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sábado, 29 de novembro de 2014

Desequilíbrio ecológico

Trazido por um imbecil para um habitat que não é o seu, o mico ronda o ninho do bem-te-vi. Quer comer todos os ovos.

O bem-te-vi espanta o mico, que foge pelos fios de alta tensão. O pássaro dá rasantes, fustigando o pequeno primata com seu bico de rapina. Defender os seus é seu único instinto.

Embaixo de um carro, o gato espreita a luta lá no alto. Seria capaz de almoçar aquele macaco e jantar o passarinho, honrando assim seu parentesco com os grandes felinos caçadores.

Pela janela da casa luxuosa, um adolescente fascista não tira os olhos do gato. Seu fetiche é torturar o bichano e colocar o vídeo na internet. Legal!

Sentado na esquina,  o menino sem futuro mira o relógio do adolescente fascista. Se conseguir roubá-lo, venderá por cinco reais para comprar uma pedra de crack.

De dentro da viatura, o policial vigia o futuro assaltante-sem-futuro. Se tiver chance, vai jogá-lo do alto do morro do Corcovado.

Morro onde os micos alienígenas, trazidos de longe por um imbecil, se proliferam.



quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Debaixo do pano

É sabido que aqui no Brasil muita coisa acontece debaixo do pano. Mas uma delas ainda passa despercebida aos olhos dos que tentam moralizar as coisas.

O assunto deve despertar especial interesse nos turistas que pretendem passar o Réveillon em Copacabana, o maior, o mais grandioso, o mais espetacular programa de índio do planeta. Sim, uma balbúrdia infernal com 2 milhões de pessoas bêbadas, legiões de assaltantes à espreita e barulho e sujeira para ninguém botar defeito.

Além de todo esse caos, uma armadilha se esconde em boa parte dos restaurantes da lendária Avenida Atlântica. Está nas mesas dispostas no calçadão, porém não é notada pelo incauto freguês, que nunca tem a iniciativa de levantar a toalha e olhar o estado miserável em que se encontram. Se o cliente passasse por ali de manhã bem cedo, antes de as toalhas serem colocadas, pediria a conta sem nem mesmo sentar.

Foto: Marcelo Migliaccio


Algumas mesas parecem ser da época da santa ceia. E pensar que, na última noite do ano, comer uma gororoba sobre um desses poleiros de pombo chega a custar R$ 500,00 por pessoa...

Foto: Marcelo Migliaccio


Justiça seja feita: há estabelecimentos, geralmente os mais novos, que ainda têm mesas apresentáveis.

Foto: Marcelo Migliaccio


Mas a regra é a seguinte: quanto mais antigo o restaurante, pior o estado das mesas.

Foto: Marcelo Migliaccio


Quando está tudo arrumadinho, é difícil suspeitar que debaixo dessas lindas toalhas haverá mais fungos e bactérias do que grãos de areia na praia.

Foto: Marcelo Migliaccio


O Rio tem uma lei que obriga os restaurantes a abrirem suas cozinhas ao cliente para uma rápida inspeção na higiene. Pois deveriam também obrigar os gerentes a levantarem as toalhas das mesas para que víssemos o estado em que se encontram. É de causar indigestão.

Foto: Marcelo Migliaccio






* Prepare-se para ler sobre isso em algum jornal carioca nos próximos dias...

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Tigres e dragões

Outro dia, tive que rir com um desses apresentadores de programas policiais da TV.

_ Se vierem me assaltar eu reajo e atiro primeiro. Não quero saber se depois vão me processar. Prefiro ser julgado por sete que carregado por seis.

Nenhuma das duas alternativas me parece vantajosa.

A tragicômica declaração reflete uma preocupação comum a todos nos dias atuais. Envolver-se numa confusão, mesmo que involuntariamente, é um risco que corremos em cada esquina. E, quando o perigo se apresenta, o que fazer?

Todo valentão é um retardado. Sim, depois que inventaram a arma de fogo (e já faz tempo), os corajosos tornaram-se uma espécie em extinção. Claro, como eram muito numerosos dada a vaidade inerente ao ser humano, ainda há muitos valentões por aí. Mas não tantos quanto no tempo das diligências. Desde então e diariamente, vários são abatidos à bala. Cowboy, só no cinema.

Não interessa se o cara é fera em algum tipo de luta, ou em MMA, que misturou todas tornando a briga de rua o esporte que mais cresce no mundo. Basta um esquálido apontar uma pistola na direção do lutador e… babau.

Pelo fato de simplesmente analisar o mundo que o cerca e trabalhar com possibilidades, riscos e vantagens, o homem inteligente jamais reage a uma provocação.

