Translate

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Moreia ataca em Ipanema!

O surfista chegou cedo à Praia do Arpoador em busca das últimas ondas grandes, pois a ressaca da véspera estava no final. Por causa da hora, a maré ainda era alta.

Segundo sua versão, ele pisou acidentalmente numa moreia que estava na areia, a alguns metros da água, provavelmente levada pelas ondas. A coloração dela teria facilitado a camuflagem.

Semelhante a uma cobra, a moreia é um dos seres marítimos de aspecto mais assustador, rivalizando com o tubarão também no poder das mandíbulas e dos dentes afiados. Num movimento rápido, o animal, assustado pelo pisão acidental, cravou seus incisivos no dorso do pé do surfista. Fez um ferimento e tanto, que derramou muito sangue.

Jovem mordido por moreia em Ipanema (RJ)/Foto: Marcelo Migliaccio


Enquanto um lusitano que fazia caminhada no calçadão formulava perguntas insistentes que eu não sabia responder, o rapaz, assustado, era atendido pelos paramédicos do Samu, que chegaram rápido (afinal, era Ipanema).

_ Esse peixe é aquele que só tem espinhas? _ cutucava-me o português.

Mais tarde, pesquisei sobre a moreia, um animal carnívoro que só ataca por instinto de preservação (para alimentar-se ou se defender-se). O único ser capaz de matar premeditadamente só por maldade, eu e você conhecemos muito bem.

E o portuga:

_ Esse peixe não tem gosto de nada, não é? Já comeu?

A moreia foi salva de um linchamento pelos bombeiros, que a devolveram ao mar, atirando-a das pedras do Arpoador. Lívido, o surfista ligou para parentes, que o levaram para um hospital particular na Zona Sul do Rio.

Não cheguei a tempo de fotografar a moreia. No entanto, tenho uma foto de uma, apanhada por pescadores submarinos ali mesmo no Arpoador. Ela era bem grande, enquanto a de ontem, segundo testemunhas, tinha menos de meio metro.

Eu não queria cruzar com esse cara numa esquina escura, à meia-noite, e você?

Moréia caçada em Ipanema/Foto: Marcelo Migliaccio


No Youtube, tem um vídeo com um ataque de moreia (só para quem tem estômago forte). Um mergulhador foi dar comida na boca de uma delas e acabou sem o dedo polegar. Uma de suas espécies, o moreão, esse da foto, pode chegar a quatro metros e não é venenoso. Outras subespécies liberam substâncias tóxicas quando ameaçadas. Ou seja, nunca cutuque uma moreia. Melhor cutucar uma mocreia...

Moréia caçada em Ipanema/Foto: Marcelo Migliaccio

terça-feira, 26 de junho de 2012

Enfim, Caruaru

Sempre quis conhecer essa cidade, onde, desde pequeno, escuto falar que tem uma feira muito doida. Um lugar no Nordeste onde se compra, vende e troca tudo. Caruaru, com sua história e tradição cultural. Então, saí da praia e rumei para o interior de Pernambuco.

Na estrada, em pleno agreste, imagens do ainda distante sertão. Gado esquálido sob o sol e vegetação de caatinga. Impressionante para quem nunca viu.

Estrada para Caruaru (PE)/Foto: Marcelo Migliaccio

As favelas pernambucanas são diferentes das do Sudeste na forma e iguais no conteúdo.

Caruaru (PE)/Foto: Marcelo Migliaccio

Já é difícil viver num agreste quase sertão...

Caruaru (PE)/Foto: Marcelo Migliaccio

O centro de Caruaru é uma loucura! Misture Duque de Caxias com São Gonçalo se você é carioca. Música alta por todo lado, barulho e fumaça à vontade. Há muito tempo, a qualidade de vida nas cidades menores é bem pior que nas metrópoles. Educação pública de baixíssimo nível e prefeitos corruptos contribuem para o caos urbano. Engarrafamento de carros, carrocinhas de churrasco, vendedores de CD pirata e gente, muita gente. O cheiro aqui na entrada da famosa feira... bom, ainda bem que computador ainda não transmite os odores daquele córrego poluidíssimo...

