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quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Fla-Flu

Se eu tivesse uns 13 ou 14 anos estaria eufórico. Semana de Fla-Flu era especial. A ansiedade ia crescendo e culminava com 90 minutos de emoção. E o clássico se prolongava pelos dias seguintes, com as gozações na rua, a lembrança de cada lance que tornara aquela mais uma batalha épica dos eternos rivais.

Fla-Flu sempre foi festa, diferente de outros clássicos, marcados pela animosidade. Era ali a rivalidade entre pai e filho, entre vizinhos da Zona Sul do Rio. A turma da Gávea contra a turma das Laranjeiras. Um jogo colorido. Isso, um jogo colorido.


O ingresso de um Fla-Flu era um troféu a se guardar

Mas era outra época. A diferença básica é que os jogadores eram identificados com seus clubes. O Zico era o Flamengo, o Fluminense era o Carlos Alberto Pintinho, que o próprio craque maior da Gávea declarou ter sido seu melhor marcador. Cada clube tinha os seus jogadores, não havia essa ciranda mercenária e irreal de hoje. O amor à camisa pendurou as chuteiras junto com Liminha, Félix, Merica, Denílson. Até com salário atrasado eles corriam. Agora, mesmo os garotos que vêm das divisões inferiores só pensam no dia em que pegarão um avião e se mandarão para a Europa. As empresas bancam salários absurdos, anabolizados pela verba da TV, que alavanca grandes patrocinadores e deixa os estádios quase sempre às moscas. Quanto ganha um professor? Um policial? Os craques faturam R$ 700 mil, R$ 1 milhão. Quem ganha R$ 1 milhão por mês nunca vai dar o sangue pelo time. Com um salário desses não se ama a camisa, só a camisinha.

Os atletas de ponta hoje são alimentados a pão de ló. Não por acaso, o melhor jogador do Campeonato Brasileiro é o obeso Walter, do Goiás.

Vi o documentário Fla-Flu - 40 minutos antes do nada e senti imensa nostalgia de um futebol que não existe mais. Embora os torcedores mais velhos tentassem em seus depoimentos fazer crer que a chama ainda está acesa, o Fla-Flu não é mais o mesmo porque os clubes não existem mais a não ser para alugarem seus lendários uniformes para empresas fazerem propaganda. Num dos trechos do documentário, é mostrada a comemoração dos jogadores do Flamengo ao final da decisão de 1963, contra o tricolor. Diante de inacreditáveis 194 mil pessoas, a alegria dos atletas rubro-negros, pulando e dando cambalhotas como crianças é impensável hoje em dia. Na era do Cifrão Futebol Clube, o jogador vibra pela glória pessoal, pela chance de ganhar mais dinheiro em outro clube na próxima temporada. Antes, eram torcedores de chuteira defendendo suas bandeiras com o coração. Agora, não há o menor vínculo afetivo. O triste é que os momentos mais emocionantes do filme se passam num Maracanã que não existe mais, transformado hoje numa fria arena onde o povão não tem grana para entrar.

Domingo tem Fla-Flu e, francamente, eu não estou nem aí. Talvez eu esteja ficando velho, porque a impressão que tenho é que os jovens de hoje se contentam com esse futebol porque não conheceram a magia do outro.

A imprensa vai fazer tudo para dizer que a mística do clássico ainda está viva, mas é forçar a barra para vender um produto como outro qualquer, a novela das seis ou o novo reality show, por exemplo.

Aliás, até na TV está difícil ver futebol hoje em dia. Como aturar comentaristas que chamam estádio de "equipamento", craque de "jogador diferenciado" e passe de "assistência"?

Mas o pior é quando dizem que o jogador Fulano de Tal (hoje todos têm dois nomes) "vai buscar a titularidade".

Vai buscar onde, amigo, no cartório?

Que saudades do Saldanha, do William Prado e do Nelson Rodrigues, para quem, aliás, "tudo é Fla-Flu, o resto, paisagem". Era.



LEIA TAMBÉM:
O fim do futebol
O meu Maracanã
O velho amigo
Homenagem póstuma a uma paixão nacional

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

A partir de agora, todos nus

A grande imprensa anuncia de forma triunfal que os artistas capitularam. Desistiram de postular a obrigatoriedade de autorização prévia para que pretensos biógrafos escrevam sobre suas vidas privadas baseados em versões de terceiros. Caetano, Chico, Gil, Djavan, Roberto e Erasmo, entre outros membros do grupo Procure Saber, vão continuar a ter que ir aos tribunais se não gostarem do que está sendo publicado sobre eles.

