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quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Fim de festa

Hoje, o Rio teve o dia mais quente desde 1915.

Na Inglaterra, há 73 anos não chovia tanto.

Em Pelotas e em Porto Alegre, calor infernal, assim como na outrora temperada Curitiba.

Na Rússia, 80 morreram de frio e mais de 250 foram parar no hospital. E olhe que eles estão acostumados com baixas temperaturas. É como um senegalês morrer de calor.

No Brasil, os noticiários da TV mostram diariamente pais e padrastos espancando até a morte filhos pequenos, bebês às vezes.

E somos mesmo campeões. Agora, assumimos o posto de país onde mais se consome crack no mundo.

Na Cidade Maravilhosa, saúde, educação e transporte estão uma porcaria, mas há obras bilionárias por todos os cantos, afinal, as empreiteiras e os políticos precisam faturar.

No quintal dos vizinhos paulistas, tiro ao alvo em policiais virou o esporte da moda.

E um fabricante de cerveja se tornou o homem mais rico do Brasil. Deixou Eike Batista de pires na mão. Na base dessa nova fortuna, está a propaganda de álcool, a droga "socialmente aceita", liberada em qualquer horário na TV para a criançada ver!

Intolerantes e vaidosos da Índia e do Paquistão disputam com seus semelhantes israelenses e árabes quem vai detonar primeiro a derradeira guerra nuclear.

Nos países bálticos o neonazismo se prolifera e não há quem consiga impedir.

O "esporte" que mais ganha adeptos no planeta consiste em tirar sangue da cara do outro com socos, chutes e cabeçadas.

Na área cultural, a única "novidade" é o anúncio da trilhonésima turnê dos Rolling Stones.

Explodem os índices de estupro e de gravidez adolescente não só no terceiro mundo, mas também na Europa e nos EUA. Por aqui, o aumento de casos notificados foi de 157% nos últimos quatro anos. Só  os notificados... todo mundo só pensa naquilo...

Por falar em Estados Unidos, por lá jovens levam  à escola lápis, borracha e fuzil AR-15.

Do outro lado do mundo, na China, crescimento econômico recorde rima com poluição planetária e trabalho quase escravo.

Quase um terço da riqueza do mundo está em paraísos fiscais, pois pertence ladrões, corruptos de toda espécie e traficantes.


E ainda dizem que os feiticeiros Maias erraram na previsão...




segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Conto de Natal neo-realista



Na última ceia que eu fui
Serviram galinha fria com farinha

Nem farofa tinha...


Agora é cada um na sua casa

E eu na minha...

Ah, e essa mania de esticar o feriado!
Até o Papai Noel, coitado, acabou enforcado


sábado, 15 de dezembro de 2012

O mundo acaba sexta-feira?

Não se fala em outra coisa nos botecos e nos velórios. O mundo acaba dia 21. A má nova foi disseminada no boca a boca, já que as autoridades competentes do planeta teriam decidido não divulgar o armagedom para evitar ondas de saques, estupros e assassinatos que proliferariam com o ser humano em desespero por sua hora ter chegado. Haveria muita reza e romaria, sem dúvida, mas também muita selvageria. Acho factível mesmo que, caso os cientistas tenham descoberto mesmo a data do juízo final, isso não fosse divulgado. Por enquanto, só os feiticeiros da civilização maia assumiram a previsão sinistra.

Todo mundo iria querer dar uma voltinha no iate do Eike Batista antes de fazer-se o breu total.

Uma amiga de olhos arregalados me descreveu como será o caos que se inicia na próxima sexta-feira: uma noite que duraria 72 horas com falta de energia elétrica...

Mandei que ela parasse seu relato apocalíptico. Pra mim, bastou.

E já pipocam as piadas aqui e ali. Ouvi na rua que só o Brasil vai ficar intacto porque o país não está em condições de sediar um evento desse porte...

Por via das dúvidas, venho comprando tudo no cartão de crédito, porque o meu vence dia 22. Até chiclete, eu quis pagar com o chamado dinheiro de plástico, para contragosto do sorveteiro...

Também não comprei embalagens gigantes, família de nada. Sabe como é, desperdício.

Falar nisso, quero ver a cara dos naturebas que esperavam viver 200 anos comendo só aqueles legumes sem graça. Eu, pelo menos, comi todos os cachorros quentes que tive vontade.

Boato ou verdade, é um bom momento para pararmos e pensarmos se nossa vida até aqui foi bem vivida. Aproveitamos nosso tempo nessa roda-gigante fazendo coisas que nos dão prazer, ou fomos escravos da nossa falta de coragem para correr o risco de tentar levar a vida que queremos?

Dissemos a quem amamos o quanto amamos?

No mais é esperar a hora do "vamos ver". Como é sexta, estarei tomando chope, bem gelado. Estou ansioso pra saber se Deus existe mesmo. Só espero não topar com Satanás.

Lembrei do ótimo filme Melancolia, sobre o qual já escrevi aqui.


quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Mulher de verdade

Mulher sarada não é comigo. Em nada me atraem as esportistas profissionais, secas, com seus seios minguados e zero de percentual de gordura corporal. Abdomem de tanquinho, pra mim, não serve nem pra lavar roupa. Em lugar dos músculos, devo confessar, prefiro uma discreta celulite.

