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domingo, 28 de fevereiro de 2016

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

A varada fatal

Um amigo meu está sendo procurado por homicídio. Deu-se o seguinte:

A turma sempre se reunia para jogar peladas nesses campos do interior, esses que têm mais areia do que grama, balizas arqueadas e redes furadas. Porteiros, garçons, contínuos, motoristas, na maioria nordestinos, saíam da Zona Sul em ônibus furrecas alugados na base da vaquinha. Suas mulheres e namoradas iam junto, algumas levando crianças. O velho jogo de camisas tinha um cheiro insuportável de roupa suada, mal lavada e que não secou direito. Dizem até que era por isso que o time colecionava mais derrotas que vitórias: os jogadores corriam prendendo a respiração o que, segundo as leis da física e da biologia, é incompatível com um bom desempenho atlético. Mas o "time dos paraíbas", como era conhecido pelos playboys do bairro, nunca deixava de se divertir.

O tal crime aconteceu em Friburgo, acho. O adversário dos "paraíbas" era o time de um cunhado do Chico Sola, zagueiro voluntarioso que ganhou o apelido porque, certa vez, atuando descalço, deu um chute em falso e a sola do seu pé literalmente se desprendeu, como acontece com um sapato velho. Mas o Chico nem assim abandonou o prélio, tingindo toda a sua grande área com o vermelho do próprio sangue. O time perdeu, claro, e o apelido ficou.

Depois de uma viagem com muita batucada, chegaram a Friburgo já triscados. Duas garrafas de pinga foram derrotadas no trajeto. Katinha, um baixinho que jogava de ponta direita, era o mais empolgado.

_ Hoje vou arrebentar, tô sentindo.

Tinha esse apelido por causa de um ponta-direita baixinho que jogava no Vasco naquela época.  Fora das quatro linhas, Katinha bebia que nem gente grande, só que não tinha muita resistência ao álcool e dava muita alteração. Era o tipo de bêbado chato. Na volta da excursão anterior, só parou de perturbar no ônibus quando foi nocauteado com um saco de chuteiras que devia pesar uns 50 quilos. Metido a galã com seu bigodinho bem cuidado, vivia mostrando a foto da mulher, que parecia ser uma gata. Nunca ninguém o viu com ela pessoalmente, desconfio que só tinha a foto na carteira...

Chegaram cedo, por volta das nove horas e o cunhado do Chico Sola deu as boas vindas à galera visitante. Lá pelas onze e meia, começou a ser servida uma farta feijoada. Daquelas completas... rabo, pé, orelha e o escambáu. E tome cerveja, e tome cachaça. Por volta das cinco, depois de alguns já terem dormido o sono dos justos, foram todos para o campo. O time da Zona Sul com o surrado e irrespirável uniforme vermelho e os donos da casa de verde.

O jogo foi meio ruim de ver, como aliás sempre acontecia. Era mais um programa humorístico que um espetáculo esportivo. Furadas, caneladas, choques de cabeça, muita reclamação e muita gargalhada, principalmente da torcida. A galera, aliás, não arredava pé, já que o isopor de cerveja fora estrategicamente colocado embaixo da pequena arquibancada. Tinha cunhada, avó, priminho e agregado torcendo a valer. Quando Katinha pegava na bola, era uma festa. Elétrico, ele tentava todo o seu repertório de jogadas, que incluía dribles esquisitos e um chute potente mas sem direção nenhuma. 

O empate de 2 a 2 estava bom pra todo mundo quando o juiz, um coroa que usava óculos fundo de garrafa, cismou de apitar um pênalti para os visitantes. Depois de muita discussão e ameças de agressão física, a marcação foi confirmada. Katinha, cheio de autoridade, tomou a bola para si.

_ Eu sofri a falta, eu vou bater!

No gol, estava um tal de Pedrão, que ostentava uma tremenda barriga, turbinada ainda mais naquele dia com quatro inacreditáveis pratos de feijoada. Mastigando um fiapo de grama, Katinha tomou distância. Firmou os lábios pra cima espremendo o bigode para dentro do nariz e respirou fundo. Então, correu e deu seu chute mais potente, que ele mesmo apelidara de "varada". Mirou no canto mas acertou no meio do gol, onde Pedrão havia permanecido já que mal conseguia se mover de tão cheio de feijão e cerveja. A bomba explodiu bem na boca do estômago, e o goleiro tombou para trás. A torcida inicialmente caiu na risada mas, quando viram que era sério, fez-se um silêncio sepulcral no campo de várzea.

_ Liga pro 190! 

Vou poupar o leitor de descrições detalhadas, mas o fato é que Pedrão não se levantou mais.