A guerra com a mídia foi pesada como mostrou a entrevista que Roberto Carlos deu a um programa dominical de TV. Segundo a colunista Sonia Racy, do Estado de S. Paulo, o Rei ficou chateado com a edição que fizeram de suas declarações, suprimindo deliberadamente três pontos que ele julgava fundamentais. E olhe que trata-se de um artista exclusivo da emissora...

Brigar com os donos dos meios de comunicação de massa nunca foi a desses artistas, com exceção de Chico Buarque numa determinada época. Se o black bloc Tim Maia ainda estivesse vivo, talvez essa queda de braço tivesse sido mais dura. Seria um vozeirão a mais contra a exposição não autorizada da intimidade, sobre a qual, pela lei, todo cidadão tem pleno direito.

Com a amarelada do grupo Procure Saber, fica então valendo aquele argumento de que, se os artistas precisam da mídia e do público para ganhar a vida, que entreguem de mão beijada sua privacidade. Os incomodados que reclamem nos tribunais.

Acho que na prática, todos eles colocarão seus advogados para agir assim que souberem que tem gente escarafunchando suas vidas particulares a pretexto de "contar a História do Brasil". Se é isso que o biógrafo quer, que escreva sobre suas carreiras, não sobre suas brigas conjugais ouvidas por vizinhos de ouvido colado na parede.

Eu, de minha parte, continuo acreditando que somos donos da nossa intimidade e que esse direito individual se sobrepõe à muitas vezes tirânica, e conveniente apenas para alguns, "liberdade de expressão". Afinal, leis só existem porque bom senso é um artigo raríssimo no mercado.



LEIA TAMBÉM:
Biografias: a intimidade é sagrada
O babaca da história

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Pré-sal para sairmos da pré-história

Excelente o resultado do leilão para a exploração do petróleo no pré-sal. Nem a Miriam Leitão conseguiu falar mal (e olhe que ela se esforçou). Contrato vantajoso para o povo brasileiro, soberania preservada. A Folha, cuja diretoria toda pegou um avião e foi a Recife beijar a mão de Eduardo Campos (será que foram propor uma coligação?), caiu mais uma vez no ridículo em seu editorial. Chamou o bônus de R$ 15 bilhões que as petrolíferas pagarão à União e o percentual de 41% da produção que terão que deixar aqui no Brasil de "resultado modesto" para a Petrobrás.

E os lacaios colonizados choramingando que a Esso, a BP e outras gigantes não quiseram participar. Na certa, seus capitalistas profissionais acharam que 75% para o Brasil é muito. E os nossos colunistas lamentando e dando ênfase ao beicinho ganancioso dessas multinacionais. Isso é que é complexo de vira-lata, o resto é figuração.

Com dores lancinantes no cotovelo, Aécio Neves acusou Dilma de usar o acordo do pré-sal para fazer campanha na TV. Ele queria que ela deixasse apenas a oposição falar.

E a Marina Silva? Com seu discurso vazio e cheio de chavões de sempre, ela preferiu falar do Código Florestal no Estadão, que foi correndo procurar sua comentarista política preferida para avaliar o leilão da camada do pré-sal no campo de Libra, que vai tornar o Brasil o quinto maior produtor mundial de petróleo (hoje é o número 22). Já vou preparar minha roupa de sheik árabe e deixar de novo o cavanhaque crescer. Como é doce o pré-sal...

Na porta do hotel na Barra da Tijuca onde ocorreu o leilão, os black blocs e os petroleiros xiitas jogaram pedras em bilhões a mais para a educação e para a saúde. É muita grana, que vai melhorar muito a vida da população se prefeitos, secretários de saúde e diretores de hospitais e de escolas não desviarem a verba _ e se a Justiça condenar sem dó aquele que desviar.

Foto: Marcelo Migliaccio

sábado, 19 de outubro de 2013

Grandes encontros da História XLVIII

Primeiro o genial Fred Astaire dança com a não menos brilhante Ginger Rogers.

Depois, ele flana com Rita Hayworth, a maior diva do cinema e que completaria 95 anos nesta semana.


terça-feira, 15 de outubro de 2013

Biografias: a intimidade é sagrada

Sou leitor contumaz de biografias. Reconheço que há ótimos ficcionistas, como Aluisio de Azevedo e Charles Bukowski,  por exemplo, no entanto prefiro a fértil imaginação do destino, as histórias que realmente aconteceram e que mostram como o imprevisível ronda o ser humano. De Garrincha a Mao Tse Tung, de Charles Chaplin ao Capitão Aza, de Dercy Gonçalves a Keith Richards, leio todos os relatos biográficos que posso. Só quando o biógrafo é muito ruim de prosa eu paro no meio, porque aí também não há santo que resista.

Então, se há alguém que deveria estar contra esse movimento pela proibição de biografias não autorizadas, esse sou eu. Encabeçada por nomes consagrados da cultura nacional como Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil, a iniciativa vem sendo repudiada por meio mundo por ser, segundo seus opositores, uma forma de censura.

Politicamente, quase nunca concordo com Caetano Veloso, o que não se aplica ao Chico Buarque, com quem sempre tive mais afinidade ideológica. Admiro e curto ambos como artistas. Para mim, junto com Gil e Raul Seixas, são os maiores compositores da música brasileira. Entretanto, agora que o autor de Alegria Alegria sofre uma saraivada de críticas, sou obrigado a me colocar ao seu lado.

Antes de ser um admirador de biografias, sou jornalista. E uma das coisas mais importantes que aprendi na faculdade é que o direito à privacidade é sagrado, ou deveria ser, porque diariamente a mídia desrespeita esse postulado, expondo à execração pública famosos e anônimos em seus noticiários sem dar a menor importância aos efeitos que isso terá na vida do sujeito dali em diante.

Quando Roberto Carlos entrou na Justiça para proibir sua biografia, eu já tinha o livro. Li e gostei mas achei que o cantor tinha todo o direito de não querer que fosse publicado.

Pública é a obra do artista, não sua intimidade. Esta é indevassável, inviolável, nem que para isso sejam contrariados os interesses comerciais da indústria milionária da fofoca e da maledicência. E algumas das melhores histórias de vida que li foram contadas pelos próprios, como as de Lobão, Dercy Gonçalves e Ron Wood, o que prova que não necessariamente o auto-biografado deixa de revelar suas feridas e fraquezas.

Alçado à condição de mito pela imprensa por ter relatado um processo contra petistas, o ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa se disse contra a proibição das biografias não autorizadas. Segundo ele, o livro deve ser publicado e, se o biografado se sentir ofendido ou exposto indevidamente, que entre na Justiça para reclamar. Essa é boa. O cara está em casa, tranquilo e, de repente, precisa contratar um advogado para impedir que sua vida, contada por outra pessoa sem autorização, não seja devassada nas prateleiras dos supermercados. Mais uma vez, discordo do Joaquim Barbosa.

Se o biografado ou seus herdeiros (o que já seria arriscado) não autorizarem, não tem biografia. Perderemos de ler algumas boas histórias, é verdade, mas o direito à privacidade estará preservado.

Como argumento definitivo, alguém pode citar a Bíblia, que seria a história da vida de Cristo, só que eu vou duvidar de muita coisa escrita ali até ver a autorização Dele por escrito...

Meus colegas jornalistas, na maioria, vão discordar de mim, porque aprenderam com os chamados "formadores de opinião" (a turma que detém a grana e os alto-falantes) que censura é um palavrão se impedir o lucro de alguém, mas é muito bem vinda quando serve para banir algum adversário político dos meios de comunicação (como fizeram com Lula quando ele surgiu nas greves do ABC e com Brizola durante sua vida inteira). Aqueles que hoje clamam por liberdade irrestrita foram os mesmos que baniram da mídia Tim Maia, Simonal, Taiguara e tantos outros pelos mais diferentes motivos. Aliás, muitos crimes foram cometidos em nome dessa tal liberdade de expressão depois que as ditaduras se encarregaram de desmoralizar a palavra censura. Destruir reputações com interesse político ou econômico é prática constante na nossa imprensa e quem se colocar contra é logo classificado como "antidemocrático".