Mulher pra mim é cheiro, toque, beijo na boca. A beleza está mais nos olhos, na inteligência e no senso de humor do que em formas e cabelos de boneca Barbie. Não escolho mulher pra exibir na praia no verão. Além do que, mulher muito perfeitinha, daquelas nos padrões do cinema e da TV, só serve pra atrair olhares de cobiça na rua, o que obriga você a, vez por outra, tomar satisfações com os potenciais transgressores do nono mandamento.

Uma dessas passistas de escola de samba seria uma delícia mas e na quarta-feira de cinzas, como é que fica?

Não obrigo a minha namorada a fazer regime. Ao contrário, estou sempre lhe oferecendo pizzas e feijoadas. E adoro suas curvas, melhores que as da estrada de Santos. Gisele Bundchen e demais modelos anorexicas, comigo, ficariam chupando o dedo.

Em resumo: quem anda com vassoura é gari!

Mulher que é mulher, pra mim, tem uma barriguinha, celulite e corpo de violão.  Ou de pêra, ou violoncelo... a imperfeição, o inusitado é que despertam paixões. Elvis Presley e Michael Jackson são idolatrados como são por terem dançado de uma forma diferente, fora dos padrões. Se dançassem igual a Fred Astaire e Gene Kelly, não teriam sido famosos nem na rua em que moravam.

O certinho não cativa e "ventre" é a palavra mais bonita da língua (!) portuguesa.

Toda beldade escultural, em geral, carece de charme, sex appeal, borogodó. Salvo exceções como a Rita Hayworth, que, por sinal, nunca chegou aos pés de sua mais famosa personagem, Gilda.

Dei essa volta revelando minhas preferências no que concerne ao sexo oposto para contar que uma amiga chegou para me visitar esbaforida. Enfrentou um calor de 40 graus nas ruas do rio e pingava suor e mau humor quando chegou na minha casa Ao entrar, me fez a pergunta que ouço há muito tempo:

_ Você acha que eu estou gorda?

E levantou a blusa à altura do umbigo para que eu desse o veredito.

_ Uau! Que chester! _ pensei.

Como a moça já estava uma pilha de nervos, achei melhor, porém, dar uma de advogado e mentir descaradamente.

_ Não, você está ótima, uma tábua.

Dizer que ela parecia ter engolido uma bola de boliche só me traria aborrecimentos pelo resto do dia. Então menti mesmo. Com convicção.

Mas, na manhã seguinte, pelo telefone, decidi ser verdadeiro.

_ Minha amiga, você tá com uma senhora pança.

Pra quê, meu Deus, pra quê!?

Ela ficou péssima e jurou que vai fazer...

_ Um regime? _ perguntei tentando demonstrar que acreditaria em suas intenções dessa vez.

_ Não.

_ Vai de novo para um spa?

_ Não, vou fazer uma lipo.

Que loucura! uma cirurgia arriscada e que vai cortar gorduras, mas não o mal pela raiz, porque ela vai continuar comendo como come hoje.

E de nada adiantou eu dizer que mulher sarada não está com nada, pelo menos pra mim. O padrão de beleza vigente é muito mais forte na cabeça delas do que a sincera preferência de um amigo sincero. Por isso muitas simplesmente piram quando começam a envelhecer.



quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

A bisavó de 48 anos

Morreu Oscar Niemeyer, um gênio da arquitetura mundial, apesar de seus projetos sempre com poucas árvores e, consequentemente, nenhuma sombra.

Mas seu modo de fixar alicerces diagonais, com aquelas pilastras elípticas, parabólicas, sem dúvida, mostra um talento único e inovador. Acho o Palácio do STF sua construção mais bela entre tantas. Seu obituário estava pronto nas redações de jornais e revistas há pelo menos três décadas. Hoje, finalmente foi publicado.

Aos 104 anos, perdeu sua única filha do primeiro casamento há pouco tempo. Ela morreu com mais de 80... antes dele.

Teve ainda netos, bisnetos e trinetos.

Niemeyer foi uma das poucas pessoas que pôde chegar para um neto e perguntar:

_ Meu neto, cadê teu neto?

É muito tempo de vida... ele já devia estar de saco cheio de tanto carnaval, de tanto Natal, de tanta oferta de supermercado, de tanta mensagem de fim de ano da TV Globo...

Chega uma hora que a vida enche o saco, né não? Pode demorar cem anos, mas chega. O problema é a rotina, a falta de prazer a que o sistema nos condena. Niemeyer viveu muito, seu tempo, seus amigos, sua moda, seus passatempos, todos passaram. Tudo passa. Acho que já não se encontra pelas ruas ninguém que tenha votado em Getúlio Vargas. E um dia nós passaremos também. Não haverá mais ninguém vivo que tenha assistido à série Jeannie é um Gênio na televisão (até o major Nelson já foi pro espaço).

E as coisas mudam. Ainda ontem, numa praça da cidade, ouvi uma mulher contando que uma amiga dela se tornou bisavó aos 48 anos! Isso mesmo, a netinha da dita cuja, de 15, acabou de ter um bebê. A jovem é apenas outra vítima da lavagem cerebral sexista despejada pela mídia em cima de crianças e adolescentes. Esse sim é um crime grave, cujos responsáveis deveriam estar sendo julgados no Supremo Tribunal Federal.

E a bisavó de meia idade deve estar fula da vida, pois ainda vai ter idade para tomar conta dos trinetos quando a bisneta for para o baile funk.

