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quarta-feira, 30 de maio de 2012

Aqui e agora

A polícia do Rio identificou como Xaropinho o autor do disparo que matou, em novembro de 2011, o cinegrafista da Rede Bandeirantes Gelson Domingos, durante uma operação policial na favela de Antares, Zona Oeste do Rio. Agora, equipes fazem incursões na comunidade para tentar prender o assassino.

A Bandeirantes, em seus noticiários, trata o caso como se o bandido tivesse matado o profissional de imprensa intencionalmente, o que, claramente, não ocorreu. Como mostra o vídeo gravado pela câmera do próprio Gelson, ele se posicionou imprudentemente atrás de um dos policiais militares que trocavam tiros com os traficantes de drogas. Na época, o Sindicato dos Jornalistas do Rio culpou a Band, mas acho que cabe a cada um dos profissionais preservar-se, afinal nenhum canal obriga ninguém a fazer nada que coloque sua vida em perigo, pelo menos não explicitamente.

É fácil avaliar os riscos que o cinegrafista corria naquele momento, já que uma bala endereçada ao PM armado de fuzil poderia, evidentemente, atingi-lo, como infelizmente aconteceu. Na verdade, o triste episódio deve servir de lição a todos os profissionais de imprensa, repórteres e cinegrafistas, que acompanham esse tipo de operação. Mesmo com coletes a prova de balas (o de Gelson foi perfurado pelo tiro) não devem arriscar a vida dessa forma.

A Bandeirantes, assim como todas as outras redes, deve orientar melhor suas equipes, elaborar normas de conduta seguras e zelar para que sejam cumpridas, já que muitos jornalistas esquecem os riscos quando estão na adrenalina da busca da notícia.

Só falta dizerem, como a Globo fez no episódio em que Tim Lopes entrou numa favela com uma micro-câmera, sem o menor aparato de segurança, e acabou descoberto e morto, que o assassino atentou contra a liberdade de imprensa, contra a democracia etc... uma total deturpação do episódio para aliviar eventuais responsabilidades penais como empregadora. Depois do fato, a emissora adotou regras muito rígidas de conduta e fez de Tim Lopes quase um mártir.

Portanto, meus colegas jornalistas, cuidem de si, porque arriscar a vida desse jeito é um crime que não compensa.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Desabamento: alguém no banco dos réus?

Desabamento no Centro do Rio/Foto: Marcelo Migliaccio


A Polícia Federal indiciou sete pessoas pelo desabamento de três prédios no Centro do Rio em janeiro. Dezessete pessoas morreram soterradas e os corpos de outras cinco nunca foram achados. A perícia concluiu que uma obra no nono andar do maior dos edifícios, absurdamente, retirou colunas de sustentação. Não havia engenheiro responsável, o síndico foi omisso na fiscalização e até plantas falsas foram enviadas à prefeitura. O pessoal da empresa queria que as instalações ficassem bonitinhas e funcionais...

A tragédia só não foi maior porque os prédios caíram por volta das oito da noite. Se fosse em horário comercial os mortos seriam contados às centenas. Uma total falta de consideração com o próximo e de escrúpulos dos responsáveis irresponsáveis, e mais: a certeza da impunidade que caracteriza todo brasileiro, está no inconsciente de todos nós e no DNA da nação. Dessa vez, pelo menos, a impunidade terá uma desculpa esfarrapada: o maior dos edifícios que caíram, ironicamente, chamava-se Liberdade.

Se bobear, só os dois peões de obra que derrubaram as colunas a marretadas irão em cana.

O inquérito vai ser enviado agora à Justiça e é aí que a porca torce o rabo (e que a sociedade torce o nariz).

O time de indiciados já entra na batalha dos tribunais com um alento. Se condenados, sua pena pode ser convertida em ações não prisionais.

Ou seja: os culpados pelas 22 mortes têm a chance de, se condenados, prestarem serviços comunitários ou pagarem cestas alimentícias. Sugiro pizzas.

Nosso Código Penal e nossa Justiça, ao lado do ainda pouco investimento na educação pública, são os maiores entraves ao desenvolvimento do Brasil.

Leia também:
Charlie Chan e o desabamento

sexta-feira, 25 de maio de 2012

O doce sabor da derrota

Tricolores no trem/Foto: Marcelo Migliaccio

Nunca pensei que veria um trem da Central lotado só de tricolores. Normalmente, quem lota trem é o Flamengo, que, aliás, lota tudo. Tanto que, todo dia, os jornalistas esportivos inventam uma crise no rubro-negro. Dá Ibope!

Mas, voltando ao trem tricolor, espremido ali naquele vagão pensei nos trabalhadores que diariamente sofrem com a superlotação. Nós, torcedores da Zona Sul, íamos para um jogo. Duro é passar aquele aperto para ir trabalhar...

Para torcer na competição mais importante das Américas, vale qualquer sacrifício, inclusive penar numa lata de sardinha.

Na primeira infância, casamos com um time que nos acompanhará para sempre. É um amor incondicional, na saúde e na doença, como diz o padre aos casais apaixonados. E o futebol é o único espetáculo artístico em que o público chega sem saber se assistirá a uma comédia ou a um drama. É uma noite de amor que, ao final dos 90 minutos, pode acabar num orgasmo fantástico ou numa frustrante brochada. Mas estamos sempre lá, entre tapas e beijos naquele amor sem vergonha.

Flu x Boca/Foto: Marcelo Migliaccio

Quinta-feira passada, no Engenhão, foi encenada uma verdadeira tragédia grega. Levar um gol decisivo no último minuto é duro. Logo eu, que já vi o Fluminense ser campeão várias vezes no apagar das luzes, dessa vez provei do nosso próprio veneno. Na volta, no trem apinhado de gente cabisbaixa, cada um elegia seu culpado pela decepção. O técnico, o zagueiro, o juiz, o goleiro, os argentinos, o governador, o Carlinhos Cachoeira... Sobrava lamentação no vagão.

Cascudo em matéria de futebol, não fico triste por mais de dez minutos. Aquilo é diversão, é esporte, é fantasia. O importante é estar lá, viver as emoções até o apito final. O importante é viver, afinal.

Há muito tempo, percebi que as derrotas no futebol são saborosíssimas, enobrecem, revigoram. Além de tornarem as vitórias mais emocionantes e valiosas, os infortúnios do nosso time só aumentam nossa paixão por ele. É um casamento, lembra? E amor é para rir e chorar junto. Todos os clubes grandes do Brasil que caíram para a segunda divisão foram campeões de público nos estádios. É na pior hora que a torcida pega seu time no colo, joga junto, levanta os ânimos, sente-se responsável por aquela instituição e mais importante até que os jogadores.

As vitórias arregimentam novos pequenos torcedores, mas são as derrotas que vão sedimentar a paixão e mante-los fiéis àquelas cores pelo resto da vida.

No jogo entre Fluminense e Boca Juniors, até os jogadores, que há muito perderam a identificação com os clubes, se emocionaram. Num esporte tomado pelos mercenários, ainda há espaço para o sentimento graças à paixão do torcedor. Aquele sentimento infantil do garoto que veste com orgulho, pela primeira vez, a camisa do seu time do coração. Quinta-feira, vi garotos de cabelos brancos, acompanhados dos netos, voltarem no tempo sob bandeiras verde, grená e branco.

Torcida do Flu contra o Boca/Foto: Marcelo Migliaccio

E, na Central do Brasil, a caminho de casa no breu da derrota, ouvi alguém dizer:

_ Tão cedo não volto.

Ma eu sei que um dia volta, porque casamento, pelo menos no futebol, é para sempre.

Tricolores no trem/Foto: Marcelo Migliaccio

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Vá à Paris (com crase mesmo)

Praça Paris, Rio/Foto: Marcelo Migliaccio


A crase no título não está errada. Não falo da cidade luz, a capital da França, onde nunca estive, mas de uma praça que, por sua localização curiosa, é vista pela maioria dos cariocas apenas de longe, quando passam por ela de carro ou de ônibus.

Praça Paris, Rio/Foto: Marcelo Migliaccio


Creio que a Praça Paris tem esse nome porque lembra os jardins do Palácio de Versailles, onde a monarquia francesa um dia perdeu a cabeça. Na Praça Paris, muita gente também perde a cabeça, seja pelas biritas que toma na vizinha Lapa ou pelos travestis de R$ 1,99 que fazem ponto ao lado desse bucólico recanto.

Praça Paris, Rio/Foto: Marcelo Migliaccio


Bucólico mesmo. A Praça Paris é linda e muito aprazível, principalmente numa manhã ensolarada de outono, que permite um visual límpido de vários pontos nobres do Rio como a Igreja da Glória...

Praça Paris, Rio/Foto: Marcelo Migliaccio


E o relógio do edifício Mesbla, na Cinelândia.

Praça Paris, Rio/Foto: Marcelo Migliaccio


A razão de um lugar tão lindo como esse ser frequentado por relativamente poucas pessoas é que ele fica ao mesmo tempo espremido e longe demais da Cinelândia, da Lapa, do Aterro do Flamengo e do movimentado Catete. Sim, espremido quando percorrido de carro e longe demais para ser atingido a pé. E o pior é que não há estacionamento próximo.

Ou se chega nessa Paris de ônibus, ou de bicicleta, e não, como acontece com a outra Paris, de avião...

Praça Paris, Rio/Foto: Marcelo Migliaccio


Além dos jardins, a Praça tem estátuas que reinam soberanas. Adoro estátuas. Não ficam falando besteira no nosso ouvido e nunca se mexem na hora da fotografia.

Praça Paris, Rio/Foto: Marcelo Migliaccio


Portanto, se você é carioca ou visita a cidade, vá à Praça Paris. Garanto que lá nenhum francês vai torcer o nariz pra você...

terça-feira, 22 de maio de 2012

Para nossa alegria

O valor de um humorista não se mede pelas pantomimas que faz, pelas cambalhotas que dá ou pelas piadas que conta. Seu valor se mede pelo tempo em que seu humor permanece atual.

Por isso, o maior de todos, o Pelé dos palhaços, foi e continuará sendo Charles Chaplin. Seu imortal Carlitos continua, ainda hoje, em pleno século 21, divertindo todas as faixas etárias de todas as etinias do planeta. Agrada direita e esquerda (mais a esquerda...).

Tirando o genial vagabundo do cinema, todos os outros comediantes têm prazo de validade. A razão é que sua graça em geral se baseia em referenciais entendidos e abstraídos por determinada geração.

Ontem, no Youtube, vi um esquete de Oscarito, que era o máximo para a geração imediatamente anterior à minha. Pois, hoje, seu texto e suas caretas são algo chato e sem graça. Aliás, havia graça, o talento do artista em questão é patente e inegável, mas seu humor não atinge as novas gerações. O tempo de comédia mudou.

Uma amiga viu um filme de Buster Keaton e quase cochilou. Risada nem pensar. E ele era considerado um gênio por seus contemporâneos.

Outros tipos de humor caducaram enquanto nós contávamos mais e mais primaveras. O humor do Balança Mas não Cai, que migrou do rádio para a TV fazendo sucesso até o início da década de 80, graças ao talento de gente como Paulo Gracindo e Brandão Filho, teve vida relativamente longa. Lembro que eu, lá pelos meus 13 anos, ia assistir às gravações de um derivado do Balança nos estúdios da TV Tupi, na Urca, uma emissora já então pré-falimentar. No encerramento, todos os humoristas tinham que desfilar pelo palco como nos musicais americanos. Antes de entrarem em cena, para que abrissem um sorriso para as câmeras, alguém lhes dizia na coxia que o salário atrasado havia saído. Só com esse artifício aqueles comediantes conseguiam rir...

Paralelamente, um pouco mais moderna, surgiu a linhagem de Jô Soares, Renato Corte Real, Agildo Ribeiro. Reinou nas noites da Globo por muitos anos, primeiro com o Faça humor não faça a guerra, depois com o Planeta dos homens e, em seguida, o Viva o Gordo. Mas, assim como aconteceu com a turma do Balança, seus bordões foram perdendo a eficácia. Jô ainda tentou no SBT, mas acabou num talk show.

Chico Anysio resistiu bravamente, do rádio para a TV, onde se manteve ativo e cultuado por décadas, mas o tempo também mostrou-se implacável com ele, que acabou relegado a uma constrangedora geladeira no fim da vida.

Renato Aragão merece elogios, pois continua aí, divertindo a primeira infância com as gags de sempre.

Símbolo de tudo que era novo nos anos 90, a TV Pirata chegou prometendo muito, mas durou pouco. Seus ótimos atores foram diluídos no besteirol. Deixaram como herdeiros o Casseta e Planeta, que também sucumbiu quando os adolescentes que fizeram sua fama cresceram. Voltaram agora ao ar, mas tudo parece já ter sido feito e as piadas se repetem. "Seringueiro passa o dia na floresta tirando leite do pau..." Agora, ainda por cima, colocaram o programa na sexta-feira à noite, quando quem poderia gostar dele está na balada.

Opção para quem não tem opção nas noites de sábado, o Zorra Total renovou seu time mas insiste nas repetitivas apelações e grosserias. Num país sem educação, funciona. Os motoristas de van adoram...

E o que dizer do inacreditável fenômeno Chavez, que para mim sempre foi chatérrimo?

Retrato dos tempos violentos e individualistas, o estilo do Pânico e do CQC é baseado na agressividade, no bullying, na escatologia e no deboche. Agrada principalmente aos adolescentes que não se contentam só em ver o circo pegar fogo, querem caçoar do palhaço correndo com a roupa em chamas.

Do humor trash do Sergio Mallandro e do proscrito João Kléber nem é bom falar...

E tem também o humor sem graça do Rafinha Bastos, que não sabe fazer piada e já foi até processado por isso.

O melhor humor do momento, pra mim, é o que o Marcelo Adnet, a Tata Werneck e a turma da MTV fazem. Um dia também se tornará obsoleto e insípido, mas por enquanto é novidade.

Tornar-se previsível é o fim para qualquer humorista.

Quem sabe resistam como resistiu Zé Trindade, que ainda me faz rir com suas velhas gírias e trejeitos mesmo numa cena de 1959. É que ao ser esquecido, o humor, paradoxalmemte, ganha uma sobrevida.





Sobre humor, leia também:

O Pânico faz bullying

sábado, 19 de maio de 2012

Nós e a Lua

Lua/Foto Marcelo Migliaccio


Um dia desses, meu joelho inchou de tanto eu pedalar e fui obrigado a ir ao médico. Era uma tendinite, disse ele, antes de me receitar um anti-inflamatório. Parei com a atividade física por uns dias e o edema sumiu.

Taí uma das grandes invenções do ser humano: o anti-inflamatório.

Embora eu ache que a eficácia da medicina vai muito pouco além do anti-inflamatório, devido à complexidade do bicho homem e da imprevisível interação entre o físico e o psíquico, reconheço que em matéria de tendinite, a turma do estetoscópio foi muito bem.

Me disseram que aquele ortopedista é uma sumidade. Deve ser, pois em oito minutos apertou meu joelho, verificou a firmeza da rótula e especulou ser uma tendinite. Pediu um exame de imagem, claro. Paguei R$ 250, 00 pelo rito sumário da sumidade. Acho que nem o Eike Barbeiro ganha 250 pratas em oito minutos...

Devo confessar que não fui fazer a ressonância magnética, porque, sem dor e sem inchaço, não vou perder tempo alimentando a indústria dos Labs...

Outra grande invenção do homem é a Coca-Cola (essa bandida gostosona...). Os óculos escuros também foram um adianto enorme, pois além de filtrar os raios UVA ainda nos permitem fingir que não vemos um chato na rua.

O uso recreativo da canabis sativa foi igualmente um achado, embora a tal erva continue proscrita 5 mil anos depois, dado o seu poder de fazer as pessoas pensarem... sem apologia, porque tem muita gente que pira mesmo. Pensar, às vezes, é pirante.

Calça jeans, eis outro feito da Humanidade. Serve pra todas as horas e não sai de moda nunca. Confortável e bonita, o que mais se espera de uma peça de roupa? Poderia listar também a bicicleta e a música (a única droga sem efeito colateral que conheço) como grandes criações da nossa espécie.

Mas o maior feito desse animal que está levando o planeta para o buraco com sua dupla de âncias (ignorância e ganância), sem dúvida, para mim, foi ter chegado à Lua. Quem diria que aquela formiguinha do universo fosse construir uma engenhoca que a levasse a 350 mil quilômetros de distância, para caminhar num lugar em que nem oxigênio há?

Foram seis missões lunares, todas custando os olhos da cara do Tio Sam, mas desde que o primeiro homem das cavernas olhou para o céu e viu aquela bola prateada suspensa no ar, ele sonhou em andar por lá.

Quinta-feira passada morreu o último velhinho que ainda duvidava de que aquelas imagens do astronauta quicando de felicidade no solo lunar eram montagem e que aquilo tudo foi uma grande cascata dos americanos para sacanear os soviéticos.

De concreto, a ida à Lua pouco trouxe de progresso. As frigideiras de teflon em que você frita seus ovos, por exemplo, fazem parte do "grande passo para a Humanidade" dado pelo astronauta Neil Armstrong em 1969. Dizem que o quartzo dos relógios também veio de lá. O resto era terra e crateras.

Vista daqui, a Lua sempre inspira os namorados em suas juras de amor (os casados não costumam ter muitos olhos para ela) e faz os lobos uivarem como loucos.

Só pensar que, depois de tantos séculos a contemplar aquela inatingível e distante maravilha, o homem chegou lá, andou por lá, já é uma coisa fantástica.

Viva a Lua, viva o homem quando ele sabe usar a cabeça.

Ai, meu joelho tá doendo...

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Ensaio sobre a cegueira

O primeiro aviso foi quando meu prato saiu do foco. De repente, eu não conseguia enxergar mais a comida direito. E, para comer, tanto quanto a gustação e o olfato, a visão é fundamental. Experimente, no meio do almoço, girar seu prato. As coisas mudam de lugar e lá se vai seu referencial do rango para o espaço. Desorienta, é esquisito.

Notei que não distinguia bem a comida no prato principalmente numa mesa alta em que eu costumava almoçar, perto do trabalho. Êpa! Será?

Sim, o tempo estava passando pra mim.

O segundo aviso foi um colega de trabalho que tem aquela mania de falar com o rosto quase colado ao do interlocutor. Geralmente, os bêbados cometem tal pecado mas, de vez em quando, aparece um cristão sóbrio que tem esse hábito, digamos, de proximidade coloquial.

Bom, mas o fato é que quando esse cara vinha falar comigo, eu simplesmente não conseguia definir seu rosto. E a expressão facial é peça chave numa conversa. Por isso certas coisas não podem ser conversadas por telefone...

Sem ver a cara do sujeito, e tentando vê-lo, eu ficava instintivamente me afastando dele, distância que ele, por hábito, teimava em reduzir, aproximando-se de mim.

Foi triste.

Aí veio o terceiro sinal, que no teatro indica que o espetáculo vai começar. Não conseguir mais ler sem óculos foi a gota d'água. Tive que ir ao oftalmologista, que atestou o início da minha deterioração física. O marco zero do envelhecimento.

O povo chama de "vista cansada", os médicos, de presbiopia, que começa por volta dos 40 anos, quando o cristalino do olho perde a elasticidade e fica difícil ver o que está próximo.

Saí do consultório com óculos para perto. Quando esqueço de levar, é uma desgraça.

Mas, às vezes, é bom não enxergar bem de perto. Isso nos priva, por exemplo, de ler coisas como as que aquela revista semanal que pensa que o leitor é cego publicou. Citando editoriais de seus parceiros de sempre, o jornal biscoito de praia e o jornal do "erramos", a publicação desencavou um suposto complô de petistas envolvidos no tal do mensalão para acabar com a liberdade de imprensa no país. O objetivo da reportagem é apenas escamotear as 200 horas de conversas gravadas entre o seu editor chefe em Brasília e o bicheiro Carlinhos Cachoeira, aquele acusado de ter como empregadinhos o senador do DEM, DEMóstenes Torres, amadíssimo pela revista até ser pego com a boca na botija, e o dono da construtora Delta, o mister Guardanapo na Cabeça.

Cachoeira foi a fonte para várias matérias que a revista publicou nos últimos anos, quase todas elas com o objetivo de atacar os governos do PT.  Como todo o resto da grande imprensa, ela não suportou ver o brasileiro vivendo melhor e o número de miseráveis a diminuir no país.

O texto desta semana pouco faz além de ressaltar a importância da liberdade de imprensa (ou de empresa?) e relembrar denúncias feitas pelos jornais e revistas.

Mas, poucas páginas adiante, a mesma revista, na mesma edição, critica a liberdade dos sites e blogs na internet. Diz que todos são feitos por vadios membros de uma rede de intrigas alimentada pelo presidente do PT.

Trocando em miúdos: liberdade de expressão irrestrita e inimputável só para a grande imprensa, para que o pensamento único continue a ser massificado e correntes políticas comprometidas com a concentração de renda sigam privilegiadas nos noticiários.

Para a internet libertária e popular, mordaça.

Graças a Deus, perdi meus óculos...

Foto: Marcelo Migliaccio

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Um domingo no Engenhão

Estádio Engenhão/Foto: Marcelo Migliaccio


Para quem já esteve em jogos no Maracanã com 155 mil pessoas, um público pagante de 23 mil num clássico decisivo é ridículo. Mas, para os dias de hoje, com transmissão ao vivo na TV aberta, posso dizer que o Engenhão estava cheio. E não há prazer maior do que ver seu time vencer uma partida importante, contra um rival local, de goleada, com gol de bicicleta e o escambáu.

Depois de muito tempo, desisti de ficar sentado no trono do apartamento, com a boca escancarada cheia de dentes, esperando a transmissão começar na TV. Peguei o metrô e depois o trem da Central para ver Fluminense e Botafogo no distante subúrbio do Engenho de Dentro.

No trem, os poucos trabalhadores agraciados com um expediente naquele lindo domingo de sol, olhavam curiosos para aquele monte de mauricinhos e patricinhas que nunca enfrentam as torturas impostas pela Supervia aos usuários habituais do transporte ferroviário.


Torcedores no trem da Supervia/Foto: Marcelo Migliaccio

Vendedores ambulantes anunciavam sem parar suas mercadorias: cerveja, refrigerantes e salgadinhos acondicionados em pesadas mochilas, carregadas também por mulheres sofridas, defendendo ali naquele calorão, em pleno dia universal do descanso, o pão de cada dia.


Garoto no trem da Supervia/Foto: Marcelo Migliaccio

Dentro do estádio, só classe média. Um cachorro frio e um refrigerante quente por R$ 10! Quem tem três filhos precisa pedir empréstimo no banco para levar a família ao futebol...

