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segunda-feira, 30 de abril de 2012

Adote um jumento

Jumento. Foto de Marcelo Migliaccio

Aos solavancos, o carro faz mais uma curva nas estradas de terra de Visconde de Mauá. A imagem seguinte surpreende. Em vez dos habituais cavalos ou cachorros sem dono, um pequeno jumento branco caminha com dificuldade no canto da pista. Uma de suas pernas traseiras, torta, mostra que ele sofreu uma fratura que o incapacitou para o trabalho escravo.

A lembrança da fábula dos irmãos Grimm foi imediata. Como em Os Músicos de Bremen, aquele animal deve ter sido rejeitado por seu dono quando não prestou mais para levar no lombo o peso das mercadorias. Diferentemente da história infantil, no entanto, o pobre diabo de pelos brancos e encardidos não havia encontrado um cachorro, um gato e um galo também assombrados pela velhice para formar um conjunto musical e redescobrir a alegria de viver.

Jumento. Foto de Marcelo Migliaccio


Quando reduzi a velocidade do carro para fotografar o burro (ou seria um jumento?) veio o inesperado. Em vez de se afastar como fazem os animais ameaçados ele veio em minha direção. Com o olhar mais humano que eu já vi, me pediu um afago. 

Jumento. Foto de Marcelo Migliaccio


Escaldado por uma vaca que me deu uma cabeçada uma vez, fiquei com medo de que aquele cavalo dado me mostrasse os dentes e levasse de roldão alguns dos dedos que agora batucam nesse teclado.

Com a consciência em pedaços, segui viagem, vendo pelo retrovisor o jumento carente na beira da estrada.

Choveu muito na noite e na madrugada que se seguiram.

E, ao passar pela estrada no dia seguinte, lá estava ele, comendo capim na encosta, bem perto da pista. Seu pelo estropiado mostrava que ele enfrentou mais aquela intempérie ao relento.

Chuva que também deixou meu coração encharcado.

Jumento. Foto de Marcelo Migliaccio


sábado, 28 de abril de 2012

Me esconde, Mauá

É verdade que fui num meio de semana, mas mesmo com o asfaltamento do trecho final, desde Penedo, o recanto Mauá, Maringá e Maromba, no interior do Rio, continua com aquele mesmo ar místico que conheci há cerca de 13 anos, na primeira vez em que estive lá. Muito mato, muita cachoeira, e também muitas pousadas e restaurantes para todos os gostos. Me esbaldei na carne de porco, pra mim a melhor das carnes, e durante quatro dias, tomei um banho de silêncio e de ar puro.

Visconde de Mauá, foto de Marcelo Migliaccio


Sair da cidade e poder ter tempo de observar os detalhes das menores flores, ver sobre elas o orvalho que as renova todas as manhãs. Essa minúscula rosa não estava no jardim de ninguém, e sim na beira de um rio, plantada ali pela natureza.

Flor em Visconde de Mauá, foto de Marcelo Migliaccio


Um tempo para o bicho da cidade contemplar os mais belos animais que há no mundo.

Cavalo em Visconde de Mauá, foto de Marcelo Migliaccio


E também os mais feios, aqueles que parecem um vilões de desenho animado Hanna-Barbera. Esse aqui tem o poder de queimar o herói.

Taturana em Visconde de Mauá, foto de Marcelo Migliaccio


Tô pra ver um lugar com mais fusca nas ruas... a explicação é que o velho bravo alemão resiste como poucos àquelas estradas de terra, buraco e pedra.

Fusca em Visconde de Mauá, foto de Marcelo Migliaccio


Só aqui é possível abrigar-se da chuva debaixo de um cogumelo.

Cogumelo em Visconde de Mauá, foto de Marcelo Migliaccio


Só aqui, é possível ver o leiteiro numa charrete e lembrar do primeiro cavalo que vi ao vivo, em Penápolis (SP), aos cinco anos, também na entrega do leite. Naquela vez, fiquei apaixonado e, na inocência da infância, perguntei ao leiteiro quanto custava. Ele respondeu: "Dez cruzeiros". O problema seria instalar meu animal de estimação num apartamento na Rua Visconde Pirajá, em Ipanema...

Charrete em Visconde de Mauá, foto de Marcelo Migliaccio


Tudo bem, comércio é comércio, mas você prefere fazer compras aqui ou num shopping center?

Maringá em Visconde de Mauá, foto de Marcelo Migliaccio


A perereca da vizinha bateu no meu chalé, mas eu estava acompanhado.