Caruaru (PE)/Foto: Marcelo Migliaccio


Quanto à maior atração da cidade, dei azar, porque fui numa segunda-feira e peguei tudo à meia bomba depois de um fim de semana inteiro funcionando dia e noite. Mas deu para ver que aquilo foi muito melhor quando não havia essa pseudo-organização. Agora, é como a Feira de São Cristóvão, reduto nordestino no Rio, multiplicada por dez.

Feira de Caruaru (PE)/Foto: Marcelo Migliaccio


Mas deu pra ver do que são capazes aquelas 32 mil barracas...

Feira de Caruaru (PE)/Foto: Marcelo Migliaccio

Aqui, tudo dá o maior bode!

Feira de Caruaru (PE)/Foto: Marcelo Migliaccio

Tava começando um forró pé de serra, como eles chamam, mas como eu sou pé de chumbo, achei melhor olhar de longe.

Alto da Serra, Caruaru (PE)/Foto: Marcelo Migliaccio

Conhecer a casa onde viveu o mestre Vitalino, um dos maiores artistas plásticos do Brasil, foi uma honra.

Estátua do mestre Vitalino, Caruaru (PE)/Foto: Marcelo Migliaccio

Aqui dormia um dos gênios da nossa cultura.

Casa do mestre Vitalino, Caruaru (PE)/Foto: Marcelo Migliaccio


Ao cair de uma bela tarde de sol, ouvi a bandinha mais simpática do Nordeste, que poderia se chamar Kid Zabumba e seus Bacamartes...

Caruaru (PE)/Foto: Marcelo Migliaccio

Vale muito a pena conhecer os caminhos do Brasil que não levam à praia.


Caruaru (PE)/Foto: Marcelo Migliaccio

Foi um prazer, Caruaru.

domingo, 24 de junho de 2012

Ronaldinho Gaúcho e Charles Chaplin

Foto de divulgação


Andei assistindo a alguns filmes de Chaplin, da fase posterior ao cinema mudo. São bons, mas, claro, não podem ser comparados às obras-primas que ele produziu antes.

Esse é o problema dos gênios. Serão sempre cobrados pelo que fizeram de melhor. A crítica e o público torceram o nariz para longa-metragens como Monsieur Verdoux e Luzes da Ribalta, que estão longe de serem ruins e têm momentos antológicos, como as cenas em que Chaplin dança com pernas de anão e que desiste de envenenar uma mulher ao se comover com sua história de vida.

E o Ronaldinho Gaúcho, onde entra?

Entra porque também trata-se de um gênio. Não do cinema, mas da bola.

Está no nível de Tostão, Didi e outros craques eternamente reverenciados no país do futebol.

Mas Ronaldinho sofreu uma perseguição tão implacável da imprensa carioca que teve de deixar o Flamengo. Todos os dias, os jornais e rádios inventavam uma crise envolvendo seu nome. É o tal negócio: crise no clube de maior torcida do Brasil dá ibope.

Ronaldinho não estava jogando mal, ao contrário. Quase todos os gols do time rubro-negro saíam de seus pés ou eram frutos de passes seus. Mas a imprensa não lhe dava trégua, cobrando dele o futebol que jogava dez anos antes. A idade pesa para os atletas, mas ele ainda joga um futebol de craque.

Pode não ser mais o melhor do mundo mas ainda é um dos melhores do Brasil. Ele deixou de ir à sua última Copa, em 2010, por ter relaxado, mas ao Flamengo ainda seria muito útil.

No entanto, os jornalistas não lhe davam sossego. Qual é o problema de ele sair à noite para se divertir? Se conseguir treinar no dia seguinte, tudo bem. Se jogar como está jogando, não há problema.

Muitos outros fizeram isso, eram boemios e craques: Paulo Cesar Caju, Romário, Renato Gaúcho...

E a imprensa querendo que Ronaldinho saísse do treino e fosse direto pra casa, sentar em cima dos seus milhões e meditar até a hora do próximo treino.

Como Chaplin foi, Ronaldinho ainda é cobrado pelo que fez no auge. Ninguém tem olhos para o que faz de bom agora...

O craque se encheu e foi embora do Flamengo. É milionário, não precisa ficar aturando jornalista recalcado e nem torcedor teleguiado que não entende nada de futebol.

Foi para Belo Horizonte, vestir a camisa do Atlético Mineiro.

