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quarta-feira, 27 de março de 2013

O "legado"

Quando o Rio foi escolhido para sede dos Jogos Panamericanos de 2007 formou-se aquela corrente pra frente. Imprensa, empresários e políticos amigos de empresários fizeram a festa. Deram soco no ar como Pelé fazia, comemoraram a valer. O povo, escaldado, olhou de rabo de olho, pois sabe que quando esse pessoal comemora geralmente rola uma festa em que ele, povo, só pode entrar no final, para limpar a sujeira que fizerem no banheiro.

Todo mundo só falava nos benefícios que os jogos trariam para a cidade, o chamado "legado". Era "legado" pra cá, "legado" pra lá, tudo para justificar gastos impensáveis num país em que a educação e a saúde públicas são uma vergonha de tão ruins.

A mídia fez seu tradicional carnaval para legitimar as obras, que, como sempre, custaram muito mais caro do que o inicialmente previsto (para alegria das empreiteiras e da turma dos 10%). E o povo desconfiado, afinal legado rima com... delegado.

Ontem, o Engenhão, que também atende pelo pomposo nome de Estádio Olímpico João Havelange, foi interditado, pois a cobertura ameaça desabar.

O velódromo, também construído para o Pan, está sendo demolido, já que não atende às exigências do comitê olímpico internacional. O parque aquático Maria Lenk foi abandonado e só larvas do mosquito da dengue nadam em suas piscinas. A Vila do Pan, um conjunto de apartamentos vendidos a peso de ouro depois dos jogos, está afundando, porque foi erguida sobre um pântano. Os carros de polícia comprados na época para reforçar a segurança na cidade antes e depois das competições, há muito viraram sucata.

Esse é o legado do Pan para os cariocas. Os lucros das obras estão em bolsos mais ou menos conhecidos. O prejuízo, adivinhe quem vai pagar...

Agora, aos torcedores brasileiros só resta torcer para que o "novo" Maracanã não esteja sendo construído com gesso e areia da praia.

Foto: Marcelo Migliaccio
Engenhão: bonitinho mas ordinário

terça-feira, 26 de março de 2013

Recado para uma criança

Me dirijo agora principalmente a você, o aluno de 15 anos da escola municipal João Kopke, em Piedade, no Rio, que agrediu a socos a diretora, Leila Soares, na última sexta-feira pela manhã.

Ela veio reclamar porque você e o seu amigo estavam reproduzindo no pátio os golpes de um desses lutadores de vale tudo, ídolos endossados pela mídia e que viraram até bonequinhos nas vitrines nas lojas de brinquedo para as crianças comprarem e se divertirem.

Aí, eu sei, não deu pra segurar e você arrebentou a cara da diretora. Não adianta um desses lutadores profissionais ir para a televisão fazer campanha institucional pela não-violência, porque quando o sangue sobe alguém acaba partindo a cara de alguém. E dessa vez quem perdeu o controle foi você, garoto.

Claro que dois caras maiores de idade têm o direito de ir para um ringue, em comum acordo, arrebentar-se mutuamente. E se há gente disposta a ir até lá e pagar para ver aquilo, tudo bem. Mas transformar esses combates em espetáculos televisivos, pra mim, é um absurdo. Dizer que trata-se de um "esporte"é mais chocante ainda. Deveriam ser eventos privados, fechados e não públicos para todas as idades como se tornaram.

É isso aí, moleque, a mídia te serve violência dos primeiros desenhos animados da manhã até os últimos tiros dos filmes da noite. Você nem se dá conta, mas isso entranhou em você desde a mais tenra idade. Aos quatro anos, você já tinha visto centenas de homicídios e milhares de agressões de todos os tipos. Os Datenas da vida foram seus professores de barbárie, com a desculpa de que deveriam te informar da realidade. Sem cerimônia, te mostraram as cenas mais horrendas, gravadas por câmeras de segurança. Nos horários em que 20 anos antes exibiam programas infantis, passaram a veicular essas atrações policiais mundo-cão, com suas imagens de arrepiar. E a molecada lá, assistindo a tudo aquilo no tapete da sala.

Não tome isso como um incentivo (incentivo, aliás, nunca lhe faltou), mas na verdade, garoto agressor, você é uma vítima do lixo que despejaram na sua cabeça.

Com um cardápio desses quem eles esperavam que aparecesse para jantar? Mahatma Gandhi?

Só que agora, para a sociedade ávida por um Judas, você é o culpado, o criminoso, o monstro e nenhum de seus mestres, nenhum dos caras que ajudaram a forjar seu perfil violento e insensível, vai assumir a parte dele no problema.