O mundo que Oscar Niemeyer conheceu morreu muito antes dele.



Lei também:

A paisagem do museu


terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Lula nunca mais vai ter paz

Tem leitor ávido pedindo que eu comente mais esse texto calhorda publicado pela revista semanal que pensa que o leitor é cego. Mais uma vez baseada em supostas declarações de gente cujo nome não é divulgado e em ilações que ligam o ex-presidente Lula a uma funcionária pública acusada de tráfico de influência, a reportagem nada mais é que uma nova tentativa de desmoralizá-lo.

O delegado da Polícia Federal e a procuradora da República que apuram o tráfico de influência já declararam que não há nenhum telefonema ou e-mail que ligue Lula à acusada, mas o que isso importa agora? A calúnia já foi lançada aos quatro ventos e a reputação do político, enxovalhada mais uma vez.

Cometida a seis mãos (o que juridicamente caracteriza formação de quadrilha), a matéria insinua que Lula tinha um caso com a referida funcionária. Chega a reproduzir falas dela ao deixar a sala do então presidente como que após uma suposta relação sexual.

Da filha que Fernando Henrique acreditou que teve fora do casamento, ninguém nunca publicou uma linha... talvez não pelo ex-presidente, mas porque a moça era repórter da emissora que tem nome de biscoito. Já ouvi falar em "promiscuidade com o poder", mas isso é literal demais! FHC sabe que a mídia tem munição para acabar com o ninho dos tucanos em três tempos. Só não o faz porque não há outro grupo político em condições de barrar o processo de distribuição de renda implementado pelo PT no país.

Vamos supor que tudo isso seja verdade, que o esquema de venda de pareceres favoráveis de órgãos públicos vigorasse mesmo, que Lula e a tal Rosemary tivessem um caso, enfim, nada disso poderia ser dito da forma que tem sido na grande imprensa, pois nada foi provado e jornais não podem se comportar como tribunais em nenhum país do mundo.

Quantas mansões e resorts foram construídos em paraísos naturais, como as ilhas de Angra dos Reis, por exemplo, antes dos governos de Lula e ninguém falou nada. Também naquela época, os governos concediam licenças ambientais absurdas, maculando praias e florestas para que milionários construíssem suas moradias paradisíacas. Só que a imprensa não tinha olhos para isso, pois não era um governo do PT. Corrupção só existe no Brasil se puder ser associada ao Partido dos Trabalhadores.

Por essas e outras, na Argentina, a presidente está em guerra contra os grupos que monopolizam a mídia lá. Também na terra dos hermanos, a imprensa se comporta como um partido político, menosprezando a inteligência da população e jogando no lixo seu papel social de informar com isenção.

Lula nunca mais vai ter paz na vida.

Semana sim, semana não, algum órgão de imprensa vai lançar um punhado de lama contra ele.

Todo o noticiário político nos meios de comunicação privados é contaminado. A televisão nada mais é que um aparelho exibidor de anúncios. Colocam programas entre eles só para a prateleira eletrônica não ficar muito monótona. Mas a TV é feita pelos anunciantes, paga por eles, sua opinião é a opinião deles. A TV nada mais é do que a caixinha em que os grandes empresários depositam suas contribuições mensais em forma de publicidade. Portanto, a visão política dos noticiários é a visão do patrão, que não é o dono da emissora, mas um colegiado de tubarões do qual ele, o dono, é apenas um membro. A TV, as revistas semanais e os grandes jornais nada mais são do que caixas de ressonância da opinião do grande empresariado nacional e internacional. Dá pra acreditar no noticiário político deles?

Ninguém tira 30 milhões de pessoas da miséria impunemente num país que tem a elite mais egoísta do mundo e uma classe média imbecilizada por ter crescido com o nariz grudado na televisão. Essa gente é tão mal intencionada e idiota que acredita mesmo que a corrupção no Brasil começou depois que Lula se tornou presidente e que agora, encerrado o show midiático do STF, este país finalmente entrou no rumo certo. A fábrica de burros devoradores de novela trabalhou muito bem mas não o bastante, porque, mesmo com essa campanha sistemática na mídia, o PT foi o partido mais votado nas últimas eleições municipais... e ainda ganhou em São Paulo, a maior cidade do país. E sabe por quê? Porque no fundo todos sabemos que a corrupção endêmica dessas terras só começou a ser de fato combatida quando Lula chegou à Presidência, pois ele dobrou o efetivo da Polícia Federal e ela, sob seu comando, prendeu mais de 3 mil corruptos e corruptores (muitos deles, os ilustres ministros do STF fizeram o favor de soltar).


E-mails apócrifos circulam na internet difamando Lula e o PT. Afinal, se revistas, jornais e emissoras de TV podem acusar sem provas, qualquer um também pode. O último que recebi diz que Rosemary levou uma mala com 75 milhões de reais para Portugal. A grana seria de Lula. O e-mail ainda diz que essa será a próxima reportagem da revista para cegos. Não duvido. Se não for verdade, dane-se. O filho de Lula foi inocentado da acusação de enriquecimento ilícito, mas já foi difamado e fica por isso mesmo. Luiz Gushiken também. O ex-ministro do esporte Orlando Silva também. A lista é enorme. A imprensa publica o que quer, joga reputações na sarjeta, nada é comprovado e fica por isso mesmo.


Colunistas de jornal chegam às raias do deboche quando falam do ex-presidente de origem humilde. Elio Gaspari não alivia nem a doença que acometeu Lula e faz piada com o fato de sua barba ter sido aniquilada pela quimioterapia.


O medo que a sociedade tem da mídia é tanto que o mais limítrofe dos colunistas de aluguel foi eleito para a Academia Brasileira de Letras sem ter sequer um livro decente publicado.


Todos os lacaios perderam as estribeiras depois que um ex-metalúrgico governou melhor que os catedráticos que o antecederam.


Só não podem apagar os indicadores sociais e econômicos da era Lula. No máximo, os escondem, não comentam, não lembram.


Se amanhã, Lula for apanhado comprovadamente com a mão na massa, ficarei triste, mas entenderei que todo ser humano é passível de erro e, aí sim, pode ser que eu procure outro candidato em quem votar.


Mas me recuso a condená-lo antecipadamente e sem provas só porque meia dúzia de empresários que mandam na mídia brasileira querem fazer de Aécio Neves o próximo presidente e assim voltar a gozar dos privilégios que sempre tiveram neste belo país de índole escravocrata.


Demonizam Lula como fizeram com Brizola, Getúlio Vargas, Fidel Castro, Hugo Chávez e tantos outros.  Chávez poderia até, se fosse também médico, descobrir a cura da aids e mesmo assim continuaria a ser execrado. Apareceria imediatamente um desses editorialistas sequelados pra escrever que "pensando bem, a aids tinha lá seu valor...".


Mas o povo da Venezuela vota em Chávez quantas vezes precisar.


Assim como continuo votando em Lula e no PT até que apareça coisa melhor para o povo brasileiro.



Lula/Foto: Marcelo Migliaccio

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

O banqueiro e o faxineiro

Imagine você sair de um colégio onde estudam filhos de banqueiros e ir para um outro estudar com a filha da faxineira.

Foi essa mudança radical que eu vivi aos 8 anos de idade, quando a minha família se mudou de Ipanema para a Urca. Saí do Instituto Souza Leão, uma escola particular e cara, para o Colégio Minas Gerais, que era público.

Não sei se foi por falta de grana dos meus pais ou se era apenas uma questão geográfica decorrente da mudança de bairro. Francamente, isso pouco importa uma criança. A única coisa que me deixava chateado era não poder mais jogar futebol porque na nova escola não havia quadra. Aliás, nem aula de educação fisica havia para alunos do segundo ano primário como eu. A compensação era que perto da minha nova casa havia uma praça em que jogavam bola os garotos que se tornariam meus colegas por todo o resto de infância e adolescência. Parei de levar uma hora e meia no ônibus do colégio para chegar ao Souza Leão e caminhava três minutos de casa até o Minas Gerais.

Bom, mas voltando à mudança radical. Entre os meus colegas de classe no Souza Leão estavam a filha do dono do Banco Econômico, o filho do dono da H. Stern etc. Eu devia ser o aluno mais pobre, porque meus pais faziam um sacrifício para que eu estudasse num bom colégio. Economizaram depois, quando passei para uma universidade pública, uma das discrepâncias brasileiras que o sistema de cotas busca atenuar: quem  estuda em colégios particulares e bons passa para a faculdade que deveria acolher os que não têm recursos. Sou a favor das cotas porque é um resgate social histórico e porque vai obrigar aos filhos da classe média a estudarem mais para passar para a faculdade gratuita.

Voltando. Meus colegas no Souza Leão chegavam de chofer. Havia aula de teatro e de música. Do outro lado do muro ficava o maravilhoso Parque Lage. Muitos anos depois, o colégio seria vendido e o prédio, demolido para dar lugar à sede de uma grande empresa. E até hoje, quando passo por ali e sinto o cheiro de mato do parque, é como se viajasse no tempo e voltasse a um recreio no Souza Leão.

Na escola pública, havia merenda na hora do recreio e eu adorava quando tinha sopa de feijão com macarrão. Antes da aula, diariamente, alunos e professores perfilados cantavam o Hino Nacional, e até hoje só sei a letra da primeira parte, mesmo assim sujeito a pequenos erros. Era 1972, ditadura militar. Passei dois anos lá e depois voltei para o colégio particular. Já conhecia, porém, os dois lados da moeda.

No Souza Leão, só um negro em toda a escola. No Minas Gerais, muitos na minha sala, inclusive dois gêmeos, chamados Cosme e Damião, filhos de uma empregada doméstica de uma casa na Urca. Não eram idênticos, Cosme era gordinho e extrovertido, Damião, magro e contido. Eles tinham uma irmã mais velha: Rosemary, que era muito bonita. No colégio anterior, também havia um par de gêmeos, Marco Antonio e Mario André. Eram diferentes também, mas só pra chatear quando eles chegavam eu e outros colegas perguntávamos quem era quem.

Tive bons professores em ambos os colégios, e também professores ruins nos dois.

Tanto numa escola como em outra, pulei, corri, caí, levantei, ri e chorei.

Mas o fundamental foi que aprendi que as crianças eram todas iguais, independentemente da condição econômica de seus pais.

Não existe sangue azul.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Isso é Brasil

Enquanto o Nordeste brasileiro sofre com a pior seca das últimas décadas, o governo do Ceará gasta 50 mil litros de água por dia no estádio Castelão para que a grama nasça verdinha até a data da Copa das Confederações.

O sertanejo que vê seus animais morrerem de sede e seus filhos de fome, deve estar vibrando com o fato de o Brasil sediar a próxima Copa do Mundo...

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Para salvar vidas é preciso ser insensível

Sou do tipo que não pode ver sangue. De acidente, friso. Se for um desses filmes de terror, nem ligo, pois sei que tudo é uma baboseira sem tamanho. Mas se a coisa for real, como um desses desastres pelos quais a gente passa nas rodovias, aí o bicho pega. Fico paralisado.

Quando passo por algum sinistro, nem quero olhar. As mãos tremem, o estômago embrulha. Jamais eu seria um desses médicos de beira de estrada, sempre a postos para atender as ocorrências mais horripilantes. Ou um doutor de pronto-socorro, à espera dos dilacerados de sábado à noite.

É um dos trabalhos mais nobres que existem. Alguém, afinal, tem que socorrer os acidentados, tirar pessoas presas nas ferragens, resgatar baleados, muitas vezes crianças. Crianças!

Outro dia, cheguei à conclusão de que minha total incapacidade de lidar com tais situações extremas se deve ao fato eu me colocar no lugar das pessoas feridas. Isso é fatal para qualquer iniciativa que pudesse ter de ajudá-las. Até pegar o telefone e ligar para o 193 para chamar ajuda fica difícil pra mim, já que os dedos tremem.

Pois bem, já que o que me bloqueia é a minha irremediável tendência em me envolver com o drama dos outros (por isso sou socialista), comecei a pensar no ofício dos médicos, bombeiros e enfermeiros que salvam vidas.  Um ofício muito nobre, repito, fundamental. Matutei sobre que componentes de personalidade os leva a suportarem uma rotina tão draconiana, testemunhando cenas fortíssimas quase diariamente e tendo que intervir nelas com habilidade e sangue frio.

O que faz esses profissionais do socorro médico conseguirem agir com precisão literalmente cirúrgica e com a calma necessária em meio a deslizamentos de terra, batidas de caminhão, chacinas etc é justamente a capacidade que eles têm de se distanciarem do drama, do sofrimento e da dor das vítimas. Naquele momento crucial, eles precisam ser quase como robôs.

Então, paradoxalmente, concluo que é necessário se abster totalmente do envolvimento emocional para fazer esse trabalho. É preciso pegar a empatia, que é a capacidade de se colocar no lugar do outro, e jogá-la na lata do lixo. Para poder ajudar, socorrer, salvar vidas nesses momentos de grande tensão e dificuldade há que se ter uma rocha no lugar do coração.

Depois, à noite, quando as lembranças trouxerem à tona a emoção sufocada, talvez só um tarja preta resolva...

Ou seja, para ser a mão de Deus nessas horas, é preciso ser absolutamente frio e insensível. Do contrário, os homens de branco vão descer de suas ambulâncias, sentar na calçada e começar a chorar...

Foto: Marcelo Migliaccio

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

A velhinha e o peixe escuro


A cena eu vi num restaurante. A família na mesa e o filho, de uns 50 anos, dizendo à mãe, uma velhinha frágil e de cabelos totalmente brancos que deveria ter mais de 90:

_ Não, mamãe, o médico disse que peixe escuro a senhora não pode comer.

Com o cardápio nas mãos trêmulas, a anciã nem levantou os olhos, não argumentou, nem muito menos contestou. Mostrou a resignação forçosa dos nonagenários e permaneceu calada.

Fiquei a me perguntar por que privar uma pessoa naquela idade de um dos prazeres que ela tem na vida. Vale a pena ela, já no fim da estrada, deixar de almoçar seu peixe favorito num domingo? Quanto tempo ela terá mais de vida por causa dessa recomendação médica. E que vida terá no tempo que lhe sobra? Uma não-vida cheia de "não pode"?

Alguém vai dizer ao Oscar Niemeyer que, aos 104 anos, ele deve abandonar sua inseparável cigarrilha?

Sim, sempre tem um chato que chega e diz:

_ O senhor não deveria fumar, mestre.

Outro dia, sem querer, abri uma gaveta em casa e vi lá, jogado, um relógio caro que comprei certa vez num arroubo consumista. Olhei pra ele, pensei em colocar no pulso, mas aí veio aquele pensamento mesquinho.

_ Não, é um relógio caro, podem roubar.

E percebi que comprei aquele relógio e não o tenho. Se não se usa alguma coisa, não se tem essa coisa. O relógio não é meu, é da gaveta. Meu medo faz com que eu não o possua de fato, apesar de tê-lo comprado.

O relógio nunca vai ser roubado por um dependente de crack, e mesmo assim eu fiquei sem ele, assaltado diariamente pelo meu próprio medo.

É o caso do cara que compra um carro novo e não tira o plástico dos bancos para conservá-los por mais tempo. Ou da outra que tem uma roupa novinha no armário mas guarda para um dia especial. O dia nunca chega e, quando ela decide usar assim mesmo, vê que o vestido amarelou ou foi estragado por uma traça.

Assim é nosso corpo. Feito para usarmos. A vida está aí, passando. Não adianta meter-se numa redoma na esperança, quase sempre vã, de viver mais. Vamos nos permitir.

É preciso viver bem, com prazer, porque a única certeza é o agora. Aproveite o dia.




quarta-feira, 14 de novembro de 2012

O pico da discórdia

No morro Dona Marta, em Botafogo, não há mais traficantes armados, mas nem tudo está em paz. Quase três anos depois da instalação da primeira UPP do Rio, os moradores viram muito pouco além da vigilância permanente da PM. Um prédio do PAC...




Quando ainda há muitos barracos de madeira.




Os do alto do morro deverão ser removidos a contragosto dos moradores, que queriam permanecer ali, com reurbanização.




Só que querer morar perto da natureza no Rio, se você não tem dinheiro, é crime.




O prefeito esta longe demais para ouvir, lá embaixo, no seu palácio arborizado...



São muitos degraus a subir...




Muito trilho a percorrer...




Até o Cristo, que está ali pertinho, finge que não vê.






sábado, 10 de novembro de 2012

Onde a coruja dorme

Se há um documentário que eu gostaria de ter feito é Onde a coruja dorme, sobre o sambista Bezerra da Silva (1927-2005), que cantou como ninguém a realidade, a alma e a inteligência do povo pobre do Rio de Janeiro. Além de mostrar Bezerra cantando seus sambas e dizendo as maiores verdades, o filme joga luz sobre os compositores de suas músicas Tem bombeiro, pedreiro, carteiro, camelô, técnico em refrigeração, moradores de favelas que do estado brasileiro só conhecem as botas da polícia.

As letras das músicas saem da cabeça dessa gente, com quem nós da elite branca dominante cruzamos diariamente sem conhecer sua visão de mundo sagaz, lúcida e bem-humorada. Ri muito durante o filme com as declarações de 1000tinho (essa grafia diz tudo sobre esses personagens), Adezonilton, Popular P, Barbeirinho, Pedro Butina, Roxinho, Claudio Inspiração e do próprio Bezerra, entre outros.

_ Navio não sobe morro e não tem aeroporto no morro, então como chegam essas armas importadas? Ninguém da favela vai em Miami ou no Golfo Pérsico buscar fuzil.

_ Se é preto e pobre chamam de macumbeiro, se é branco de olho azul é espiritualista, kardecista.

_ Malandro é uma coisa, bandido é outra. Malandro no dicionário quer dizer inteligente, mas para o pobre virou um termo pejorativo.

_ Nêgo fala que vai fazer amor, eu queria saber onde é a fábrica, se é em Bangu...

Cada samba tem uma história, contada em mesas de bar, entre garrafas de cerveja, batucada e muitas gargalhadas. Tem a sogra com bigode e costeleta, o delator maneta que aponta com o dedão do pé e planta bananeira no orelhão pra ligar pro disque-denúncia. O pai de santo picareta que joga búzios com tampinhas de garrafa amassadas e apela ao Zé Pilantra (e não Pilintra), a pomba gira que roda bolsinha.

A entrevista que me deu mais prazer de fazer (e foram inúmeras em 26 anos de jornalismo) foi com Bezerra, em 1996, para o jornal O Estado de S. Paulo. Sempre sério mas muito espirituoso, Bezerra só esboçou um sorriso quando viu que eu sabia as letras de quase todos os seus sambas. Num escritório em Copacabana, com a mulher dele, Regina do Bezerra, ao lado, dei muitas risadas e fiquei espantado com a visão de mundo absolutamente realista de quem sempre esteve à margem da sociedade de consumo, das panelinhas intelectualóides e da estética americanizada das novelas de TV.

Mas chega de blá-blá-blá. Com vocês um apertivo desse filme que eu recomendo entusiasticamente.


terça-feira, 6 de novembro de 2012

Apelo infantil

Olhe só a última ideia brilhante dos publicitários que trabalham para a indústria de bebida alcoólica:



Um freezer cuja pintura simula uma dessas máquinas em que crianças tentam pegar bichinhos de pelúcia manejando uma garra mecânica.


O que faz o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar)?

Nada, como nada fez para tirar do ar a propaganda da Peugeot em que o tenista Guga dá um show de direção perigosa pelas ruas da cidade, inclusive quase atropelando três operários.

Aqui não tem Hugo Chávez, nem Partido Comunista chinês, nem ditador sírio.

Aqui, a ditadura é do dinheiro.

Quem tem dinheiro, tem poderes ilimitados, compra todo mundo.

Pra mim, droga tem que ser liberada. Todas. Mas nenhuma delas precisa de propaganda, muito menos para influenciar crianças.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Mangueira, teu cenário é uma tristeza

Já reparou como estão cortando árvores na cidade (se é que você tem tempo de reparar em alguma coisa)? No Rio, parece que virou moda. A vítima mais recente me cortou o coração, já que era uma mangueira centenária encravada num restaurante chique ao lado da estação do Pão de Açúcar. Antes, tentaram a convivência de uma forma que me fez acreditar que o mundo tinha jeito. Simplesmente construíram um telhado com aberturas por onde despontavam os potentes galhos. A arquitetura a serviço da natureza, pensei...

Foto: Marcelo Migliaccio

Mas parece que a lua de mel durou pouco e nesta semana me deparei com um enorme guindaste em frente ao restaurante. Em cima da árvore, já morta, homens serravam seus galhos. A motosserra, tão usada na Amazônia, também berra no Sudeste.

Foto: Marcelo Migliaccio

E lá se foi a mangueira, que é uma das árvores que mais me lembram essa cidade. Tão popular que virou nome da escola de samba mais famosa do Brasil.

Foto: Marcelo Migliaccio


Lá dentro, um corpo jaz.

Foto: Marcelo Migliaccio


No telhado, um remendo constrangedor.

Foto: Marcelo Migliaccio



Aqui, parece que cortar árvore não é crime. Esquecem que toda a vida na Terra depende de plantas verdes. Tudo é motivo para matar uma árvore. Como se já não bastassem as ervas daninhas que sofocam suas copas, ainda tem o homem, parasita maior da natureza. Diz que as raízes levantam a calçada, que os frutos atraem morcegos, sujam quintais, e que as folhas não deixam entrar luz nas residências...

Foto: Marcelo Migliaccio

Se a árvore está com saúde, a motosserra não entra em ação imediatamente. Primeiro, o assassino aplica uma dose de veneno. Ou duas, ou três, ou quantas for preciso. A bichinha vai secando e pronto, é mandada para aquele lugar:

Foto: Marcelo Migliaccio

Cortar árvore deveria dar cadeia. Mas se o próprio governo vai colocar duas centenas delas a baixo para construir uma estação de metrô absolutamente desnecessária na Praça Nossa Senhora da Paz, o que esperar?

Foto: Marcelo Migliaccio

terça-feira, 30 de outubro de 2012

A janela do museu

Pode a melhor atração de um museu ser a vista pela janela? Depende, claro. Do museu e da janela. No caso do MAC (Museu de Arte Contemporânea de Niterói) é isso que acontece. Pelo menos no caso da exposição que eu visitei recentemente lá.

Primeiro é preciso definir arte abstrata: em geral, é aquilo que se seu filho de quatro anos fizer numa folha de papel e vier lhe mostrar você diz que está ótimo só pra incentivar o moleque.

Nessa exposição do acervo de João Sattamini que visitei, por exemplo, um gênio arrancou quatro folhas de um bloco de notas, colocou numa moldura e deve ter tido a cumplicidade de um crítico que afirmou ser aquela belezinha uma desconstrução do subconsciente urbano.

Sem falar naqueles que simplesmente jogam a tinta óleo numa tela aleatoriamente para passar a mensagem de que "a filosofia é a matéria incandescente do dever moral"...

Tem coisa mais enrolativa e prolixa do que um folheto sobre exposição de artes plásticas? É ridículo tentar descrever um Monet, um Dali, um Van Gogh. São obras para ver, não para ler.

Bom, diante daquela instalação que juntou poltronas estampadas com os mais variados tecidos onde não se podia nem sentar, restou-me, de pé mesmo, apreciar a paisagem lá fora, elaborada por um artista inigualável, a mãe natureza.


Foto: Marcelo Migliaccio


Ah, a arquitetura de Oscar Niemeyer é uma atração à parte. Quem acha que disco voador não existe? Existe, só que não voa.


Foto: Marcelo Migliaccio


Pra não dizer que é tudo perfeito, tem aquele problema indefectivel do nosso arquiteto centenário, a falta de sombras. Não sei o que o velho comunista tem contra as árvores pois elas sempre faltam na ornamentação das suas obras. Pode reparar que, se foi o Niemeyer que fez, fica todo mundo torrando no sol. Seja no Memorial JK, nos palácios de Brasília, na Praça dos Três Poderes, no Monumento aos Pracinhas, haja boné pra visitar tantas maravilhas. Até que daria pra ficar na sombra da construção futurista de Niquiti...


Foto: Marcelo Migliaccio


... Mas o mago das pranchetas tascou um lago ali.




Agora, falando sério, vale muito a pena conhecer o MAC de Niterói.


Foto: Marcelo Migliaccio



Nem que seja para apreciar a vista da terra e o mar que um dia foram de Araribóia e seus irmãos.


Foto: Marcelo Migliaccio


E, quem sabe, namorar com o Rio de Janeiro ao fundo.


Foto: Marcelo Migliaccio

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Breve encontro

Foto: Marcelo Migliaccio


Uma tia querida partiu ontem. Aos 92 anos bem vividos, não vivia. Jazia em casa. Quando o ar faltou mais uma vez, a família decidiu que não haveria hospital.

Para quê entubá-la novamente?

Para quê mais agonia?

Seus olhos cansados pediam um ponto final.

A medicina é uma ciência exata, mas o ser humano é inexato. A aspirina que mata um é o remédio diário de outro...

Quando o avião balança não há motivo para pânico se pensarmos que podemos estar nos livrando de UTIs, quimioterapias e pontes de safena, tudo depende do ponto de vista. Talvez seja melhor cair fora assim, de supetão.

E a tia Dulce se foi.

Já que esse mistério todo da vida só será desvendado após a morte, e que a única certeza que temos é o agora, não dá pra perder tempo com brigas e discussões. Melhor aproveitar esse breve encontro com quem amamos para, simplesmente, amar. Não há provas (pelo menos pra mim) de que voltaremos a nos encontrar.

Uma árvore pode viver centenas de anos, uma montanha, milhões. Mas nós raramente passamos dos 80, 90 (se for muito azarado, chega aos 100). Muito curto esse encontro, muito curto. Por isso é muito difícil tomar a decisão de abreviar a vida mesmo quando a saúde vai embora antes.

Aliviamos o sofrimento do nosso cachorro, que faz parte da família, e do cavalo que não aguenta de dor no estábulo. Mas nossos semelhantes,  deixamos sofrer, assombrados por dogmas médicos e religiosos e pela sensação de que não fizemos e dissemos tudo que gostaríamos.

Em vez de fugir desesperadamente da morte, que tal aproveitar a vida?



Leia também:

Reflexão sobre a morte

Outro filmaço: 'Melancolia'

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Ignorância e burrice

Foto: Marcelo Migliaccio



Ao contrário do que alguns pensam, ignorância e burrice não são sinônimos. Existe o ignorante inteligente e o burro culto.

O exemplo clássico do primeiro tipo é o apresentador Silvio Santos. Não espere dele declarações sobre a obra de Machado de Assis, por exemplo. Mas poucos no Brasil têm o seu tirocínio, sua perspicácia.

O ignorante inteligente não tem estudo, porque, dirão os cristãos, "Deus não dá asa a cobra".

Outro sinal de inteligência em Silvio Santos é o dom da oratória. Coloca qualquer platéia no bolso, seja ela formada por adolescentes e senhoras da Vila Maria. ou por estudantes engajados. Na mansão em que ele mora tem tudo do bom e do melhor, menos um diploma na parede.

Nada a ver com ideologia, não voto em Silvio Santos para nada.

Em contraposição a esse tipo, há o burro culto. Prolifera nas universidades, públicas e privadas. É o professor pós-graduado que deixa à mostra sua falta de estofo quando diz que quando os alunos "trazerem" o trabalho... Ou o aluno que só tira 10 mas não consegue nada na vida além de ser funcionário concursado dos correios.

O burro culto é o que a grande imprensa chama de "formador de opinião", porque aceita os noticiários manipulados que lhe empurram diariamente. Assina um desses jornais que só servem pra embrulhar peixe e forrar gaiola e acha que está se informando... tadinho.

Outro dia encontrei uma caloura universitária decepcionada logo após seu primeiro dia de aula. Segundo ela, a professora, cheia de pompa e diplomas, fez uma afirmação tão absurda e tacanha durante a aula que todos os alunos se entreolharam constrangidos.

Por isso, guardo para sempre na memória os professores inteligentes que tive. Aqueles sim foram mestres de verdade...

Eu disse para a jovem se acostumar e não desanimar, porque iria encontrar muitos professores que não passam de papagaios acadêmicos. Meros burros doutrinados repetindo jargões. Conheço um que decorou as características da poesia parnasiana, cita autores e versos, mas não entende, nem tão pouco sente, nada do que lê.

Uma vez dei uma olhada nos textos exigidos pela PUC para avaliação dos candidatos ao mestrado em jornalismo aqui no Rio. Palavra de honra: não consegui passar da quarta linha em nenhum daqueles calhamaços. É aquele blá-blá-blá teórico e estéril, uma perda de tempo. O que poderia ser dito em um parágrafo leva cinco páginas. E o pior é que, na maioria das vezes, não significa nada. Para mim, que tenho por ofício perseguir a objetividade e a concisão, é uma tortura ler aquilo.

Mas há uma categoria humana que decora esses textos e se torna uma dessas sumidades acadêmicas. O auge de suas carreiras é ser entrevistado num programa de TV para recitar ali a verborragia intragável na qual se tornou catedrático.

Leia também:

O burro e o inteligente

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

O dia em que a Terra parou

Um cenário de arrepiar. Parece filme-catástrofe, ainda mais para alguém que nasceu "num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza".


Praia de Atafona (RJ)/Foto: Marcelo Migliaccio

Sem furacão, sem terremoto, sem maremoto, sem nevasca mas...


Praia de Atafona (RJ)/Foto: Marcelo Migliaccio

...com a força do vento, do mar e das areias aliada à dissimulação enganosa do tempo.


Praia de Atafona (RJ)/Foto: Marcelo Migliaccio

Essa é a Praia de Atafona, em São João da Barra, a 324 quilômetros do Rio, perto da foz do grande Rio Paraíba.


Praia de Atafona (RJ)/Foto: Marcelo Migliaccio

Dez ruas já foram devoradas pelo mar, que avança sobre a cidade sem dó. Nos últimos 50 anos, foram 400 metros do oceano terra a dentro.


Praia de Atafona (RJ)/Foto: Marcelo Migliaccio

Dizem que Deus perdoa sempre, o homem, às vezes e a natureza, nunca.


Praia de Atafona (RJ)/Foto: Marcelo Migliaccio

Amendoeiras enormes soterradas até o pescoço...


Praia de Atafona (RJ)/Foto: Marcelo Migliaccio

Os moradores da orla abandonaram suas casas, que viraram ruínas. Só alguns sem-teto se abrigam por ali.


Praia de Atafona (RJ)/Foto: Marcelo Migliaccio

Derrotado pela força maior, o bicho homem se foi.


Praia de Atafona (RJ)/Foto: Marcelo Migliaccio

O clube que bombava no verão hoje é morada para uma ninhada de vira-latas.


Praia de Atafona (RJ)/Foto: Marcelo Migliaccio

E os tratores da prefeitura nada podem fazer a não ser deixar seu rastro de impotência.


Praia de Atafona (RJ)/Foto: Marcelo Migliaccio