Anda jogando o fino e seu novo time é um dos líderes do campeonato. Ontem, o Galo enfiou 5 a 1 no pobre Náutico Capibaribe, com um gol de Ronaldinho.

A torcida do Flamengo, que entrou na onda da imprensa, agora sofre com os pernas-de-pau que tentam substituir o ex-ídolo.

Bem feito. Quem manda ter cabecinha de Hommer Simpson e ir na onda da mídia...



Agora, o Judas da vez é o sempre discriminado técnico Joel Santana.




PS: Ontem, este blog bateu seu recorde de acessos num só dia.

PS2: Nesta segunda-feira, retorno ao Rio depois de 15 dias de férias aqui em Pernambuco. Foi ótimo, mas continuo achando que a melhor coisa de viajar é voltar para casa.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Tributo à metrópole

Cansei de camarão é água de coco.

Quero um Big Mac com Coca grande.

Chega de coqueiros por todos os lados.

Onde estão os postes da Light?

A água aqui é muito limpa, procuro sacos plásticos de supermercado e só vejo estrelas do mar...

Na praia deserta, me vem a lembrança carente de um engarrafamento dos diabos.

Quando encontro alguém, ele sorri de bom humor... Por onde anda aquela multidão de testa franzida?

E a areia, por onde correm caranguejinhos brancos, me dá saudade do fantasma dos bueiros explosivos, das calçadas esburacadas.

Quando a noite cai, o luar aqui é muito nítido, mas meus olhos só enxergam através da nuvem de poluição que emana dos canos de descarga.

Coco aqui você apanha no chão, e eu procurando um vendedor para me extorquir 4 reais.

Não acho.

Acho que quero voltar para casa...

Acho que não...

Porto de Galinhas (PE)/Foto: Marcelo Migliaccio

quinta-feira, 21 de junho de 2012

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Alguém já salvou sua vida?

Hoje de manhã, eu estava numa praia aqui em Pernambuco e um salva-vidas parou para nos avisar (a mim e à metade da laranja) que ali era perigoso por causa das valas e correntezas.

Lembrei imediatamente da vez em que fui salvo de um afogamento, na Barra da Tijuca, uma praia também de mar aberto no Rio.

Eu devia ter uns 23 anos e tinha ido sozinho até a Barra. O mar estava de ressaca, mas, na autosuficiência dos vinte e poucos anos, fui me aventurando, furando as ondas enormes, cada vez mais afastado-me da areia.

De repente, me vi no meio de uma correnteza poderosíssima. Eu nadava, nadava e não saía do lugar. Ao mesmo tempo, tinha que ir mais para o fundo, para não levar uma daquelas ondas enormes na cabeça.

Exausto, a certa altura eu apenas tentava não entrar em pânico, mas via que não aguentaria muito tempo.

Olhava a praia cheia, pequenininha de tão longe e alheia ao meu drama. Achei que iria morrer ali mesmo.

Foi quando vi, ao longe, um surfista. Acenei desesperadamente para ele, que veio ao meu encontro. Era um garoto de uns 15 ou 16 anos. Calmamente, aquele adolescente ofereceu metade da prancha para que eu me debruçasse. E me levou até a praia.

Com o peito quase explodindo de tanto esforço, lembro que agradeci muito ao garoto, que, acho, procurou não me constranger valorizando a boa ação que tinha feito. Sem esboçar um sorriso sequer ele se foi, me deixando ali na areia a reavaliar todos os meus conceitos de vida. Creio que ele também estava impressionado com o episódio.

Acho que quando, em desespero, avistei o surfista ao longe, ainda vi a sombra da mão de Deus que acabara de colocá-lo justamente ali, onde pudesse salvar a minha vida.

Uns dizem que é Deus, outros atribuem tais episódios meramente ao acaso.

Acho que o acaso não seria tão benevolente, tão preciso, tão salvador.

Melhor agradecer ao cara lá de cima, que, pelo menos, tem endereço conhecido.

Porto de Galinhas (PE)/Foto: Marcelo Migliaccio


domingo, 17 de junho de 2012

Galinhas e galeões

Edição extraordinária!

O taxista pode estar errado.

Outra versão para o nome Porto de Galinhas é de que as embarcações que vinham da África e atracavam aqui eram menores que os tradicionais galeões e, por isso, teriam sido chamadas de galinhas.