Perereca em Visconde de Mauá, foto de Marcelo Migliaccio


A Assembléia de Deus já chegou, mas não vi Igreja Universal nem a turma do Valdemiro Santiago. "Glorifica bem forte!"

Assembleia de Deus em Visconde de Mauá, foto de Marcelo Migliaccio


E tome fusca na paisagem.

Fusca em Visconde de Mauá, foto de Marcelo Migliaccio


Descobri que os canários estão sempre em casais. Não há divórcio no reino deles.

Canários em Visconde de Mauá, foto de Marcelo Migliaccio


A magia e a beleza aqui podem pesar menos de um grama...

Borboleta em Visconde de Mauá, foto de Marcelo Migliaccio


Ou mais de uma tonelada.

Boi em Visconde de Mauá, foto de Marcelo Migliaccio


Claro, polícia para quem precisa.

PM em Visconde de Mauá, foto de Marcelo Migliaccio


Aqui todo olhar é curioso, e vê as coisas como se fosse a primeira vez.

Bezerro em Visconde de Mauá, foto de Marcelo Migliaccio


Primeira e única vez.

Fruta em Visconde de Mauá, foto de Marcelo Migliaccio


Talvez última.

Riacho em Visconde de Mauá, foto de Marcelo Migliaccio

domingo, 22 de abril de 2012

Há perguntas que um jornalista não deve fazer

_ É verdade que o senhor saiu do Brasil para o exílio vestido de mulher? _ perguntou a jornalista, que já havia tentado irritar Brizola durante a entrevista e agora ressuscitava a versão de sua fuga após o golpe militar de 1964.

Leonel Brizola não se controlou. O velho esquerdista que governou o Rio e o Rio Grande do Sul sempre preocupado com a educação das crianças pobres deu a resposta que estava atravessada na sua garganta havia décadas:

_ É verdade, tu me emprestaste as tuas calcinhas e saí com elas.

Claro que a mídia usou o episódio para, mais uma vez, desancar Brizola, pintá-lo como um desequilibrado. Para mim, porém, ele agiu como eu agiria.

Em outra campanha presidencial, muitos anos depois, a repórter, que deve ser filha da que constrangeu Brizola _ ou filha de outra coisa _ chocou a então candidata Dilma Rousseff:

_ A senhora é lésbica?

Dilma se conteve, respondeu, com educação, que não desceria àquele nível. Foi eleita presidente do Brasil.

A repórter? Não sei por onde anda, nem lembro seu nome.

Em todo o meu tempo trabalhando em jornais e revistas, sempre me incomodou fazer certas perguntas. Na maioria das vezes, quando eu achava a questão muito pessoal, ficava calado. Como na vez em que fui entrevistar o ator Carlos Augusto Strazzer, que havia acabado de assumir publicamente ser soropositivo. Quando voltei à redação, meu chefe perguntou como ele tinha contraído o vírus HIV.

Eu jamais perguntaria algo tão íntimo a alguém. Nem informalmente, se fosse um amigo meu, muito menos profissionalmente.

Para me livrar da bronca por não ter sido mal educado com o entrevistado, disse que o ator não quis falar sobre aquilo. O chefe engoliu minha cascata. Strazzer morreu alguns meses depois.

Certas coisas, de tão íntimas, só devem ser abordadas se a iniciativa partir do entrevistado. Se ele não diz, provavelmente é porque não quer dizer. Eu nunca faria, por exemplo, como Marília Gabriela fez com Cazuza:

_ Você tem aids? _ disparou ela sem piscar.

O cantor ficou desconcertado, gaguejou, negou. Sua doença ainda não era pública, embora já fosse muito comentada. Achei uma tremenda deselegância dela. Fiquei chocado. Por quê? Pra quê chegar a esse extremo?

Você perguntaria isso a um amigo seu? Dessa forma? Nem na intimidade, imagine diante de estranhos... milhões de estranhos.

Quem pensa que são só os malas do Pânico e do CQC que fazem perguntas constrangedoras a pessoas famosas está enganado. Tem muito jornalista que posa de sério mas não tem desconfiômetro nem se coloca no lugar do entrevistado.

Claro que errei muito quando era inexperiente. Expus pessoas, como uma mulher que acampou em frente ao prédio do Roberto Carlos e, por causa da minha reportagem, foi internada num hospício. Me arrependi quando ela me telefonou n redação e disse que, graças a mim, estava num manicômio. A partir daí, passei a dar mais valor ao entrevistado e não à entrevista. A criar um constrangimento, preferia levar a reportagem por outros caminhos, tentando usar criatividade.