Se, num supermercado, um imbecil furar a fila e entrar na sua frente, deixe pra lá. Dê uma reclamadinha protocolar mas não vá além disso. Se o cara quiser comprar uma briga com você, conte até dez e fique na sua. Se a coisa parar por ali, o que você perderá? Dois minutos ou três até que aquele suicida em potencial registre e pague seu carregamento de batata chips e refrigerante? É muito pouco para arriscar-se a interagir com um desconhecido. Se ele quer morrer, não serei eu a realizar seu desejo.

Se, no entanto, sua vaidade obrigar você a reclamar com o furão, as perspectivas não serão nada boas. Digamos que após os xingamentos, os dois partam para as vias de fato (não vou considerar a hipótese extrema de homicídio). Ou você vai bater ou apanhar.

Se bater, poderá ser processado por lesão corporal e até preso. Na cadeia por não querer perder dois minutos na fila... E, se apanhar do furão, pior ainda. Imagine, ficar banguela ou com o olho roxo porque sua vaidade não deixou que você engolisse aquela perereca.

No transito, também, o valente corre sério risco de se dar mal. O medroso não: leva fechada, fica na dele e sai ileso.

Qualquer animal, seja ele grande como o elefante ou forte como o leão, evita o contato com tudo que pode ser perigoso. O embate é sempre sua última opção.

Deveria ser a nossa.

domingo, 16 de novembro de 2014

Corrupto e corruptor

Quem apareceu primeiro, o ovo ou a galinha? Pra mim foi o ovo, que geraria um ancestral das penosas bem parecido, mas que ainda não era uma galinha como a conhecemos hoje. Uma mutação dentro daquele ovo fez surgir então, a primeira galinha da História, para alegria dos galos de plantão, que já estavam subindo pelas paredes.

Mas a questão aqui é outra. Como a galinha, ela também dá pena, só que outra pena, a pena do dinheiro público que se esvai na corrupção. E nesse caso também falta pena, pena de prisão para corruptos e corruptores.

Quem é mais culpado, o corrupto ou o corruptor?

A questão entrou na ordem do dia porque, pela primeira vez, executivos de grandes empreiteiras foram para atrás das grades. Trocaram seus colchões de pluma de faisão dinamarquês por colchonetes-entorta-cervical e seu caviar por arroz e feijão com macarrão, especialidade do cardápio na carceragem da Polícia Federal.

Como diria um certo barbudo, "nunca antes na História deste país" corruptores de tal monta foram presos. Espera-se que a nossa Justiça não os solte e que os milhões das negociatas voltem para os cofres públicos. São milhões, bilhões que fazem falta nos hospitais e nas escolas, nas vielas sem esgoto e nos barracos insalubres.

Mas, voltando à pergunta do dia. Pra mim, o corruptor é mais culpado, deveria, portanto, ter uma pena maior do que a do funcionário público que aceita propina. O motivo é simples: se as empreiteiras não pagassem o suborno, não haveria corrupção. O servidor público corrupto da Petrobrás, assim como o da Polícia Militar, da fiscalização sanitária, da Receita Federal etc só recebe por fora porque alguém aceita pagar. Alguém que não pensa no próximo nem no futuro, só em si mesmo, na sua conta bancária.

Se ninguém pagasse propina, o corrupto morreria de inanição financeira.

Se esses peixes grandes pegos agora ficarem na cadeia, se forem condenados a penas exemplares e, mais importante, se cumprirem suas penas na tranca, a frase dita ontem pela presidente Dilma vai virar verdade: o país vai mudar.

Com a faca e o queijo na mão, está o poder Judiciário. Depende dele a mudança de mentalidade que só vem com um belo exemplo.



sexta-feira, 14 de novembro de 2014

O novo Pelé

Há coisas que a gente escuta desde pequeno.

"Nunca mais vai nascer outro Pelé" é uma delas.

Outra: "Igual a Pelé só nasce de cem em cem anos".

Como a maioria das coisas que a gente escuta desde pequeno, essas duas são "verdades" de araque.

Nasceu outro Pelé e ele se chama Neymar. Sua genialidade excede a média dos craques. Sim porque existe o jogador bom de bola, o craque, o super-craque e o Pelé. Antes de Neymar, o único Pelé que eu conheci chamava-se Diego Maradona. Agora, surgiu mais um: esse magrelo com cara de criança e cabelo esquisito. Portanto, na minha curta existência, já vi surgirem dois Pelés, fora o original, que só vi jogar de perto uma vez, em 1976, um ano antes da aposentadoria definitiva.

