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quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Chega de lero-lero

Vamos pra pista de dança! Com dublagem atrasada e tudo...

É a trilha sonora do manifestante carioca. "Todo mundo está lutando kung fu"...


sábado, 17 de agosto de 2013

Esse cara é o cara

Não sei se é porque eu acabei de fazer 50 anos, mas a verdade é que resolvi cumprir minha obrigação de brasileiro e fui, enfim, assistir a um show de Roberto Carlos. Eu já sabia, mas ao vivo a gente tem a certeza de que esse cara é um produto que deu certo. Foi um tiro certeiro no coração do público alvo. Não é sandália havaiana, mas todo mundo usa. Suas muitas imitações são intragáveis como as da Coca-Cola. E a Coca-Cola é tão simples (como diz um amigo meu, "é açúcar com bolinhas de gás"). Tudo nele é simples, das rimas às mensagens, dos gestos aos sorrisos, das palavras às canções. Tudo nele foi feito pra dar certo, e dá, há décadas. Seu nome não é estranho como o de Caetano Veloso, nem modernoso como o de Lulu Santos. Seu nome é Roberto... Carlos.

A voz suave, afinada, gostosa resiste ao peso dos anos, é a mesma (mas os cabelos, quanta diferença...). O olhar fundamentalmente triste cria empatia imediata, ainda mais num país como este. Um exemplo de sucesso mercadológico.

Suas letras são fáceis mas nem por isso rasteiras se você considerar que as coisas simples da vida são as que mais importam, suas melodias colam como chiclete na gente porque adoramos o previsível, seu segredo é falar sobre nossos sentimentos mais intuitivos. Sua decisão de nunca se manifestar publicamente sobre política, nem mesmo durante a ditadura _ o que sempre me incomodou _ também explica em parte a ampla e longeva aceitação.

No show, ele encarna o personagem do início ao fim, em nenhum momento ele se desvia. É só mais um show, no entanto seu personagem quer fazer crer que a noite é única também para ele e não só para o público extasiado. E talvez seja especial também pra ele.

Eu sei, esse papo tá meio tiete. Vamos aos fatos. A entrada não é barata mas também não é tão cara se você considerar que custa o mesmo que andam cobrando por um ingresso no Maracanã. Mesmo assim, a platéia no Forte de Copacabana estava praticamente lotada. Tudo organizado, sem tumulto nos bares nem xixi no chão do banheiro (pelo menos no início...). A média de idade do público ajuda. Já o frisson no ar é de um frescor adolescente. O súditos vieram ver o Rei.


Foto: Marcelo Migliaccio


Nos figurinos, oncinha é item de série, nem que seja no detalhe do salto. Bengalas e cadeiras de rodas também fazem parte da paisagem. Fidelidade é isso.


Foto: Marcelo Migliaccio


Antes de o show começar já tinha gente com os olhos marejados. Confesso que fiquei com um certo receio de que ele, notório carola, empolgado com a visita recente do papa Francisco, incluísse uma interminável sequência com suas canções cristãs. Mas cantou só Jesus Cristo e Nossa Senhora, que devem ter sido suficientes para garantir nosso lugar no céu.


Foto: Marcelo Migliaccio


Ih, ó o cara aí! Muitas emoções, tantas que uma mulher passa mal e sai carregada. No palco, Roberto nem nota. Continua contando a história do cachorro que sorriu latindo alheio ao corre-corre dos médicos de plantão.


Foto: Marcelo Migliaccio


Lá estava ele, livre da tela da TV, em carne e osso, o astro entre as estrelas.


Foto: Marcelo Migliaccio


Algumas nem precisam vê-lo,  basta apenas ouvi-lo...


Foto: Marcelo Migliaccio


Roberto parece não ser muito íntimo do violão, mas o personagem é. Com incrível habilidade, ele disfarça seu difícil dedilhar enquanto canta muito melhor que João Gilberto.




A indústria em torno desse fenômeno de comunicação de massa não pára. "Parceiro"de três das maiores multinacionais do planeta, ele anuncia um disco com remixagens de clássicos de seu repertório feitas por DJs renomados. No palco, canta a versão de Fera Ferida remarcada por um bate-estaca e assinada por um tal de Memê. O hit, aposto, vai fazer a cabeça da molecada nas raves dentro em breve. Ou não, né?