Desde que a indústria jornalística virou um grande negócio e, ao mesmo tempo, uma poderosa arma política, repórteres são pressionados a arrancar dos entrevistados declarações fortes, polêmicas, que vendam jornal, que deem audiência, que coloquem determinadas pessoas em posição delicada, constrangedora. Os editores acham que o povo quer sempre escarnecer o entrevistado. Ou seja, fazem a pior imagem possível do ser humano que consome o produto que vendem. São uns medíocres pretensiosos. E o pior é que o povo consome e se habitua com lixo, já que o monopólio dos meios de comunicação está nas mãos de meia dúzia.

Mas cara-de-pau e falta de escrúpulos têm limite.






Leia também:

Jornalismo para iniciantes

Algumas dicas para ler jornais

Telejornais: aula de manipulação

Os big brothers da imprensa

A indústria do medo

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Cinema é a (segunda) maior diversão

Andar de ônibus no Egito, e aqui também, pode ser uma provação para uma mulher


O bonequinho não entende patavinas de cinema. Dorme em filmes ótimos e aplaude de pé peliculas intragáveis. Como não quer perder a boquinha, ele se preocupa em saber quem produz o filme antes de entrar no cinema. Se é seu patrão,  a sessão mal começa e ele já está quase subindo na cadeira de tanto entusiasmo. Por isso desisti de ler críticas há tempos.

Já a revista que pensa que o leitor é cego é tão pretensiosa que não publica apenas a sinopse da história. Conta o filme inteiro e ainda por cima com opiniões do crítico. Ou seja, ela é irremediávelmente viciada em fazer a cabeça alheia. Cabeça dos cabeças-de-vento, claro.

Vi alguns filmes em cartaz atualmente  _ além do ótimo documentário sobre Raul Seixas _ e, se interessa a alguém, aqui vai minha modesta e obsoleta opinião.


A vida dos peixes - Fazer um filme todo em plano fechado, passado no interior de uma casa, durante uma festa de aniversário é muita coragem. Mas o diretor conseguiu com méritos.

Jovens adultos - Charlize Theron, que entrou para a História com seu desempenho em Monster, dá outro show nesse filme, que escapou por pouco de ser chato graças à sua atuação é à do ator que interpreta seu amigo gordinho, justamente bem recompensado no final...

A bailarina e o Ladrão - O excelente Ricardo Darín fica como coadjuvante nessa história muito bem filmada. Quem rouba a cena é o jovem e entusiasmado ladrão, que, como Chaplin, mostra que nem sempre roubar é feio, pelo menos no cinema.

Adorável Pivellina - Bom para quem tem saudade do bom e velho cinema italiano. Sempre sensível e convincente, é uma terna diversão. A criança até hoje não deve saber que estava sendo filmada, o que tornou tudo muito natural. Às vezes até demais, como na primeira cena, em que ela é abandonada pela mãe numa praça.

Perseguição - Não perca seu tempo com essa forçação de barra cheia de lugares comuns.

Xingu - Uma decepção. Resumiram demais a fantástica história dos irmãos Villas Boas. Os atores são bons, direção, fotografia, produção etc, mas o resultado é um insosso pastel de vento.


Cairo 678 - Esse, pra mim, é o grande filme do momento. Realista, mostra a primeira mulher a denunciar assédio sexual no Egito, em 2009 (não 1909, 2009 mesmo). Não há uma interpretação sequer mediana. Nada fora do lugar, crítica social que deve ter deixado os diplomatas egípcios pelo mundo de cabelo em pé. O machismo é tão enraizado que até os namorados e maridos das vítimas têm dificuldade em tomar partido e defende-las. Sinceramente, não sei como o diretor, Mohamed Diab, ainda está solto. O costume de alguns homens de bolinar as mulheres nos ônibus cheios me fez lembrar o que ouvi de passageiras dos trens da Supervia  e da Linha 2 do metrô no Rio...

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Metrô caipira

O traçado anunciado para o novo trecho do metrô do Rio, rumo à Barra da Tijuca, é mais uma prova do elitismo escancarado do atual governo estadual e de seu absoluto fracasso no que se refere aos transportes de massa.

Em vez de seguir por Botafogo até a Gávea, como seria mais lógico e econômico, o traçado passa por Ipanema e Leblon. As ruas Mena Barreto, São Clemente e Jardim Botânico continuarão portanto engarrafadas, assim como a orla da Lagoa por aquele lado.