Seus pais quase não têm tempo de prestar atenção em você. E, quando eles têm tempo, não têm saco para dialogar, explicar, conversar, ouvir, perguntar. Ou estão te ameaçando ou passando a mão na sua cabeça, culpados que são pela própria negligência. Fazer filho é uma delícia, mas criar é bem mais trabalhoso, requer dedicação, paciência e algum talento...

Quando você, moleque, cansou da TV, te deram um videogame e jogos em que se pode matar dezenas de pessoas a tiros de fuzil. Acostumado àquele universo, passado a você como algo corriqueiro hoje em dia, você achou uma delícia. Hoje, você quase não dorme mais, não sai do quarto, almoça e janta diante do computador, porque essa droga é poderosíssima. Pesquisas sérias no Reino Unido mostram que games violentos tornam adolescentes insensíveis. Isso, no entanto, não é divulgado como deveria na mídia que só te serve violência, sexo e fofoca o dia inteiro.

Mas, agora, "game over", garoto. A sociedade vai querer internar você num reformatório, te prender por causa do sangue que você arrancou do rosto da diretora. Mas, na verdade, são seus agora carrascos os responsáveis por você ser o que é. Eles fizeram a sua cabeça e você se tornou mais uma ovelha negra nessa grande família contemporânea. Na nossa família mal resolvida.

Só não precisa ficar muito preocupado. A memória aqui dura 24 horas. Amanhã, outro criminoso vai assumir seu lugar no topo do pódio da execração pública.

Até lá, porém, vão tratar você como uma exceção, um monstro, uma aberração, embora no Youtube haja dezenas de vídeos de pancadaria cruel entre adolescentes _ meninas disputando namorados inclusive. Acontece todos os dias entre estudantes da rede pública de norte a sul do país mas todos nos fazemos de cegos e surdos.

A secretária municipal de Educação do Rio declarou que seu ato foi "muito triste, inaceitável".

Foi o máximo que ela conseguiu dizer. Parece que nem é com ela. A violência dos alunos não é com ela, a erotização de meninos e meninas não é com ela, o vício em jogos de computador não é com ela, o desinteresse geral pelo estudo não é com ela...

É tudo com ela, sim! Mas ela não tem projeto nenhum para nada.

Se os pais não têm inteligência para ensinar os filhos a se defenderem do que a mídia despeja em suas cabeças, a escola, o estado deveriam fazer isso.

E não fazem. A educação pública no Brasil é um lixo e ninguém está nem aí pra isso. Professores mal pagos e mal preparados nada ensinam, o mestre mais eficaz é a televisão.

O mais triste é que tudo isso tornou-se muito normal, natural, inevitável. Todos nos tornamos cúmplices conformados dessa situação que piora a cada dia. Todos nós anestesiados, emburrecidos. Cada um preocupado em garantir o seu no fim do mês.

Os arautos da livre iniciativa e da liberdade de expressão decretaram que é proibido proibir. Censura virou o maior palavrão da língua portuguesa e assim todos os absurdos são permitidos aos meios de comunicação de massa. Eles podem tudo, e o resultado está aí: você, moleque!

Basta observar o comportamento de crianças e adolescentes nas escolas, tarefa para a qual raramente nos sobra tempo. Se o fizermos, veremos que espécie de futuro nos espera. Será que ninguém se dá conta de que estamos criando gerações e gerações de bossais truculentos e egoístas? As discussões ditas intelectuais, pilotadas por acadêmicos tapados, passam sempre longe dos reais motivos do problema.

As ditaduras militares só caíram de podres quando se descobriu que a TV era um meio muito mais barato e eficaz de manter um povo imbecilizado e inerte. Fatura-se milhões, bilhões e a raça humana se consome, de desintegra infestada de racismo, individualismo, sexismo, bairrismo, maledicência, corrupção, deseducação, desinformação, mentiras e muita violência.

Que tempo é esse em que é natural jogar o braço de um cara atropelado num rio, atirar um rojão na torcida adversária, torturar idosos durante assaltos, estourar uma lâmpada de tungstênio no rosto de um homossexual, matar os pais da namorada a pauladas, assassinar por causa de uma fechada de trânsito ou por uma diferença de sete reais na conta do bar...?

E, quando a classe média fica muito indignada e chocada com tanta barbárie, a mídia e os políticos organizam uma manifestação na orla, com todos os palhaços vestidos de branco a pedir um "basta" na violência. Alheio ao medo mesquinho dos almofadinhas de Ipanema e do Leblon, o povão do subúrbio, que também não sabe para onde correr, pula no colo do primeiro pastor evangélico que encontra pela frente. Para esses, é pedir socorro a Deus ou se afundar na cracolândia.