Só sei que agora há pouco topei com um bloco de rua igual àqueles do carnaval, só que tocavam forró!

Enquanto eu tirava algumas fotos, uma foliã tamanho GG me agarrava pela cintura e me suspendia no ar, literalmente!

Imagine a cena...

E tem gente que ainda viaja pro exterior sem conhecer as maravilhas do Brasil, o país GG do futuro!!!

Bloco de forró em Pernambuco/Foto:Marcelo Migliaccio

Homenagem ao Rei do Baião

Projeção na areia de Porto de Galinhas (PE)/Foto: Marcelo Migliaccio

sábado, 16 de junho de 2012

Galinhas de Angola

Uma das melhores coisas de viajar é encher o bandulho.

(Abre parêntesis) Bandulho é uma palavra em desuso mas, lá pelos anos 20, esse sinônimo de pança, barriga e rúnem, a zona larga no estômago dos ruminantes, estava na boca do povo. Encher o bandulho era uma expressão popular para comer muito. (fecha parêntesis)

Até linguiça de bode já comi por aqui. Uma delícia se for feita na hora.

O melhor amigo do homem é o cão, mas o melhor amigo do sertanejo é o bode. Ele resiste às piores secas. Enquanto o gado morre de sede, os caprinos estão lá, dizem, comendo até terra e pedra. Por isso fiquei grilado antes de mandar para dentro a tal linguiça, achando que poderia ter gosto de madeira ou algo assim. Nada.

Dizem aqui em Pernambuco que a transposição das águas do Rio São Francisco para irrigar o sertão anda a meia bomba. Aí, Dilma, vamos estalar o chicote em cima desses burocratas.

Um taxista local me lembrou que houve uma estatal em Pernambuco só para abrir poços na região seca. Mas, segundo esse mesmo taxista, que vota nulo há décadas por puro desencanto, os poços só eram perfurados nas fazendas dos abastados.

Típico do Brasil dos privilégios.

Não consigo calcular o mal que gente políticos como Ricardo Fiúza e Severino não-sei-de-que fizeram a essa gente. Inocêncio de Oliveira agora apoia Dilma (hay gobierno, soy a favor), mas isso não apaga o passado dele, não. Votou contra os trabalhadores em toda a Assembleia Nacional Constituinte e se fez nos currais eleitorais secos e famélicos desse estado.

Na estrada para Caruaru vi muito gado esquálido em meio àquela paisagem de arbustos e cactus. E olhe que o sertão barra pesada ainda estava a centenas de quilômetros dali.

Mas agora estou em Porto de Galinhas, uma praia linda apesar de alguns pesares.

Sempre encuquei com esse nome horrível para um lugar paradisíaco.

Mas o taxista me contou que era aqui que os galeões vindos da África desembarcavam as penosas de Angola. Como já era Brasil, a maioria desses navios trazia escravos malocados no porão para serem comercializados com os donos de engenho.

Bom, se for cascata foi o taxista que disse.

O fato é que Cabo Verde, na África, é mais perto daqui que São Paulo. O vôo para além-mar demora dez minutos menos que a ponte aérea para a terra da garoa (e do preconceito contra os nordestinos.

Disse o taxista.

Mas aqui também há preconceito. Pernambucanos acham baianos e cariocas preguiçosos e presunçosos.

"Só porque tem muita gente boa na música lá eles se acham sulistas", disse o taxista em relação á baianada. Ele, porém, me contou ter vivido durante um ano em São Paulo e sentido na pele o preconceito.

Preconceito que agora passa adiante.

Mais tarde, um novo relatório da expedição Pernambuco.

Logo que eu acordar do coma depois da feijoada...

Porto de Galinhas (PE)/Foto: Marcelo Migliaccio

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Rio Capibaribe

Rio Capibaribe, Recife/Foto: Marcelo Migliaccio


Pernambuco é um estado com muita história. Soube ontem que o primeiro advogado a defender um negro no Brasil foi o pernambucano Joaquim Nabuco.

Quem me contou foi o guia de um passeio de barco que eu e a outra metade da laranja (momento Fábio Jr.) fizemos pelo Rio Capibaribe, que nasce lá no interior do estado e, 240 quilômetros depois, deságua no litoral.