Enquanto isso, vão amontoar estações próximas e supérfluas nas Praças Nossa Senhora da Paz e Antero de Quental, além de macular o Jardim de Alah com uma outra. Um crime. Bom, mas pra quem já destruiu o Maracanã e o bondinho de Santa Teresa, um Jardim de Alah a menos não é nada...

Eu não sei por que essa veneração por Ipanema e Leblon. Parece que o prefeito e o governador são caipriras... deslumbrados com as novelas do Manoel Carlos...

O metrô deveria avançar até o Leblon depois, devagar...

Que fixação em babar o ovo desses bairros, que exercem um fascínio inexplicável sobre os caipiras, principalmente os caipiras cariocas. E o pior é que as estações Cantagalo e General Osório vão ficar fechadas por oito meses! Ou seja, querem puxar o saco dos moradores mas acabam prejudicando.

De minha parte, acho o Leblon super deprê. Todo mundo na rua se acha protagonista da novela das oito, inclusive os mendigos. Em Ipanema, você acha até um ou outro que aceita ser coadjuvante, mas, mesmo assim, só presta a parte que vai da General Osório, incluindo o Morro do Galo, até o início de Copacabana, bairro onde a coisa, de fato, fica boa.


Praia de Ipanema/Foto: Marcelo Migliaccio
Ipanema vista do alto do Pavão-Pavãozinho

Grandes encontros da História X

terça-feira, 10 de abril de 2012

A apologia ao sexo e suas consequências

Pronto.

O telejornal da emissora líder de audiência mostrou e agora vai ser um Deus nos acuda.

Vai ter polícia, Exército, Ministério Público, ambulância e tudo mais. Isso até a emissora esquecer e o gelo, enxugado às pressas, voltar a pingar. Aí a prefeitura e o governo do estado poderão relaxar, pelo menos até a próxima denúncia vazia e efêmera.

Quem não sabe que o Rio está cheio de cracolândias, inclusive no Centro da cidade?

Quem não sabe que as crianças e adolescentes dependentes assaltam pessoas no meio da rua para poder comprar a droga?

O problema não é o crack.

O problema é essa fábrica de meninos e meninas de rua que, no Brasil, anda a todo vapor. Seu combustível? Uma indústria da comunicação que faz apologia do sexo 24 horas por dia. A única diversão do pobre é fazer sexo e ele recebe um incentivo fenomenal para exercitar esse prazer.

Enquanto todos os países sérios do mundo estão preocupados com a explosão populacional, o Brasil só fala em sexo, só mostra sexo na TV, só massifica músicas de sexo.

"Ai, se eu te pego, ai, ai."

Vão me chamar de moralista e puritano, já sei. Sempre os mesmos defensores da "liberdade de expressão"e da "livre iniciativa". Logo eu, que adoro praticar o mais saudável de todos os esportes...

Imagine o efeito dessa apologia ao gozo entre milhões de pessoas sem educação, sem dinheiro e vivendo em famílias miseráveis e desestruturadas...

Aliás, não precisa nem imaginar. É só olhar para os lados, inclusive porque um desses meninos de rua pode estar chegando para arrancar seu cordão de ouro. Que trocará por uma pedra de crack de 1 real.

O país não tem nenhuma política de controle da natalidade, nem move uma palha para tentar fazer frente a essa lavagem cerebral que a mídia impõe. Nenhum poder público faz nada para contra-atacar essa avalanche de apelo sexual à qual crianças e adolescentes são submetidos.

O tesão já é a maior força da natureza, não precisa de tanta propaganda.

Outro dia, um coroa jornalista, que por sinal é empregado das organizações Biscoito de Polvilho, escreveu que ficou escandalizado ao ver a neta, de dois anos, se despedir do namoradinho da creche com um beijo na boca. Ele deveria reclamar com seus patrões, incentivadores contumazes dessa sexualização precoce, mas não faz isso para não perder o emprego, claro. Esse vetusto homem de imprensa, que, pelo jeito, logo será bisavô, não ficaria tão surpreso com a precocidade da netinha se deixasse a orla de Ipanema por algumas horas e subisse o Pavão-Pavãozinho para conversar com as adolescentes de lá.

E a emissora líder faz que nem é com ela, como quando noticia, sempre timidamente, a explosão de consumo de álcool por crianças e jovens. Evidentemente ela não vai dizer que uma das razões disso é ela mesma, e suas coco-irmãs, exibirem propaganda de bebida alcoólica o dia inteiro para todas as faixas etárias.