Não adianta agora baixar a maioriade penal para 16 anos. Do jeito que cultuamos e incutimos nas crianças valores tão baixos, em pouco tempo estaremos colocando na cadeia guris de 10 anos.

Vão te crucificar, garoto, para que seus nefastos formadores não tenham que pregar a si próprios na cruz.

Desculpe o pessimismo, garoto, mas parece que os índios Maias estavam mesmo certos em sua profecia: o mundo já acabou, só estão correndo os créditos finais.


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A cultura da violência

quinta-feira, 14 de março de 2013

Se Deus é brasileiro, o papa é argentino...

Confesso que não entendo muito de papa.

Até hoje, só entrevistei papa-defunto. Muitos...

Mas, jornalisticamente falando, fica clara a avidez da maior rede de TV aberta do Brasil em promover e fazer de Francisco I um mito instantâneo.

Nunca vi, por exemplo, eleição de papa ter espaço em noticiário local. No RJ TV, a decisão tomada em Roma gerou várias e repetitivas reportagens, quando o normal seria abordar o tema, internacional, apenas no telejornal principal da emissora.

Mas a maior concorrente é evangélica e é preciso marcar posição, nem que para isso os editores e repórteres se esqueçam de que a Constituição diz ser este um estado laico. Parece que ganhamos uma Copa do Mundo, uma afronta aos adeptos de outras religiões.

Esses mesmos que criticam o Irã por ser uma república islâmica querem fazer o Brasil parecer um estado católico.

O carnaval em torno do novo pontífice é partilhado pelos outros canais não-evangélicos. No de Silvio Santos, onde o espaço para o jornalismo é habitualmente tão pequeno que cabe dentro de um baú da felicidade, também houve cobertura farta.

Não sei que importância jornalística tem colher declarações sobre o clérigo argentino nas ruas de Copacabana...

Para a igreja católica, a escolha surpreendente de Francisco I foi como que um último trunfo. Depois de tantos europeus, alguns pra lá de antipáticos como Paulo VI e Bento XVI, um latino-americano, jesuíta e famoso por seu trabalho entre os pobres de Buenos Aires, assume o trono maior do catolicismo. Além de ser descrito como uma pessoa simples, ainda é simpático e dispensou o latim na fala inicial. Até Leonardo Boff elogiou a escolha.

Era tudo que a igreja católica tinha na manga da batina para tentar frear a escalada evangélica mundial. O líder da Igreja Universal do Reino de Deus, Edir Macedo, já é listado entre os homens mais ricos do mundo. Ao prometer prosperidade financeira abençoada e cura de doenças incuráveis às massas miseráveis, os evangélicos não param de arregimentar ovelhas, o que contrasta com a queda vertiginosa do número de católicos, notadamente no Brasil, razão pela qual o país foi escolhido para sediar a Jornada da Juventude neste ano.

A emissora de TV de  Macedo, por sua vez, praticamente ignorou as fumaças do Vaticano durante todo o conclave. Preferiu noticiar roubos de galinhas em seus programas policiais sensacionalistas, a despeito do que acontecia em Roma. Na multiplicação dos peixes, cada um puxa a brasa para a sua sardinha.

Com o apoio incondicional da mídia não-evangélica, cabe agora a Francisco I fazer a sua parte e evitar que o catolicismo continue a perder adeptos aqui e em outras terras.

Sentado...

Não sei o que ele pensava, só o que via

Foto: Marcelo Migliaccio

domingo, 10 de março de 2013

Síndrome de Down no cinema

Odiei concluir isso e odeio ainda mais falar aqui no blog, mas de que vale um blog se a gente não diz o que pensa?

Fui ver o filme Colegas, protagonizado por três atores com síndrome de Down. O filme foi muito badalado porque um deles convidou seu ídolo, Sean Penn para vir à estréia. O ator norte-americano não veio, apesar de todos os apelos pelas chamadas redes sociais. Acho que até foi melhor assim...

Entrei no cinema esperançoso de ver uma história que ressaltasse as semelhanças dos downianos conosco, os ditos normais que roubam, corrompem, estupram, matam, exploram, mentem etc...

Esperava ver na tela a imensa quantidade de afeto e pureza que essas pessoas trazem dentro de si, assim como nós, que perdemos e sufocamos tudo quando começamos a conviver na chamada sociedade de consumo. Esperava ver a sedutora inadaptação e ausência de preconceito própria de todas as crianças ainda não corrompidas pelos adultos. O romance entre o casal também não foi desenvolvido como poderia.