Foto: Marcelo Migliaccio


E no final do show, o momento mais esperado por elas. O cantor mais famoso do Brasl beija rosas e dá às fãs que se aglomeram diante do palco.


Foto: Marcelo Migliaccio


Para cada uma que entrega ou joga, ele dirige um olhar sedutor, apaixonado, como se ela fosse única. Todos somos únicos e um só diante de Roberto Carlos.


Foto: Marcelo Migliaccio



quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Ensaio verde e rosa

Pra mim, árvores sempre foram verdes, de vez em quando aparece uma com folhas amarelas, até vermelhas eu já vi. Mas uma árvore rosa... foi a primeira vez!

Foto: Marcelo Migliaccio


O Cristo de braços abertos e eu boquiaberto com a beleza inesperada da paisagem cor-de-rosa

Foto: Marcelo Migliaccio


Não só pela cor, claro, porque nem tudo que é rosa é bonito...

Foto: Marcelo Migliaccio


Mas a beleza daquelas folhas que mais pareciam flores coloriu meu dia.

Foto: Marcelo Migliaccio


Mesmo na minha própria cidade. eu me vi surpreendido como o turista que veio de longe.

Foto: Marcelo Migliaccio


Como é ruim ser estátua e não poder virar para trás para ver coisas tão lindas.

Foto: Marcelo Migliaccio


Até mesmo quem não é mangueirense não resiste a essa combinação de verde e rosa.

Foto: Marcelo Migliaccio


E a natureza, com sua infinita aquarela, acrescenta outros tons. Não de cinza.

Foto: Marcelo Migliaccio


Mas essa mesma natureza é finita e um vento qualquer pode ser a ordem para que mais um ciclo se complete, com as folhas-flores voando pelos ares como flocos de neve, uma neve cor-de-rosa.

Foto: Marcelo Migliaccio


Embelezando, ainda que no chão, nosso caminho por esta vida.

Foto: Marcelo Migliaccio


sábado, 10 de agosto de 2013

Chegou o dia

É, meus caros, o dia chegou. Chegou e até já passou, porque foi sexta-feira.

Completei 50 anos de idade.

Caramba, cinquentinha! Quando eu era pequeno, isso era idade de velho, coroa. Lembro de um tio meu lamentando:

_ Já tô com 50, dobrei o cabo da boa esperança...

Hoje, ele seria chamado, e com razão, de "tiozinho".

Mas isso foi há muito tempo. Atualmente, o cara de 50 anos é um garoto. Botox, ômega 3, preenchimento facial, peruca, calça que já vem com bunda de silicone... tem de tudo para falsear a idade, fingir que pregou uma peça no tempo, como se o tempo fosse otário.

O maior malandro que existe é o tempo, que passa, leva tudo e a gente nem vê.

Parece que foi ontem, ontem mesmo, que eu estava sentado no chão brincando com os bonequinhos de Forte Apache. Lembro de cada um deles vivamente. Lembro onde a tinta estava descascada, onde o plástico havia entortado, lembro dos que mastiguei e dos que já não paravam em pé de tão gastos. Lembro da minha primeira bicicleta, do dia em que aprendi a pedalar, dos fogos comemorando o tricampeonato mundial do Brasil em 1970. Lembro de tudo e isso é que faz o momento presente e a aritimética insensível dos anos tão assustadores.

Meu primo perguntou se eu estava mais maduro.

E eu disse que tenho as mesmas reações dos 15 anos, a única coisa que eu aprendi até hoje foi que martelar o dedo dói.

Mas a minha grande questão existencial nesse momento solene é: como eu vou dizer a minha idade agora. Dizer simplesmente: tô com 50 anos é uma coisa difícil. Tem muito preconceito, que aliás, começa no próprio cinquentenário. Como eu vou dizer, por exemplo, a uma das amigas da minha filha de vinte e poucos que tenho... Cinqueeeeeenta?