No mesmo instante, a pequena torcida e os outros 21 jogadores saíram atrás do pobre Katinha como se ele tivesse feito aquilo de propósito.

_ Você matou o cara, porra!

_ Pega!

Katinha fugiu em disparada pelo matagal que circundava o campo e nunca mais foi visto. Nem em Friburgo, nem em seu emprego no Rio, nem em lugar nenhum. Até hoje é procurado por homicídio culposo. Pombas, Katinha era chato, mas daí a...

O pobre Pedrão foi enterrado com honras. Evitou a derrota com a própria vida. 

E nunca mais serviram feijoada antes das peladas dos paraíbas, que agora procuram um novo ponta-direita.


Foto: Marcelo Migliaccio

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Quando Umberto não faz eco

A democracia das redes sociais nos permite saber de coisas que a grande imprensa nunca nos contaria. Graças à web, os que reagiam com cinismo ao jornalismo abjeto que se pratica no Brasil estão condenados ao silêncio. Quando se encorajam a dizer alguma coisa, caem imediatamente no ridículo.

Por isso alguns têm reproduzido uma fala de Umberto Eco em que ele criticou a quantidade de imbecilidades veiculadas nas redes sociais. Pra mim, esse é o preço da democratização da comunicação, que finalmente chegou, para desespero do cartel da imprensa, dos promotores e juízes discricionários e de seus financiadores.

Aturar idiotas e fascistas no Facebook é a nossa cota de sacrifício para ter acesso ao que jornais, revistas e emissoras de TV nos sonegam.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Favela do Aço

No Dia do Repórter, lembrei de quando era "repórti" do jornal O Dia. A foto é de 1990, na escaldante favela do Aço, em Santa Cruz. Lembro que andamos infinitamente pela Avenida Brasil até ela virar uma estrada de terra. Quando nossa equipe chegou, fomos cercados e saudados como se tivéssemos acabado de ganhar uma Copa do Mundo. Mas não havia motivo para festa.

Segundo os moradores, um tenente do RPmont havia acabado de matar o marido da moça morena da foto abaixo. Todos estavam revoltados especialmente contra o tal tenente, a quem acusavam de costumeiramente tocar o terror na comunidade. Disseram que a vítima "era trabalhador". Sua mulher, apelidada de Índia, nem chorava. Seu filho, de uns cinco anos, estava ali, no meio daquela confusão.

A multidão gritava ao meu redor, todos contando a história ao mesmo tempo. Eu, suando em bicas, tentava entender a mecânica do que havia se passado. Inútil. Um pandemônio.

Saindo dali, fomos ao Regimento de Polícia Montada da PM, em Campo Grande, também na Zona Oeste. O tenente acusado pelos moradores nos recebeu serenamente. Posou orgulhoso ao lado de um carregamento de drogas que afirmou ter apreendido durante a operação na Favela do Aço. Sobre o homem morto, disse que "era traficante".

A revolta não deu em nadam. O tenente seguiu sua carreira e, anos depois, ocupava um alto cargo na PM...

Foto: Paulo Araújo

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Chile: beba sem moderação

Um vizinho na minha rua aluga a casa por temporada. Neste Carnaval, baixaram lá uns gringos. Chegaram fazendo a maior algazarra, como deve ser. Deu pra reparar que beberam sem parar nas primeiras 30 horas. O barulho que fizeram à noite só não foi pior que o do caminhão que troca a caçamba de entulho de uma obra próxima sempre por volta da uma da madrugada.

No terceiro dia de carnaval, conheci um dos estrangeiros. Me preparava para sair de bicicleta às seis da manhã quando ele apareceu com uma latinha de cerveja na mão. Era chileno como seus colegas de viagem, todos colegas de trabalho em seu país, numa empresa de construção. Conversa vai, conversa vem, perguntei se a turma usava maconha. A resposta do rapaz, de 23 anos, foi bem objetiva:

_ Nenhum de nós usa qualquer droga ilícita. Todos os meses, somos submetidos a teste de sangue na empresa. Por isso, só bebemos.

E como bebiam aqueles chilenos. Nos dez dias que se hospedaram na minha rua, acho que não fizeram outra coisa. Ah, também urinaram no canteiro do prédio ao lado.

Fiquei me perguntando sobre a validade desse tipo de teste, feito em muitas empresas também no Brasil. Compensa ter funcionários que não usam maconha, por exemplo, mas se encharcam de álcool em seus momentos de lazer?

Fiquei pensando nas diferenças entre o Chile, governado pela direita durante décadas, e o Uruguai, que, na era Mujica, descriminalizou o consumo de maconha e viu as prisões por tráfico e os índices de violência despencarem.