E, se você ainda não concorda comigo, pode procurar um advogado, pois começo a escrever a sua biografia amanhã mesmo e vem chumbo grosso...

sábado, 12 de outubro de 2013

Para entender os black blocs


Foto: Marcelo Migliaccio


Quando nascemos fomos programados
A receber o que vocês
Nos empurraram com os enlatados
Dos U.S.A., de nove às seis.
Desde pequenos nós comemos lixo
Comercial e industrial
Mas agora chegou nossa vez
Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês
Somos os filhos da revolução
Somos burgueses sem religião
Somos o futuro da nação
Geração Coca-Cola
Depois de 20 anos na escola
Não é difícil aprender
Todas as manhas do seu jogo sujo
Não é assim que tem que ser
Vamos fazer nosso dever de casa
E aí então vocês vão ver
Suas crianças derrubando reis
Fazer comédia no cinema com as suas leis
Somos os filhos da revolução
Somos burgueses sem religião
Somos o futuro da nação
Geração Coca-Cola
Geração Coca-Cola
Geração Coca-Cola
Geração Coca-Cola
Depois de 20 anos na escola
Não é dificil aprender
Todas as manhas do seu jogo sujo
Não é assim que tem que ser
Vamos fazer nosso dever de casa
E aí então vocês vão ver
Suas crianças derrubando reis
Fazer comédia no cinema com as suas leis
Somos os filhos da revolução
Somos burgueses sem religião
Somos o futuro da nação
Geração Coca-cola
Geração Coca-cola
Geração Coca-cola
Geração Coca-cola


Geração Coca-cola 
(Renato Russo e Dado Vila Lobos)


sábado, 5 de outubro de 2013

O circo chegou!



Foto: Marcelo Migliaccio



Sempre adorei circo. Quando era criança, ia a todos que aportavam na Praça Onze, onde hoje é o Terreirão do Samba. Ali, vi Orlando Orfei, Bartholo, Garcia, Tihany e tantos outros menos famosos, graças ao meu pai, que também gosta muito.

Anos mais tarde, entrevistando Orlando Orfei para o Jornal do Brasil, fiquei pasmo com a grandeza do seu circo, apesar de já estar um tanto decadente na época. Os números com animais haviam sido proibidos, o que se por um lado acabou com aquela crueldade toda, fez com que o espetáculo circense perdesse muito da sua força.

Foi melhor assim. Animais não têm noção de que estão participando de um show e divertindo as pessoas. Para eles, aquilo é uma tortura que violenta sua natureza. Certa vez vi um adestrador espetar tanto os testículos de um elefante durante o número que o animal defecou no picadeiro de tão nervoso.

Orlando Orfei, porém, velho domador de leões, não se conformava com a proibição. Sentado no meio do picadeiro, corpo arqueado pelo peso dos anos, ele me fez uma revelação:

_ É melhor levar uma mordida de um leão do que experimentar suas garras. Não queira ser arranhado por um deles, rasga mesmo.

Há alguns dias fui ao Circo Tihany, montado na Barra da Tijuca. Mesmo sem os grandes felinos, os elefantes e os chimpanzés, é um espetáculo que vale a pena. As lacunas deixadas pelos bichos foram preenchidas por musicais, o que, às vezes, dá a impressão que estamos num teatro de revista.

Mas é o homem superando seus limites e o medo em nome do entretenimento. É difrerente de uma competição de atletismo, por exemplo. O objetivo não é vencer o outro, mas divertir a platéia. E a construção, a idealização de um número circense sempre me fascinou. Os acrobatas do Tihany podem não ser tão brilhantes como os que vi no circo da China, mas dão conta do recado.


Divulgação


A estrutura do Tihany imperessiona, basta olhar o tamanho dos caminhões e traillers dessa verdadeira cidade itinerante estacionados ao redor da grande lona. Os olhos das crianças brilham, e os dos adultos também, embora o carioca não goste muito de aplaudir, reparei. O artista ali, arriscando a vida sem rede de proteção, e tem gente que nem bate palma... acho que o povo daqui pensa assim: já tô pagando, ainda tem que aplaudir?

Foto: Marcelo Migliaccio

O mágico é ótimo, faz pessoas desaparecerem na nossa cara. O palhaço também cumpre muito bem o seu papel, mas o show mesmo é dos acrobatas e contorcionistas.

Divulgação

Uma tarde no circo é, e sempre será, um programão.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

A imagem


Esta foto, de Fabio Motta, da Agência Estado, é daquelas que falam mais que mil palavras. Foi numa manifestação de professores no Centro do Rio que teve o adesão dos black blocs.


Foto: Fabio Motta/AE