Então comecei a estudar neurolinguística por correspondência pra achar um jeito de dizer a minha idade a partir desse 9 de agosto de 2013.

_ Quantos anos você tem? _ vem a pergunta fatídica.

_ Daqui a 50 anos faço 100.

Dá uma idéia de juventude, né? Deixa um frescor no ar...

Ou:

_ Tenho 0,5 século.

Um bebê...

E que tal?

_ Completei agora o bis dos 25. Mais garotão, impossível!

Também tem a opção de dar ênfase à experiência de vida:

_ Quantos anos eu tenho? Bom, já vi 50 matérias do Francisco José no Jornal Nacional sobre o desfile do bloco Galo da Madrugada no sábado de carnaval.

Não, acho que procurar um eufemismo só vai deixar as coisas piores. Melhor assumir.

_ Tenho 50 anos, pô!

Foto: Marcelo Migliaccio
Hoje, os bolos de aniversário mudaram (esse não foi pra mim)

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Crime inacreditável de tão óbvio

Ninguém quer admitir que o garoto de 13 anos matou o pai, sargento da temida Rota, a mãe, também PM, a tia e a avó. Os apresentadores de programas policiais contestam a cena do crime. A família dos mortos desafia os peritos. O caso ganhou repercussão mundial. A ascensorista do shopping, desolada, resmunga olhando para o chão do elevador:

_ Não foi o menino, não foi o menino...

A perita criminal, que em 35 anos de trabalho viu os crimes mais abjetos, se recusa a crer nas evidências:

_ Nenhum de nós quer acreditar nisso.

Não há nada que sugira outra versão a não ser a apontada pelo delegado responsável. Tudo leva a crer que foi mesmo o menino. É difícil imaginar que outra pessoa tivesse sangue frio e tempo para armar tudo aquilo só para incriminar um adolescente.

O pai, apesar de policial, ensinou o filho, ainda criança, a atirar. Meu pai, meu herói...

A pistola usada no crime era da mãe, que, apesar de policial, ensinou o filho, menor de idade a dirigir.

Um tio, também PM, disse que sabia que o menor dirigia com permissão da mãe.

Havia outras quatro armas na casa, uma delas, que não a dos crimes, na mochila do garoto.

Um amigo do colégio disse que o provável assassino e único suspeito lhe confidenciou que planejava matar os pais e fugir para ser pistoleiro de aluguel. Outro amigo revelou depois em depoimento que horas antes de iniciar a chacina familiar o filho dos PMs lhe telefonou e disse que faria o que fez.

O garoto colecionava armas de brinquedo desde novinho.

Construiu um simulacro de colete à prova de balas de papelão para brincar.

Adorava um game violento em que um justiceiro mata a rodo para vingar não se sabe bem o quê.

Em várias fotos de família, ele aparece fazendo o símbolo do diabo com a mão.

Alguém pode dizer que muitos garotos gostam de games, brincam com armas de brinquedo ou fazem sinal satânico com a mão, que nem todo filho de policial fica neurótico. Mas todos esses componentes juntos...

O pai, membro de uma tropa da PM paulista conhecida por sua virulência, ensinou o filho a atirar, vale repetir. E acabou morrendo, ao que tudo indica, pelas mãos do filho às vésperas do Dia dos Pais.

Nas fotos da cena do crime tiradas pelos peritos, o garoto exibe uma expressão de choro após disparar contra a própria cabeça. Uma das principais reivindicações dos policiais é um sistema permanente de apoio psicológico para eles e suas famílias.

Que histórias esse menino ouviu em casa desde criança?

Que modelos ele tinha em casa?

Em meio a que conflitos interiores estava se consolidando sua personalidade?

É mesmo assim tão estranho que ele tenha matado a família e ido para a escola?



LEIA TAMBÉM:

A cultura da violência

Recado para uma criança

Baixar a maioridade penal não vai mudar as coisas

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

E ainda dormem tranqüilos

A bandeira do posto é Petrobras, mas até bem pouco tempo era Shell. Só não mudaram os cerca de 20 empregados, entre frentistas, gerentes, funcionários da loja de conveniência, e os quatro donos, que não sei como conseguem deitar a cabeça no travesseiro e dormir à noite.

Enquanto abasteço o carro, um dos frentistas começa a desfiar suas queixas:

_ Não temos horário de almoço.

O colega dele se aproxima. Como o outro, também sai de casa às 4h para estar no posto às 6h. Um pão com manteiga e café com leite é tudo que comerão até as 15h.

_ Meu salário este mês foi de 800 e poucos reais, porque não teve nenhum desconto.

_ E fazemos uma hora extra todo dia que ele também não paga _ emenda o outro.

Eu ouço estupefato aquele relato de semi-escravidão na área mais nobre do Rio de Janeiro.

_ Tem quatro domingos que eu não folgo _ continua o homem enquanto a mangueira joga um pouco mais de gasolina no meu tanque.

São 200 mil litros de combustível vendidos ali mensalmente. Ainda assim, os patrões não se furtam a roubar seus empregados.

_ Tivemos o dissídio mas eles não pagaram os dois meses retroativos. São 50 reais, pra nós faz diferença. Dá pra comprar dois quilos de frango...

_ Mas vocês não reclamam.

_ Se reclamar tá na rua, ele manda embora na hora.

Me veio na cabeça que a maioria das pessoas, principalmente os trabalhadores subalternos, se sujeitarem às condições de trabalho mais desumanas, que contrariam até as leis trabalhistas, pois precisam desesperadamente daquele minguado salário para viver. Lembrei daquela máxima cruel do capitalismo: quem não trabalha não come. O que caracteriza o escravo é a falta de qualquer outra opção de sobrevivência.

No caso dos frentistas ainda pensei em como eles estão expostos ao risco permanente de assalto, pois trabalham literalmente no meio da rua. Insisti:

_ Por que vocês todos não se juntam e falam com os donos.

_ Tem um monte de puxa-saco do patrão aí, aceita tudo, não reclama de nada e ainda dedura os outros.

Os carrões importados que desfilm pela Zona Sul da cidade maravilhosa entram e saem do posto e eu tento uma última cartada na tentativa de arrefecer a minha própria indignação.

_ E o sindicato de vocês, não faz nada?

Foi o único momento em que um deles riu... uma risada que misturava deboche, raiva e conformismo.

_ O sindicato não faz nada!

Diante disso, nem me animei a sugerir que ligassem para a Delegacia Regional do Trabalho para denunciar a exploração.

Só caprichei na gorjeta.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

O funk do quebra-piroca

A gravação de um documentário me levou ao alto do morro Pavão-Pavãozinho, que é o lado B de Copacabana e Ipanema, os dois bairros mais emblemáticos da Zona Sul do Rio. Lá de cima, a vista das ilhas Cagarras é deslumbrante.

Foto: Marcelo Migliaccio


O morro Dois Irmãos é como a Zona Sul, o primo pobre e o primo rico. A Pedra da Gávea testemunha essa história de amor e ódio desde o início.

Foto: Marcelo Migliaccio


 É aqui que os urubus pousam para tomar sol.

Foto: Marcelo Migliaccio


Lá embaixo, outras aves na lagoa...

Foto: Marcelo Migliaccio


Em cima, o futuro do Brasil desbrava seus horizontes.

Foto: Marcelo Migliaccio


PMs da UPP? Só vi na entrada da favela. Como patrulhar tantos becos claustrofóbicos?

Foto: Marcelo Migliaccio


Como tomar conta de tudo?

Foto: Marcelo Migliaccio


Onde a liberdade não tem fronteiras e quem solta a pipa também está no céu.

Foto: Marcelo Migliaccio


Crianças brincam nas vielas ao som do funk altíssimo que emana de um barraco psicodélico...

Foto: Marcelo Migliaccio


É o funk do "quebra-piroca", diz a letra que as menininhas ouvem sem querer desde cedo numa lavagem cerebral precoce. Imagino a vizinhança evangélica obrigada a conviver com a trilha sonora do capeta.


Foto: Marcelo Migliaccio


Sobram razões para tantas meninas novas com filhos pequenos...

Foto: Marcelo Migliaccio


Bem-vindo ao topo do mundo.


Foto: Marcelo Migliaccio