Estarão essas empresas chilenas, em nome de um moralismo barato, contribuindo para a formação de novas gerações de alcoólatras?

A indústria de bebidas agradece.


Foto: Marcelo Migliaccio





quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Por que a Mangueira ganhou?

Foto: Marcelo Migliaccio


No carnaval da crise, tinha que ganhar a mais popular. Sem o dinheiro dos barões do bicho ou de governos e empresas a fim de promoção, a campeã foi a escola de samba mais famosa do mundo, a Mangueira.

A Mangueira é do morro da Mangueira. A Mocidade não é da favela da Mocidade, é da Vila Vintém. Sem os milhões de Castor e seus herdeiros, quase caiu.

A Portela também é tradicional, mas a Mangueira nunca rachou. E da Portela nasceu a Tradição, que por sinal, já desapareceu.

A Beija-Flor e a Imperatriz dependem dos Abraão David e do Luisinho Drummond. A Mangueira nunca teve bicheiro mecenas. Nunca teve um Miro, um Maninho, que fizeram do Salgueiro uma super escola de samba. E super não combina com samba. A Mangueira não tem dono, sempre sobreviveu nos braços da sua gente. Sua rainha de bateria mora no morro, não é uma nissei famosa importada de São Paulo. Nem a Galisteu, a Brunet, a Luma... é só a garota que arrasou no Buraco Quente.

Sobreviver assim, na raiz do samba, não é fácil. Que o diga o Império Serrano...

A Vila Isabel tem Martinho, teve Noel... que até fazem um páreo duro com Cartola e Carlos Cachaça, os intelectuais da Mangueira. Mas nenhuma escola terá um casal de mestre sala e porta bandeira como Delegado e Mocinha. 
Mocinha e Delegado


A Mangueira é tão carioca que fica colada no Maracanã. Não importa se o maior estádio do mundo virou um estúdio de TV elitista. A Mangueira continua povão.

No Estácio nasceu a primeira escola, mas a estação primeira é de Mangueira.

A Mangueira não investiu milhões em carnavalescos renomados, como Paulo Barros ou Rosa Magalhães. Entregou seu imaginário a um novato, um principiante. A Mangueira é diferente, sempre. Combina verde com rosa e fica ótimo.

Por isso, quando foi preciso alma, a Mangueira ganhou.





A vida imita a arte II

Foto: Marcelo Migliaccio


VEJA TAMBÉM:
Às vezes, a vida é que imita a arte

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Dirceu e Moro, frente a frente

Cada vez que Lula rebate uma marola como a do triplex que nunca foi dele, a inflação sobe mais um pouco. Quem vai no mercado sabe. UDR e Fiesp, unidas pela vitória. Eu fico me perguntando que praga, que tragédia natural ocorreu na cultura do alho, por exemplo, para que o quilo seja vendido a mais de R$ 22.


Tem tubarão com mais de US$ 200 milhões numa única conta na Suíça reclamando do "aumento da carga tributária. E o pior é que boa parte desse grande empresariado brasileiro, que comprovadamente aufere as maiores taxas de lucro do planeta, tem, em geral, mais de uma conta no exterior. Dá até arrepio pensar nessas fortunas que mortal nenhum é capaz de gastar em vida. Mesmo assim, colocar ar condicionado na frota de ônibus, nem pensar. Dentro dos caixas eletrônicos, que à noite parecem fornos, também não. E, na primeira quedinha no balanço, os acumuladores compulsivos aumentam logo seus preços e mandam um monte de empregados para o olho da rua.


A coisa, de tão trágica, está ficando até engraçada. Veja a última denúncia, esta Lula não vai ter como rebater...


Enquanto isso, o barbudo veleja em águas revoltas rumo à próxima eleição. O medo da sua vitória é tanto que, daqui a pouco, a Operação Lava Rato vai perguntar quem foi ao boteco comprar as três garrafas de Antártica que o Lula bebeu no almoço de domingo...

Lula nunca mais vai ter paz.

Agora, falando sério, a Polícia Federal precisa ficar de olho nos fascistas que prometem pela internet agredir Lula quando ele for depor, no próximo dia 17. Se acontecer a selvageria, devem ser responsabilizados, junto com os debilóides agressores, aqueles que plantaram ódio em seus cérebros de minhoca com essa lavagem cerebral antipetista na mídia.

E, graças às redes sociais (porque a grande imprensa, claro, ignorou), vale ver o depoimento de José Dirceu ao promotor Sergio Moro, dono da voz que faz as perguntas. Assista e tire suas conclusões: