Translate

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Muito mais que temas de novela

Conheci ontem um artista genial: Chico César.

Conheci de longe, ele no palco e eu lá em cima, no balcão. Conheci de vista, de ouvir.

Energia, poesia, talento, substância. Na banda, mais três paraibanos como ele, uma baiana, no acordeon, e um pernambucano na percussão, Escurinho, amigo de Chico desde os dez anos de idade.

A banda toda tem um punch, invejável, mas é o Chico, cantando suas músicas e tocando as únicas guitarras no palco, quem arrebata a platéia.

Confesso que pensei que seria chato. Aquele negocio meloso de "já fui mulher, eu sei". Nada! Som pesado, vigoroso, músicas novas. É incrível como a indústria cultural, com sua parada de cartas marcadas nas rádios, seus eleitos para temas de novela, fabrica engôdos e nos engana, reduzindo a obra de grandes artistas a uma ou duas músicas massificadas.

Na saída, fui correndo ao balcão comprar seu novo CD.

Se Chico César se apresentar perto de você, não perca!


Foto: Marcelo Migliaccio





sábado, 21 de novembro de 2015

Chatô

Não vou nem falar dos milhões consumidos pelo autor do filme, que tecnicamente é bom e bem dirigido. O roteiro funciona bem, embora fortaleça os comentários de que por ter havido problemas na hora de montar o que foi filmado.

Marco Ricca arrebata desde a primeira cena, com uma composição que beira o caricato mas é totalmente crível.

Só que quem assiste Chatô sai do cinema com uma pergunta:

Será que aquele personagem louco, mal educado, chantagista, pedófilo, machista e mau caráter não tinha mesmo nada de bom?

O neto tem razão de estar reclamando.


É curioso, porque o diretor do filme, Guilherme Fontes, afirma ter sido linchado pela mídia por conta do atraso da produção. Justo ele abusou do maniqueísmo ao reconstruir Assis Chateaubriand. Tudo bem que barão da mídia entre os anos 40 e 60 não devia ser flor que se cheire, mas em histórias assim um contraponto, uma pitada de humanidade dão outra dimensão ao filme.


Foto: Marcelo Migliaccio





quinta-feira, 19 de novembro de 2015

A mancha

Firmar apressadamente o valor da indenização a ser paga pelo maior desastre ecológico da história do Brasil só favorece à empresa causadora da tragédia. É preciso esperar para ver a real extensão dos danos, principalmente quando a lama tóxica chegar ao litoral do Espírito Santo. Há quem diga que correntes se encarregarão de espalhá-la por parte da orla brasileira.

Tenho o pressentimento de que nós, cariocas, ainda veremos a parte de metal pesado que nos cabe nesse latifúndio.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Mocinhos e bandidos

Colocar o Estado Islâmico isoladamente como um bando de loucos disposto a acabar com o Ocidente é muito cômodo. São eles os vilões planetários? Chegaram num disco voador?

A violência não vem de fora, dos confins do deserto, ela está entre nós, faz parte de nós, nos impregnou irremediavelmente, nós a disseminamos diariamente com gestos, palavras ou pensamentos, somos todos pais e mães do radicalismo e da barbárie.

Excluímos milhões do sistema produtivo e da renda, nossas corporações matam rios inteiros em questão de minutos, as instituições estão corrompidas, roubamos verba de merenda escolar e de hospital, ensinamos sexo, consumo e violência às crianças, não respeitamos resultado de eleição e nem sinal vermelho, nosso esporte mais popular permite chutar o rosto de um oponente caído, mata-se nas ruas por um real, esfaqueia-se, esbofeteia-se, manipula-se notícias descaradamente, juízes vendem sentenças, PMs jogam meninos de rua do penhasco, mendigos são queimados vivos, fascistas perseguem refugiados de guerra, o desemprego mundial joga multidões nas trevas, as geleiras do pólo derretem, os CEOs das multinacionais esburacam a camada de ozônio, a água potável está no fim, estupro é o crime da moda...


E o problema é o Estado Islâmico.

domingo, 15 de novembro de 2015

Era uma vez um rio

Mais do que todas essas mortes vãs, essa insanidade, choca o coração endurecido o assassinato do Rio Doce. Quando um rio morre, morremos todos.

Jue suis peixe do Rio Doce, vítima do estado lâmico.

Sempre soube que homens matam homens sem dó. Mas matar um rio inteiro assim, de uma vez... Isso é que é sinal de progresso.

E agora Vale, quanto vale o Rio Doce?



quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Crônica do Facebook (ou a divina comédia humana)

Fulaninho Bem Colocado posta:

"Ih, acabei de espirrar"

649 curtidas - 32 compartilhamentos


Comentários:


Josefina Gente Fina

"kkkkkkkkkk, muito bom!"


Pela Saco de Almeida:

"Melhoras, irmão!"


Mascarenhas i Morais:
"Essa friagem é culpa do lulopetismo!"


Baba Ovo Profissa:

"Conheço um bom médico, mando o endereço inbox"



Armando Amigo da Onça Junior:

"Vamos marcar de nos ver. Pode ser no dia em que o morcego doar sangue ou quando o saci cruzar as pernas. O que for melhor pra você"



Johnny Bajulaichon:
"Tamo junto, brother!"



Crente Queabafa:

"Segura na mão Dele que tudo vai passar."



Zé Ruela:

"Também espirrei, amigo!"

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Imagine...

Esconder o nome da Vale na tragédia de Mariana é a obsessão da mídia. Logo a Vale, que era nossa e FHC vendeu a preço de banana, e cujos prejuízos a grande imprensa atribui à crise internacional (se fosse estatal seria má gestão e corrupção). 

Imagine se fosse a Petrobras a dona da barragem... imagine se a maior plataforma de petróleo do mundo tivesse afundado num governo do PT e não do PSDB... imagine se tivessem contra Dirceu e Genoíno as provas que há contra Eduardo Cunha... teriam enforcado ambos em praça pública... imagine se tivessem apreendido o avião de um amigo do Lula lotado de cocaína...

O que muita gente não entende é que não se trata de comparar os governos do PT e os do PSDB _ até porque os indicadores econômicos e sociais são todos favoráveis aos primeiros, não há nenhum em que os tucanos tenham apresentado melhor performance.

O que se discute é o tratamento que a imprensa empresarial dá a ambos. A diferença na cobertura é flagrante e injusta. Alguns órgãos de imprensa querem fazer crer que a corrupção no Brasil começou em 2002, quando na verdade foi então que ela começou a ser combatida de verdade e denunciada com vontade pelos mesmos que a acobertavam.


sexta-feira, 6 de novembro de 2015

O super-herói


Reprodução do livro

Futebol não se aprende. Você joga ou não joga. Aos 3 anos, Roberto Rivellino já chutava do seu jeito mágico. Sua carreira foi tão brilhante, a tantos ele encantou mundo afora, que agora sua vida virou um livro. Um craque como Rivellino já nasce no auge, pronto, um campeão.

Reprodução do livro


Eu era o segundo da fila. Na minha frente, um quase eu. Nasceu no mesmo ano, quatro meses depois de mim, tricolor, claro, apaixonado por Rivellino desde a mais tenra infância. Enquanto o ídolo não chega, meu novo-velho-amigo me conta sua história com o dono da perna esquerda mais genial do mundo:

_ Quando eu tinha 12 anos, estava saindo com meu pai do Maracanã e o Rivellino vinha saindo também. Eu estava chupando um picolé e ele chegou e disse pra eu pagar um sorvete pra ele. Meu pai pagou um picolé de limão pro Rivellino!

Eu disse pra ele lembrar isso na hora em que o gênio da bola fosse autografar seu livro, embora eu saiba que todo ídolo, no fundo, despreza os fãs. Atrás de nós, surge o terceiro da fila, um senhor careca e de óculos. Sério.

_ Mais um fã do Rivellino... _ puxo assunto.

_ Joguei com ele _ diz o sujeito, com voz mansa.

_ Peraí, eu te conheço de algum lugar... você...

_ Zé Roberto.

_ Caramba! Você é o Zé Roberto?

_ Sim, vim lá de Três Rios.

_ E eu vim de Teresópolis _ diz meu novo-velho-amigo tricolor.

E ficamos lá, ouvindo as histórias que o Zé Roberto contava de sua convivência com Riva na Máquina de 1975. Ele lembra a única vez em que ousaram colocar o craque do time no banco de reservas. Foi num amistoso, no Maranhão talvez. Zé, então um garoto, aproveitou para tintar o ídolo que nunca sentava ali ao seu lado. Pegou um cadarço da chuteira, imitou o bigode famoso do companheiro e pediu que tirassem uma foto...


Reprodução do livro

O técnico Jair da Rosa Pinto, que cometeu a heresia de barrar um gênio, foi demitido assim que desembarcou no Rio.

Mais gente vai chegando à livraria, repórteres, cinegrafistas, tricolores de toda a Terra...


Foto: Marcelo Migliaccio

De repente, vislumbro o bigode inconfundível lá na entrada.

_ O homem chegou!


E lá vem o Rivellino, com aquele andar característico de boleiro das antigas, jogando as pernas como se estivesse se aquecendo para entrar em campo. Mas o tempo passou, o show nos campos terminou, segue apenas na nossa memória, pra sempre. O Garoto do Parque agora é um senhor, calvo, barriga saliente, muitas rugas que nos contam o início fulminante no Corinthians, a perseguição da Fiel, a redenção no Rio, três Copas do Mundo, vida de sheik na Arábia Saudita...

Evidentemente, também as benesses da fama. Zé Roberto entrega:

_ Uma vez o Riva chegou doido na concentração, disse que tinha ido ver uma peça e depois jantar com alguns atores e atrizes. Aí, ele sentiu que uma atriz, casada, o acariciava com o pé por debaixo da mesa. Essa atriz era linda...

Rivellino abraça o velho companheiro. Os dois se emocionam. Nós também.


Foto: Marcelo Migliaccio


Aparece Francisco Horta, o ex-presidente do Fluminense que revolucionou o futebol do Rio ao contratar o então melhor jogador do mundo. O visionário Horta, que deu a todos nós o melhor presente naquele Natal de 1974.


Foto: Marcelo Migliaccio

E, para o presidente, uma dedicatória especial...


Foto: Marcelo Migliaccio

Olho fixamente aquele homem autografando livros. Vejo meu passado, minha infância, aqueles anos felizes em que eu me imaginava ele nas peladas da pracinha. Volto aos meus 12 anos. A fila está grande. Um monte de marmanjos de 12 anos de idade, alguns de camisa do Fluminense, todos vivendo um delicioso transe.

Além de fazer o que queria com a bola, Rivellino faz o que quer com o tempo... coisa que só um super-herói faz.


Foto: Marcelo Migliaccio



quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Lamento ponderado

Eu não gosto de ser radical. Verdade, detesto. É como uma droga. Você usa e depois do barato, da catarse, se arrepende. Vem uma certa ressaca moral. O radicalismo político, então, carrega, além da eterna dúvida sobre a pertinência do maniqueísmo, o risco de se colocar a mão no fogo por outrem. 

Mas quando eu leio um texto como o do Nelson Motta achincalhando a mulher do Lula, ou do Jabor, dizendo que o Lula decepou o dedo de propósito para não trabalhar, ou quando fico sabendo que o Jornal Nacional ignorou a queda do dólar e a alta nas ações da Petrobras, olho na banca a capa da Veja, ou topo com idiotas pedindo a volta da ditadura militar... me pergunto: que saída me resta?

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Herbert de Souza

Ontem, Betinho faria 80 anos. Não viveu pra ver seu Fome Zero virar programa de governo. Enquanto foi uma andorinha idealista, a direita até o reverenciava. Quando efetivamente começaram a matar a fome dos milhões de brasileiros, sua figura foi esquecida, sua imagem sumiu da mídia.

Se vivo ainda fosse, talvez estivesse sendo enxovalhado na internet e até na mira do justiceiro Moro. "Vai pra Cuba, comunista!", gritariam as coxinhas histéricas na Avenida Paulista...




terça-feira, 3 de novembro de 2015

Hommer Simpson, o monstro

Enquanto os neofascistas brasileiros estavam xinjgando e até ameaçando matar a presidente, era uma "revolta natural", mas bastou a truculência sobrar para a atriz negra e a indignação seletiva dos deformadores de opinião tomou conta das primeiras páginas.

Quando os nazistas devoradores de novela da Barra da Tijuca e de Alphaville saírem do controle, essa mesma mídia _ que os vem turbinando com seu noticiário enviesado, manipulado, tendencioso e discricionário _ se arrependerá amargamente. Alguém precisa avisar logo aos "jornalistas isentos" que o Hommer Simpson, como tão bem o locutor-âncora certa vez definiu seu público-alvo, pode deixar de ser apenas um idiota conveniente para se transformar num monstro perigoso. Uma aberração que nasce do acasalamento entre tubarões e gorilas.

Será tão absurdo relacionar o atual estágio de indigência mental do povo brasileiro ao poder descomunal que a mídia adquiriu no país nas últimas décadas? Quem educa o brasileiro na realidade não são nossas escolas públicas sucateadas mas os desenhos violentos da manhã, a novela sexista da tarde e o noticiário viciado da noite. No turno vespertino, nossos alunos estão entregues a professores honoris causa com doutorado em fofoca, maledicência e crimes bárbaros.

E o espírito, ah, o espírito... tão bem cuidado por Malafaia, Macedo, Valdemiro...

Há mais de dez anos, os principais órgãos de imprensa do Brasil vêm promovendo a demonização de um partido político e, com isso, fomentando a intolerância. Esquecem que a serpente que toma corpo não é só uma criatura antipetista, como desejam, é também racista, violenta, machista, falso-moralista e, claro, calhorda como seus criadores.

Boa noite.


domingo, 1 de novembro de 2015

Vida

Para uns, a vida é uma corrida, para outros uma caminhada.

Para os da corrida, a graça é ultrapassar, deixar adversários pelo caminho.

Os da caminhada se contentam em andar lado a lado.

Quem corre nem vê por onde passa.

Melhor desfrutar do caminho.

Corredores falam com pressa, ficam sem ar.

Andarilhos conversam com quem está do lado.

E não se importam com os esbarrões dos apressados

Afinal, todos se encontrarão na linha de chegada.

Foto: Marcelo Migliaccio