Passei em frente ao colégio onde estudaram Ariano Suassuna e Marco Maciel,  um estabelecimento que funciona desde 1825, se não me engano. Quase 200 anos, portanto, formando visionários mas também reacionários.

Como venta muito por aqui, chove e faz sol várias vezes ao dia nesta época. Anteontem caiu um temporal que inundou várias partes da cidade e provocou três mortes na periferia. Deu até no Jornal Parcial da TV. Agora, pergunte se eles noticiam o programa educacional daqui que deu centenas de bolsas para estudantes carentes fazerem cursos no exterior. Claro que não.

Notícia boa não dá ibope o que faz com que viramos sempre com aquela sensação de que tudo está piorando e que nenhum ser humano presta.

Por falar em televisão, aqui há uma profusão de programas policiais e, em todos eles, os apresentadores imitam o Wagner Montes. Há um monte de Montes, naquele estilo que mistura galhofa e sensacionalismo. A maioria das notícias é sobre a epidemia de consumo de crack, que tomou Recife também. No dicionário da malandragem daqui, levar um "baculejo" significa ser revistado por policiais. No Rio, chama-se "geral" .

Obesidade também é outra epidemia por aqui... barriga é item de série.

Também pelo guia turístico, fiquei sabendo que Recife é a capital brasileira de maior densidade populacional. São 900 pessoas por quilômetro quadrado, a maioria torcedores do Santa Cruz, como eu.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Cuidado: tubarões na calçada!

Dizem que aqui na praia de Boa Viagem, que é linda, há perigo de ataque de tubarões. Foram 54 desde 1992, quando inauguraram um porto que mexeu com o ecossistema marítimo etc... 23 pessoas morreram e as outras ficaram mutiladas.

Praia de Boa Viagem, Recife/Foto: Marcelo Migliaccio


Por via das dúvidas, os que se aventuram a entrar no mar limitam-se a um mergulho no raso. É entrar rapidinho e sair correndo imaginando aquela bocarra de cinema americano no encalço do seu traseiro. Tudo bem, a água é quentinha, deliciosa.

Mas, depois de um tempão em vigília, sem avistar nem uma barbatana sequer, eu reparei que os tubarões de verdade estão do outro lado do calçadão, em terra firme, ávidos por fincar mais um daqueles monstros gigantescos ali na orla. São os predadores das construtoras e das empreiteiras, os devoradores dos metros quadrados mais caros do mercado.

Praia de Boa Viagem, Recife/Foto: Marcelo Migliaccio

Olha só que sacanagem! Nesse aí, contei 38 andares e deu vertigem. Atende pelo refinado nome de Edifício Maria Edicta... Palavra de honra que eu ficaria constrangido de morar num negócio desses.

Praia de Boa Viagem, Recife/Foto: Marcelo Migliaccio

Sei não, mas a impressão é de que cada político, administrador público ou magistrado que contribuiu para que essa grosseria fosse cometida numa orla tão bela deve ter ganho um apê nesses prédios.


Praia de Boa Viagem, Recife/Foto: Marcelo Migliaccio



Hoje é festa, lá no meu apê...

Praia de Boa Viagem, Recife/Foto: Marcelo Migliaccio


Gozado é que os prédios mais antigos dali são pequenos, marcas de um tempo romântico, em que a especulação imobiliária não maculava santuários com essa cara-de-pau toda.

Praia de Boa Viagem, Recife/Foto: Marcelo Migliaccio

Mas vêm mais arranha-céu por aí

Praia de Boa Viagem, Recife/Foto: Marcelo Migliaccio

Tem tanta gente faturando alto que estão até vendendo cofre á beira-mar.

Praia de Boa Viagem, Recife/Foto: Marcelo Migliaccio

Pronto!

Você não vai acreditar em Caruaru!

É a cidade mais caótica em que já estive, deixando Duque de Caxias (a mais enfumaçada e barulhenta) e São Gonçalo (a mais poluída visualmente) no chinelo.

Mas eu não vou contar agora, porque quero fazê-lo usando também imagens e isso é impossível no momento.

Recife tem os problemas comuns a todas as capitais nordestinas. O tratamento de esgoto é um problema, isso salta aos olhos, quer dizer, ao nariz. E os prédios gigantescos na orla chocam qualquer mortal. Um absurdo, como vai mostrar a foto que colocarei aqui em breve.