No entanto, o que vi foi um filme que pareceu feito às pressas. Um arremedo de road movie que poderia ser muito bem estrelado por três adolescentes convencionais. Em meio à correria do roteiro, o que se enfatiza são as reações histriônicas, como na batalha de arrotos no restaurante refinado.  Nem a trilha sonora com músicas de Raul Seixas, o "Maluco Beleza", consegue imprimir o que, acho, o cineasta tinha em mente. A espontaneidade descompromissada foi reduzida a um pretexto para o riso fácil. Superficial é a palavra.

Faltou sensibilidade, tempo pra pensar sobre como essas pessoas se inserem nesse mundo muito louco que nós, os normais, construímos a cada dia, cúmplices que somos do caos geral, apesar do nosso discurso politicamente correto da boca para fora.

Uma pena, o filme de ficção definitivo sobre o tema ainda está para ser feito. Ou já foi e eu não assisti.

Esse, infelizmente, só reforça o preconceito.

terça-feira, 5 de março de 2013

A greve de ônibus na grande imprensa

A cobertura que a grande imprensa do Rio fez da recente greve de motoristas e cobradores de ônibus foi, como sempre, parcial e favorável aos empresários do setor de transportes, que estão entre os que mais lucram no cenário econômico.

Para se ter uma idéia do volume de dinheiro líquido que esses empresários amealham diariamente no estado do Rio, só na capital eles comercializam 2,7 milhões de passagens por dia. Essa dinheirama, aliás, fez com que os donos de empresas de ônibus se tornassem vítimas preferenciais de sequestros nos anos 90, época em que esse tipo de crime proliferou por aqui.

Nem é preciso dizer que as empresas de ônibus estão entre os maiores financiadores de campanhas políticas, o que explica o alto preço das passagens e a passividade de governadores e prefeitos diante do péssimo serviço prestado aos usuários em vários pontos da estado (notadamente  a Zona Oeste e a Baixada Fluminense), onde vivem os trabalhadores que precisam acordar mais cedo e percorrem maior distância para chegar aos seus locais de trabalho.

Amigos do poder, os empresários de ônibus nunca perdem. Se o preço da passagem com o bilhete único ficou mais barato, é porque o governo do estado subvenciona, com o dinheiro dos nossos impostos, a diferença.

Se o metrô é ineficiente e caro como é hoje, isso de deve em muito ao lobby feito pelas empresas de ônibus junto aos políticos que ajudam a eleger. Nossas cidades seriam muito mais silenciosas e menos poluídas se esses milhares de monstrengos fossem retirados das ruas e o povo pudesse se locomover nas composições subterrâneas.

Nos noticiários da TV, porém, os vilões da greve são sempre os rodoviários. As reportagens só se preocupam em mostrar os transtornos causados aos usuários pela paralisação. Filas, reclamações de populares... o roteiro é sempre o mesmo, parece até matéria do desfile do Galo da Madrugada no Fantástico do domingo de Carnaval narrada pelo Francisco José...

Não se fala da intransigência dos patrões, que, apesar de seu lucro estratosférico, relutam em dar os 16% de reajuste pedido pelos empregados, oferecendo a metade e negando uma melhora nas cestas básicas. Devem estar sonhando em entrar na lista da revista Forbes dos mais ricos do planeta.

Nenhum intrépido repórter jamais vai poder mostrar na TV, por exemplo, como motoristas são obrigados a cumprirem jornadas de trabalho imensas e estressantes, elevando os riscos de acidentes. Nem os engarrafamentos gerados pela retirada dos cobradores de centenas de ônibus, o que faz com que o condutor precise receber o dinheiro de cada passageiro e dar-lhe o troco antes de seguir viagem com o coletivo. Em contrapartida, piquetes e eventuais pedras atiradas contra veículos dirigidos pelos fura-greve são superdimensionadas.

É assim há muito tempo. No final dos anos 80, ao cobrir uma greve de ônibus em Brasília, ouvi pessoalmente do empresário Wagner Canhedo que os ônibus não lhe davam lucro, só prejuízo. Poucos meses depois, ele comprou a empresa aérea Vasp...

Quinta-feira, parece, a greve, suspensa no domingo, pode recomeçar no Rio.

E os empresários dos ônibus terão, novamente, a ajuda de seus parceiros da TV para colocar a opinião pública contra os rodoviários.

Assim como poupam sempre o governador e o prefeito amigos quando são obrigados a noticiar o caos nas barcas, trens, vans etc... o tom é sempre aquele, de que "tudo vai melhorar" e que as concessionárias, também amigas do peito, não são tão gananciosas assim.