Neymar é um novo Pelé. Cheguei a essa conclusão não pelos gols que ele faz desde que surgiu no Santos (como Pelé) ainda um moleque. Nem pelas jogadas imprevisíveis e nunca vistas, como, por exemplo, dar um passe usando, pasmem, as costas.

Digo isso pelo que vi no estádio da Turquia onde a seleção brasileira jogou há alguns dias. O Brasil enfiou 4 a 0, com dois gols de Neymar. Até aí, nada demais. O inusitado foi a reação dos milhares de turcos, que não só aplaudiram o genial brasileiro como vaiaram seus compatriotas que ousaram derrubá-lo com faltas.

Quem viu o filme Expresso da Meia-Noite sabe que os turcos não são de brincadeira. No futebol, seus torcedores estão entre os mais fanáticos do planeta. Dizem que os brasileiros, quando estão num estádio, vaiam até minuto de silêncio. Pois os turcos são capazes de ressuscitar o morto para que a partida comece logo. Ou seja, aquela massa que nunca primou pelo fair play rendeu-se a Neymar.

Eu já tinha visto, aqui no Brasil, a torcida do Cruzeiro aplaudir esse jogador fora de série num jogo em que ele, atuando pelo Santos, destruiu o time azul em plena Belo Horizonte. Agora foi a vez dos truculentos turcos trocarem os apupos do início da partida pelas palmas e gritos de "Neymar!!!".

Isso só aconteceu antes com Pelé, acho que nem com Maradona, que era bad boy demais para ser unanimemente reverenciado.

Por isso afirmo sem medo de errar: nasceu outro Pelé, e ele se chama Neymar.



segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Caatinga Atlântica


Paisagem semelhante, eu só tinha visto no agreste pernambucano, a caminho de Caruaru. Vegetação seca, em vez de verde, a cor predominante é o marrom.


Foto: Marcelo Migliaccio


Folhas queimadas impiedosamente pelo sol, que parece ter tido um ataque egocêntrico e dado um cartão vermelho para a chuva, tornando-se a estrela solitária desse triste espetáculo. Se o sol nunca rimou com tristeza, bastou tirar a chuva de cena para que, sem o antagonista tão fundamental, o astro-rei se transformasse no vilão da história.

Foto: Marcelo Migliaccio


Não, não estamos mesmo no Nordeste, mas numa das poucas reservas de Mata Atlântica que resistem no Rio de Janeiro. Estamos no costão do Pão de Açúcar, onde os cinquenta tons de verde têm agora a companhia do marrom.

Foto: Marcelo Migliaccio


Se qualquer vestígio de água dá a esperança aos nossos cientistas de que pode ter havido vida em marte, a ausência dela aqui na Terra nos traz o fantasma da própria extinção.

Foto: Marcelo Migliaccio


A seca que tantos transtornos já causa aos paulistas chegou ao Estado do Rio. Era um problema do vizinho, agora é nosso também. Nossos políticos, que se apressaram em negar água aos irmãos, agora experimentam os primeiros efeitos da falta do precioso líquido. E logo São Paulo, onde tantos hostilizam os nordestinos, foi o primeiro estado no sul maravilha a provar o gosto amargo do flagelo da seca que tanto fez sofrer os discriminados patrícios lá de cima.

Foto: Marcelo Migliaccio


Enquanto muitas plantas morrem, a jaca ainda prolifera num cenário assustador. Mas quem come jaca?

Foto: Marcelo Migliaccio


Será que vai chover? Chover, vai, só não sei quando. E, quando chover, sai de baixo. Sempre ouvimos que o clima no planeta está mudando, só que eu acho que já mudou, e de uma hora para a outra. O último relatório climático avisou que em 100 anos dois terços da população mundial não terão água potável. Será que foram otimistas quanto ao prazo? Foi o que nossos brilhantes executivos conseguiram além de gerarem dinheiro que não acaba mais. Todo esse dinheiro vai nos salvar? Seus carrões blindados vão livrá-los da desertificação? Quem polui mais? A China, os Estados Unidos, ou o emergente Brasil? Quem está em primeiro no ranking da destruição da camada de ozônio?

Pobre sol, tornado vilão de um roteiro funesto, escrito há décadas pelos donos de um sistema produtivo que faz propagandas tão hipócritas quanto caras na televisão 

"Isso muda o mundo"…

Mudou mesmo. 

Foto: Marcelo Migliaccio


Em outros cantos da cidade, o quadro é semelhante.

Foto: Marcelo Migliaccio


Isso é grama que se apresente?

Foto: Marcelo Migliaccio



Tanta água em volta… e tanta melancolia no cartão postal.

Foto: Marcelo Migliaccio