Mas o povo é maravilhoso, se entende muito bem com o carioca. Não é a toa que são os estados mais esquerdistas da federação há muito tempo. Às vezes elegem um Cesar Maia aqui, um Joaquim Francisco ali, mas, em geral, votam sempre contra as elites.

A malandragem também é a mesma, para o bem e para o mal. O senso de humor está sempre presente, mas não troque a bateria do seu relógio com um dos camelôs do centro velho de Recife.

E a irreverência é semelhante. Um guia de Olinda saiu resmungando porque achou pouco o pagamento pela explicação relâmpago e ininteligível sobre as igrejas do lugar. E eu nem pedi, ele chegou e começou a recitar sua decoreba histórica sem perguntar nada.

Me senti no Rio, abordado por um daqueles flanelinhas donos do pedaço.

Tudo bem, como disse aquele ex-presidente do Corinthians, "quem tá na chuva é pra se queimar". Estou achando Pernambuco um barato! A cada dia me dá mais vontade de viajar por este país maravilhoso, embora ainda cheio de problemas.

Até daqui a pouco.

Como dizem por aqui: "Pronto!"


domingo, 10 de junho de 2012

Em Pernambuco!

Praia de Boa Viagem, Recife/Foto: Marcelo Migliaccio


Vim conhecer Pernambuco.

Hoje fui numa praia cujo banho de mar é exclusivo para tubarões.

Até 1991, não havia registro de ataques no litoral de Recife.

Mas, com a inauguração do Porto de Suape, que serve a navios do mundo inteiro e a companhias transcontinentais, os tubarões ficaram desnorteados e passaram a comer pernas e braços de surfistas para aliviar a tensão.

Desde 1992, foram 54 ataques, 23 deles fatais.

Como eu disse num texto outro dia, é o progresso.

Logo, logo mando mais notícias, inclusive da seca sem precedentes que está torturando o sertão pernambucano.

E os mauricinhos aí no Rio falando de desenvolvimento sustentável.

E os idiotas criticando a transposição de 5% das águas do Rio São Francisco para salvar as vidas de tantos sertanejos...

terça-feira, 5 de junho de 2012

Pegue o primeiro retorno

O avanço da espécie humana nada mais significa do que seu caminho para a extinção.

Quanto mais o homem se aperfeiçoa, mais largos são os passos para o brejo.

Veja o caso da China, o país cujo crescimento econômico e populacional mais impressiona. Suas autoridades pediram pateticamente aos diplomatas estrangeiros que evitem divulgar alertas sobre a péssima qualidade do ar em Pequim.

Tá ruim de respirar por lá.

Um pouco pior que São Paulo...

O progresso tem um preço. É caríssimo. Para a espécie humana, é fatal.

Veja o que aconteceu aqui no Brasil. Preocupado com os pátios das montadoras abarrotados de carros encalhados, o governo baixou os impostos.

Mais gente vai poder comprar carro!!!

E os engarrafamentos serão ainda mais extensos e duradouros.

É o progresso antropofágico.

Nada é mais emblemático sobre a evolução humana que o avião. Desde pequenos, quando vemos um jato cruzar os ares, pensamos em quanto o homem é especial. Conquistou a prerrogativa de voar, antes reservada por Deus apenas aos pássaros, mosquitos e outros bichos.

Pois não estão os aviões entre os principais responsáveis pelo buraco na camada de ozônio?

Os outros vilões da atmosfera são as indústrias. Elas precisam crescer. E não creio que governantes corruptos possam cobrar responsabilidade social e ambiental de empresários gananciosos. E pouco adianta um presidente honesto, a máquina administrativa, gigante e ramificada, é corrupta.

Viajemos agora até os Estados Unidos? Paraíso terrestre desde sempre, espelho para os idiotas de todo o mundo. Meca das chacinas adolescentes, do egoísmo, do intervencionismo (pregam a democracia para seu povo e a intervenção para iraquianos, afegãos etc). Industrializaram tudo, até um reles suco de laranja, e pagam por isso com a própria saúde.

