é fazer o tipo surdo-mudo, mas esqueci a lição quando o old man à minha frente virou-se para o final da outra fila, igualmente quilométrica, e acenou para uma garota de generosas formas que poderia ser neta dele.

_ Vem pra cá! _ sussurrou ele com um piscar de olhos.

A moça, claro, veio e ele a colocou como a próxima a ser atendida.

Só para mostrar que eu estava vivo, inclusive a mim mesmo, perguntei baixinho no ouvido gasto do velho.

_ Você colocou ela na nossa frente?

Pra quê! O velho deu um pulo e virou-se para trás exatamente como Cristiano Ronaldo faz ao comemorar seus gols. Num brado colossal, ele me desafiou:

_ O que foi!!!! Não gostou???? Vamos lá fora resolver isso agora!

O vozeirio no mercado cessou imediatamente. Vi que cerca de cem pessoas me olhavam esperando a minha reação. E eu me perguntei imediatamente o que fazer. Numa rajada de pensamento tão rápida quanto um latejar de pestana, examinei as três hipóteses mais plausíveis:

A primeira possibilidade era de que aquele velho, magrelo e baixinho, para desafiar assim um desconhecido, deveria estar armado. Talvez fosse um delegado aposentado, um bicheiro sem banca ou um militar da reserva, cabo eleitoral do Bolsonaro. Bom, não vou tomar um tiro de um doido por causa de cinco minutos a mais numa fila de mercado, pensei.

A segunda hipótese era de que o ancião valente não estivesse armado mas fosse um ex-campeão de jiu-jitsu ou coisa que o valha. Seria péssimo eu ir lá pra fora com ele e voltar de olho roxo para pagar a mortadela.

O último desdobramento que me ocorreu foi o de eu bater no velho, o que seria horrível como as duas alternativas anteriores. Nunca fui de brigar. Acho o embate físico entre duas pessoas de uma animalidade constrangedora. E, quando criança, nas poucas vezes em que bati em alguém me senti pior do que nas que apanhei. Não, brigar com o Cristiano Ronaldo master estava fora de cogitação. De mais a mais, depois que inventaram a arma de fogo, valente virou uma espécie em extinção.

Mas eu ainda tinha que resolver o problema do pessoal todo do mercado esperando a minha reação. Como não tinha saída melhor, optei pela diplomacia.

_ Que isso, mestre, não precisa ficar nervoso. De mais a mais, a nossa amiga aí merece a honraria.

O velho virou-se de novo para a moça de belas formas, que já pagava suas compras absolutamente constrangida.

E eu fiquei na minha. Para uns, eu fui o pacifista que controla seus nervos. Para outros, um covarde que arregou para o velho mirrado.

Não importa, dos males possíveis, foi o menor.

Depois de pagar suas compras, meu quase oponente ainda sussurrou pra mim ao sair:

_ Fica na paz, irmão.

Fiquei.


Foto: Marcelo Migliaccio
Acho o embate físico entre duas pessoas de uma animalidade constrangedora

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Fábula jornalística

Foto: Marcelo Migliaccio


Trancado cruelmente numa prisão sem ter cometido crime algum, o passarinho interrompe seu vôo neurótico naquele cubículo. Ao avistar o dono chegando para limpar o recinto e repor água e comida, o pobre encarcerado subitamente esbraveja:

- Ok, me prendeu, perdi. Mas não vem forrar minha gaiola com esse jornal mentiroso, não!

Enquanto isso, na feira livre, o peixe morto ressuscita e interrompe o vozerio dos passantes pasmos. Numa cena surreal, ele protesta contra o feirante:

- Me matar, eu aceito; vender meu corpo pra essa dona cozinhar no almoço, tudo bem, é do jogo. Mas nem pense em me embrulhar nesse jornal de quinta categoria!

Foto: Marcelo Migliaccio

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Vivemos uma pandemia de Carlos Imperiais

O documentário sobre Carlos Imperial é bem interessante apesar do pouco destaque dado à sua fase política e da omissão da paixão pelo Botafogo, clube do qual foi até dirigente. As imagens de suas pornochanchadas, as lembranças das mentiras que contava, as provas de sua personalidade vingativa e os depoimentos impressionantes dos filhos valem o ingresso.

Foi bom rever imagens do programa que ele apresentou na TV Tupi no final dos anos 70. Sábado à noite, exibia cantores do segundo time da era brasileira das discotecas. Dudu França, que aparece no documentário denunciando o roubo de suas músicas por Imperial, era um dos astros. Morador da Urca e sem mais nada para fazer no limbo dos meus 14 anos, eu às vezes ficava no auditório. Quando Sidney Magal aparecia, a mulherada ia ao delírio... no final, Imperial ia embora no seu Ford Del Rey conversível.

Imperial se destacava três décadas atrás por ser o mau caráter declarado. Havia muitos pilantras mas ele era um dos raros que não tinha vergonha de assumir a canalhice.

Hoje, Imperial seria apenas mais um na multidão de traíras que não têm preocupação alguma em esconder o que são.

Eles estão por toda parte. Vivemos uma pandemia de Carlos Imperiais.

Temos até um deles presidindo a Câmara dos Deputados...


sábado, 2 de abril de 2016

Onde eu estava

O dia 31 de março de 1964 foi inesquecível pra mim. Eu acordei, tomei mamadeira, alguém me pegou no colo, trocou minha fralda. No banho, entrou sabão no meu olho. Andaram comigo pra lá e pra cá, me deram um chocalho que fazia um barulho irritante.

Eu tinha sete meses de idade.

Lembro também que eu chorei. Sem saber por que, chorei naquele dia.

Nos 21 anos seguintes eu descobriria o motivo.