Do jogo, não preciso falar. Quem viu, viu a goleada acachapante que a Unimed Football Club deu no Guarativon de Futebol e Regatas. Ah, as marcas de fantasia? Fluminense e Botafogo. Cem anos de história por trás da publicidade.

Além do mais, acho que a maioria dos leitores deste blog não liga para futebol.

Saí feliz do estádio.

Apesar de tudo que fizeram e fazem com o esporte mais popular do planeta para extrair dele a maior quantidade possível de dinheiro, quando a bola começa a rolar aleatoriamente nos gramados, domada apenas pelos craques que sabem fazê-la submissa, toda a magia lúdica renasce das cinzas.

Isso, o futebol é uma Fênix estuprada e corrompida que, todos os domingos, num campo de terra esburacado ou no lindo estádio do Engenhão, revive para despertar os garotos de 12 anos que ainda dormem dentro de nós.


Torcida do Fluminense no Engenhão/Foto: Marcelo Migliaccio



sábado, 5 de maio de 2012

Grandes encontros da História XII

Uma das melhores cenas do agente secreto James Bond foi filmada num dos lugares mais bonitos do mundo, o Pão de Açúcar, em 1979. Imagine encarar o gigante Dente de Aço em cima do bondinho! O cara parte um cabo de aço com uma mordida... Só o Roger Moore mesmo...


quinta-feira, 3 de maio de 2012

Não há perdão para o puxa-saco

Monumento aos puxa-saco/Foto: Marcelo Migliaccio

Se há um crime que definitivamente não compensa é o de puxar o saco.

Um belo dia, o expert em bajulação foi mandado embora. Não adiantou ele participar da ação de marketing da empresa, perdendo um dia de folga para balançar bandeirinhas pela cidade. De nada adiantaram as forçadas gargalhadas de Fafá de Belém para as piadas sem graça contadas pelo chefe e tão pouco as lágrimas de crocodilo que derramou quando soube que o rebento do manda-chuva fora reprovado em matemática.

Não há perdão para o puxa-saco, inclusive por parte do chefe a quem ele bajula, e que, por sinal, quase sempre acaba sendo seu algoz. Isso porque a bajulação desmedida se torna um fardo para o bajulado. É constrangedor, mas o puxa-saco não tem noção do seu ridículo.

O dia do juízo final do puxa-saco demora, mas chega. Até a data fatídica, ele se mantém puxando outra coisa: o tapete dos colegas. A delação é uma especialidade do puxa-saco, assim como acender fogueiras para queimar a reputação alheia. Nesse último caso, o único perigo é o fogo pegar em sua cara-de-pau.

A razão pela qual um ser humano se dedica a esse papel degradante é que ele sabe que é um incompetente. Mais do que o medo de perder o leite das crianças, o fato de o puxa-saco não confiar em si mesmo é determinante.

O homem pode ser grande, um herói. Por exemplo, quando inventa algo que ajudará a humanidade, ao realizar proezas atléticas formidáveis ou ao criar uma obra de arte. Mas um homem desce ao degrau mais baixo da mesquinharia quando puxa o saco alheio.

Um puxa-saco começa no ofício ainda criança. Todos nós, quando pequenos, demos uma puxadinha de saco naquele amigo que tinha um autorama legal. Mas a maioria se deu conta do ridículo daquela atitude e se envergonhou para sempre. Alguns, porém, decidiram fazer daquilo seu meio de vida.

Primo-irmão do imbecil, o puxa-saco não contesta, não questiona e jamais pensou em discordar de seu superior hierárquico. Por isso, toda empresa que se alicerça em puxa-sacos vai para o buraco. Mais cedo ou mais tarde.

Dizem por aí que há blogueiros que puxam o saco de seus leitores.

Não sou desses, mas se você por acaso espirrar, saúde!