Como não conseguiram intervir em Cuba e a maioria do povo de lá apoiou Fidel Castro, os americanos então engendraram esse embargo econômico criminoso, vergonhoso, contra o povo cubano. Dizem por aí que em Cuba falta tudo nas prateleiras por causa do governo comunista. Não culpam o embargo por isso. Segundo relatório anual da ONU, o bloqueio econômico dos EUA causou, desde seu início até 2005, prejuízo superior  89 bilhões de dólares a Cuba. Indiretamente, a medida também impede que empresas de outros países comercializem com o país caribenho.

Mas o atraso mostra seus benefícios, paradoxalmente: em Cuba não faltam saúde e educação de qualidade para todos, o que é reconhecido mundialmente. E não há menores abandonados dormindo nas ruas. No entanto, chamam a atenção para o fato de não haver pasta de dente nos supermercados.

O que você prefere: ter Kolinos e Kolgate à vontade e pagar R$ 500 todo mês pelo remédio que o mantém vivo, ou economizar pasta e receber o medicamento de graça do governo?

Não adianta pensar sobre Cuba com cabeça de shopping center; ela lhe parecerá o inferno. Pense com cabeça de favela e tudo terá outro sentido.

Economizar virou crime, pecado no capitalismo. Todo mundo esbanja e já não se sabe o que fazer com as montanhas de lixo geradas diariamente.

É o progresso!!!

Portanto, se queremos nos perpetuar como espécie nesse planetinha azul, peguemos o primeiro retorno e voltemos à idade da pedra!

Caixa eletrônico no Catete, Rio/Foto: Marcelo Migliaccio

domingo, 3 de junho de 2012

Poema ilustrado



Essa foi a primeira poesia que eu ouvi na vida, no pré-primário, lida pela professora Raquel, no Instituto Souza Leão. Como cantou o Renato Russo, já morei em tanta casa que nem me lembro mais... mas dessa eu não esqueço, a casa muito engraçada.




A Casa (Vinícius de Moraes)




Era uma casa

Muito engraçada










Não tinha teto
Não tinha nada










Ninguém podia entrar nela, não
Porque na casa não tinha chão










Ninguém podia dormir na rede
Porque na casa não tinha parede












Ninguém podia fazer pipi

Porque penico não tinha ali











Mas era feita com muito esmero

Na rua dos Bobos
Número zero








sexta-feira, 1 de junho de 2012

Tomates verdes e... estamos fritos

Você não chega aos pés de um tomate.

Você pode até chegar perto de um pé de tomate para descansar um pouco, mas, geneticamente falando, nunca estará à altura dessa planta.

A conclusão não é minha mas de um grupo de geneticistas de 14 países que passou nove anos estudando os 70 mil genes da variedade de tomate usada para fazer ketchup.

A turma do jaleco branco constatou que um reles tomate tem 7 mil genes a mais que o homem.  Já havia sido um baque para a nossa prepotente espécie descobrir que tem um DNA 98% igual ao dos macacos. Graças a esses 2% não estamos por aí subindo em árvores e comendo banana com casca e tudo.

Pelo menos uma boa notícia para os amantes do cachorro quente, como eu! Com a engenharia genética, os cientistas prometem tomates mais saborosos, bonitos e, consequentemente, um ketchup supimpa para o nosso hot dog de cada dia.

Agora vem o temor: a vida é cada vez mais artificial e, já que podem modificar tomates, que são mais complexos, que dirá seres humanos...

Os jovens adoram experiências químicas e sensoriais, veja pelas raves em profusão no planeta. E esses jovens são os velhos de depois de amanhã, muitos os engenheiros genéticos de amanhã. Não é um devaneio pensar que pelo menos um deles vai fabricar seres humanos sem o menor drama de consciência.

Drama de consciência é como o nome Abigail: caiu em desuso nos dias de hoje.

Logo teremos homens e mulheres feitos por encomenda. Como um megaempresário hoje pode pagar uma grana para viajar pelo  espaço, logo poderá encomendar a mulher dos seus sonhos. Assim como farão com tomates, os cientistas tornarão as belas mais bonitas e seus beijos ainda mais saborosos. E os homens de laboratório não largarão mais toalha molhada em cima da cama e não farão xixi fora do vaso...

É assustador?

Não, é o futuro, prepare-se.

Estátua na Praça São Salvador, Rio/Foto: Marcelo Migliaccio