O Brasil tem um câncer: essa lavagem cerebral da mídia, que construiu um poder avassalador durante a ditadura concentrando-se nas mãos de meia dúzia de famílias. Eles têm rádio, jornal, TV, site, o diabo. Fazem o que for preciso para fechar o ano no azul, e o lixo todo vai parar na cabeça do brasileiro, vitimado ainda por uma educação pública de péssimo nível, com professores mal pagos e pessimamente preparados.

Milhões de pessoas vão para o extremo oposto e viram evangélicos fundamentalistas, outras saem por aí enchendo a cara de Smirnoff Ice e fazendo filhos que não vão ter dinheiro nem saco para criar. Rico, quando quer abandonar o filho, manda para o shopping center. Pobre larga na cracolândia mesmo.

Então, esconda seu colar, porque essa "séria denúncia" do telejornal da noite não vai dar em nada. Depois começa a novela e...

Vamos pra cama, querida?

Crianças na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro/Foto: Marcelo Migliaccio

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Raul Seixas: "A onda tá certa"

Com o documentário sobre Raul Seixas, descobri que assisti ao último show que ele fez na vida, em Brasília, em 1989. Foi a única vez que o vi cantando ao vivo e, apesar do estado de saúde já muito debilitado, o mito estava lá, apenas com os óculos escuros a separar os olhos dele dos meus, já que eu estava bem perto do palco. Acho que ele morreu três meses depois daquela noite em que cerca de 5 mil fãs das mais variadas idades e classes sociais ovacionaram o artista genial e sua obra eterna.

O filme é muito bom e tem o mérito de, pela primeira vez, trazer a público declarações das duas primeiras filhas de Raul, já que até então, só Vivian, a terceira, dava entrevistas sobre o pai. Apesar de muitas das imagens já estarem disponíveis no Youtube antes do filme, há revelações como os shows em Saquarema e no Anhembi e cenas do filme satanista Contatos Imediatos do Quarto Graal.

Paulo Coelho, Marcelo Nova, Caetano Veloso, Edy Star e o parceiro mais importante, Claudio Roberto, também dão ótimas entrevistas. Assim como o cover de Raul que perdeu a mulher por insistir em batizar o filho do casal com o nome do ídolo. Ela se foi, mas Raulzinho está lá, ao lado do pai e cantando os hinos deixados para a posteridade.

O processo de autodestruição alcoólica, no entanto, é bastante incômodo, deprimente até. O homem é sempre maior que o mito, que é apenas um resumo de uma vida e uma obra, os melhores momentos do jogo de cena de cada um.

Para mim, uma das melhores passagens do documentário é essa entrevista dada por Raul ainda inteiraço, nos anos 70, quando uma ressaca na praia do Leblon acabou avariando seu carro.

Não se poderia esperar outro tipo de declaração senão a inusitada absolvição da natureza pelos estragos:

_ A onda tá certa.






Veja a entrevista completa e a reportagem sobre a ressaca

sábado, 7 de abril de 2012

Tá russo na Rocinha

A venda de drogas continua, em todas as favelas com ou sem UPP, assim como nas ruas. É mais fácil comprar droga do que pão em qualquer lugar do mundo, e aqui no Rio não seria diferente. São Paulo tem a procissão do crack. No Irã, o tráfico vende uísque 12 anos...

Seja corrompendo PMs ou escondidos deles, os traficantes seguem em seu negócio, o mais lucrativo do mundo há séculos se contabilizarmos também as drogas legalizadas, como tabaco e álcool.

O governador do Rio se vangloria das favelas ocupadas (por critério elitista, diga-se, já que começou na Zona Sul, deixando a Baixada e Niterói no fim da fila).

Nas favelas, agora, em vez de serem tutelados por bandidos armados, os moradores estão espremidos entre os criminosos que não fugiram e os PMs que militarizaram o cotidiano local. Alguns moradores gostam, outros odeiam a atual situação. Aliás, os mesmos que ora gostam, ora não gostam. Por exemplo: o trabalhador fica mais tranquilo ao saber que seu filho corre menos risco de levar uma bala perdida num tiroteio na favela. Mas esse mesmo trabalhador não gosta quando a polícia proíbe o baile ou vem acabar com seu churrasco de fim de semana.

Foi legal o fim  do domínio armado dos bandidos nos morros? Claro que foi. Para mim, então, que pude subir o Dona Marta e o Tabajaras para fotografar, foi ótimo. Mas os investimentos em saneamento, educação e saúde foram tímidos demais para compensar o estado policialesco que se instaurou nas favelas. E há sempre aquela frustração pela omissão histórica do estado, que costuma enviar mais policiais que professores e médicos para as chamadas "comunidades".

Meca da tuberculose brasileira, a Rocinha bate recorde de casos por ter casas tão concentradas que o ar mal circula, o que deixa muito feliz o bacilo de Koch, transmissor da doença. Esse caos urbanístico é ideal também para emboscadas, como a que resultou na morte do PM, o primeiro a tombar em favelas em processo de pacificação. No dia seguinte, houve tiroteio e apedrejamento de policiais.

Na Mangueira, atacaram PMs com granada. No Alemão, o Exército também tem problemas, inclusive com crianças que xingam e atiram pedras.

Ninguém tem mais dúvida de que não se resolve 500 anos de exclusão, deseducação e concentração de renda simplesmente invadindo uma comunidade com tanques de guerra e fincando uma bandeira do Brasil no ponto mais alto. Apesar do ufanismo dos âncoras da TV, o buraco é muito mais embaixo.

Marcelo Migliaccio

Leia também:

Como o Rio é pequeno

A Rocinha agora é de quem?

Os diplomatas do Congo

quinta-feira, 5 de abril de 2012

O pior é que é verdade

Não dá pra acreditar.

O governador do Rio permitiu que a empresa que administra a Ponte Rio-Niteroi assumisse o controle das barcas.

Quem precisa cruzar a Baía de Guanabara agora depende da boa vontade desses prósperos empresários (devem ter o carnê da multiplicação do apóstolo Waldemiro Santiago de tão bem aventurados que são...).

E o mais inacreditável é que a empresa que administrava as barcas, e continuará com 20%, é do grupo 1001, que se fez com linhas de ônibus que passam pela ponte.

Ou seja, está tudo em casa. Com as barcas ruins, eles ganham, pois a turma vai de ônibus e, agora, com a ponte ruim, eles ganham, porque os passageiros vão apelar para as barcas.

Isso é a economia de mercado, sempre baseada na acumulação e no favorecimento a grandes corporações. E o cidadão tem sua livre iniciativa, é só escolher entre o forno e a frigideira.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Cortina de fumaça no futebol

Torcida do Fluminense no Maracanã. Foto de Marcelo Migliaccio
Já fui de torcida organizada, na adolescência, e não acho que devam ser banidas. Os vândalos, que são caso de polícia, vão continuar existindo sem as organizadas.


Nada mais lógico, esperado, porém calhorda.

A emissora de TV que, em 1987, comprou o futebol brasileiro e esvaziou estádios agora está numa cruzada em seus programas esportivos para tentar responsabilizar as torcidas organizadas pela fuga do torcedor. Hoje, um clássico carioca não leva mais de 8 mil pagantes ao estádio, deprimente para quem, como eu, foi a vários jogos com mais de 120 mil pessoas vibrando e torcendo...

Não são as torcidas organizadas que exibem jogos ao vivo para a cidade em que se realizam.

Não são elas que marcam partidas que terminam à meia-noite de um dia útil, pois têm que acontecer depois da novela das nove.

Não são as torcidas organizadas que obrigam os profissionais do esporte a jogarem debaixo de um sol abrasador, com a sensação térmica na arquibancada beirando insuportáveis 50 graus. 

Além disso, a TV, que manda em tudo, não obriga os clubes e federações a diminuírem o preço das entradas para os jogos, já que isso torna um pacote de pay per view muito mais compensador do que ir ao estádio.

Muitos craques que estavam no exterior voltaram aos times brasileiros, mas as arquibancadas continuam vazias. É muito mais cômodo e barato ver os jogos em casa ou num bar.

De que vai adiantar banir as torcidas organizadas? Os vândalos, os pitboys, não vão desaparecer da face da Terra. Vão continuar indo aos jogos como sempre foram e arrumando as confusões que tiverem que arrumar. Eles sempre existiram no Brasil, existem em qualquer país, como a Espanha, a Inglaterra, a Itália, onde os estádios estão sempre cheios. Agora, no entanto, os brucutus estão mais excitados do que nunca para imitar o que veem seus ídolos do Vale-tudo fazerem com a cara dos adversários.

Para baderneiros e agressores covardes, existe polícia e Justiça.

Mas para o futebol voltar a ser um esporte que leva multidões aos estádios, como foi até a década de 80, a TV tem que recolher seus tentáculos.