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domingo, 25 de dezembro de 2011

Santo domingo

Há muito tempo, desisti das noites de sábado. Tudo cheio, confusão, gente bêbada, cinema e teatros mais caros, blitz de Lei Seca... enfim, todos os motivos para ficar em casa.

Mas nenhuma dessas razões é mais forte que dormir cedo para poder aproveitar o domingo.

Faço questão de aproveitar o único dia da semana que nos é dado para curtir a vida desde o primeiro raio de sol. Se o final do domingo é melancólico para aqueles que não gostam da profissão que escolheram, a manhã desse dia dedicado ao ócio é um bálsamo, uma bênção para quase todo mundo (excluo apenas os que acordam de ressaca).

A seguir imagens de um dia especial, pois além de ser domingo, é dia de Natal, o que deixa as ruas da cidade ainda mais desertas.

As primeiras luzes do dia e as últimas da noite iluminam belos quadros.

Essa igreja fica ao lado do shopping Rio Sul

O palco do próximo Réveillon numa Copacabana deserta e muda.

Avenida Atlântica, sem número
A tranquilidade é tanta que é possível até flagrar um galo e uma galinha ciscando numa rua do Flamengo.

O amor é lindo

No templo evangélico, o louvor começa cedo. O homem do chapéu diz que anda até ressuscitando gente...

Casa cheia


No Sambódromo deserto, silêncio na meca do barulho.

Cadê todo mundo?

Formigueiro humano sem formigas.

Feriado universal


O sem-teto não contava com o convite inesperado do frei franciscano para a ceia anual natalina.

Caridade sem plateia no Largo da Carioca


Restos da farra.

Absinto na noite de Natal... nêgo pega pesado

A noite dorme nas calçadas.

Alguém vai acordar mal

E os jovens que envelheceram do Catete ensinam que devagar se vai ao longe.
Bom domingo

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Cartão de Natal

Meu caro presidente Lula.

Eu gostaria de lhe enviar um e-mail, mas não tenho seu endereço eletrônico. Então, conto aqui, sem ligar para as chacotas dos idiotas da objetividade, daqueles que são incapazes de acreditar em alguém, que agora há pouco, às quatro da manhã, pude, enfim, dar um abraço apertado em você.

Foi num sonho, pelo qual agradeço ao prato de macarronada que comi antes de dormir (sempre que como muito à noite, tenho sonhos reais como esse de hoje).

No sonho, pouco antes de acordar e sentar-me no computador para contá-lo, eu finalmente o encontrei e pude dizer o quanto o admiro, o quanto aplaudi seus oito anos de governo, o quanto o defendi perante os que o atacavam a despeito de toda a correção com que agiu na presidência do Brasil.

Li que seu tumor na garganta teve uma redução de 75% logo nas primeiras semanas de tratamento. Fico feliz e tenho certeza de que isso se deveu, além da sua força interior e da ajuda de Deus, à sincera corrente positiva feita pela imensa maioria dos brasileiros. Sei que muitos deles não gostavam de você por causa da imagem negativa que a mídia elitista sempre procurou veicular desde que o metalúrgico barbudo emergiu entre os operários do interior paulista no final dos anos 80.

Eu nunca caí nessa, e me orgulho de ter percebido sua sinceridade de propósitos desde o primeiro dia em que o vi, de longe, chegando à Cinelândia para um comício do saudoso Lysâneas Maciel, na campanha para governador do Rio de 1982. Havia ali, no centro do Rio, milhares de pessoas e você foi carregado até o palanque, onde fez um discurso inflamado e apaixonante. Eu pensei: esse é o cara. Vinte anos depois, ao vê-lo desfilando num carro aberto, com a faixa presidencial no peito, pela Esplanada dos Ministérios, chorei de emoção. O meu presidente tinha, finalmente, chegado lá.

Não estou nem aí se esses elogios públicos que faço a você vão afastar esse ou aquele leitor do meu blog. E nem ligo quando a minha filha me goza, dizendo que deveria colocar um pôster seu no meu quarto, de tanto que o elogio e o defendo. Mas ela no fundo sabe que não sou fanático, porque cheguei até a votar no FHC uma vez, numa época em que achei que você estava acomodado e de saco cheio.

E estou pouco ligando se a grande imprensa não contrata jonalistas que falam bem de você. Não tenho intenção nenhuma de voltar a trabalhar numa redação. Já achei um trabalho melhor. Não quero ser colega de jornalistas como aquele que te chamou de "anta" num livro e teve que fugir do Brasil de tantos processos que acumulou.

O que eu gostaria mesmo é de lhe dar um abraço apertado como dei no meu sonho de agora há pouco, dizendo que você não traiu o povo brasileiro e conseguiu, com sabedoria e honestidade de propósitos, melhorar a vida de milhões de pessoas para quem o Estado Brasileiro nunca havia olhado em 500 anos.

Os preconceituosos ainda falam em mensalão (se é que existiu mesmo, porque não acredito no Roberto Jefferson desde os tempos do programa O Povo na TV). Ignoram as falcatruas dos governos tucanos, mas reclamam que seu governo precisou comprar os votos de um bando de parlamentares insensíveis para aprovar os projetos que levaram o Brasil a uma posição nunca alcançada. Se foi preciso subornar canalhas para tirar 30 milhões de pessoas da miséria, antes assim. Melhor isso do que suborná-los para que endossassem as negociatas na venda das estatais aos estrangeiros, patrimônio que o povo brasileiro jamais terá de volta. O reconhecimento internacional ao seu governo é um cala-boca nessa elite egoísta que insiste em depreciá-lo. E o amor que o povo demonstra por você é uma prova de que fez a coisa certa.

Como brasileiro e como irmão, desejo-lhe um feliz Natal e que o ano de 2012 seja de muita saúde e alegria.

Valeu, Lula!


segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O 'Pânico' faz bullying

_ É só uma brincadeira _ disse cinicamente o tal do Impostor (Daniel Zukerman) a um transtornado Zeca Camargo.

Era mais uma dose dominical de bullying em rede nacional promovida pela turma do programa Pânico na TV, da Rede TV!.

Brincadeira coisa nenhuma! Há uma campanha do governo para reduzir o bullying nas escolas brasileiras, mas na televisão isso é aceito e, pior, tido como algo muito engraçado. Com programas assim, como esperar que os cidadãos de amanhã saibam que seu direito termina onde começa o do outro?

Trata-se de um dos maiores desrespeitos institucionalizados e tolerados de que se tem notícia. Que direito esse pessoal tem de perseguir e atazanar pessoas em locais públicos? O pior é que a maioria dos telespectadores acha engraçado. Engraçado porque não é com eles. Será que o apresentador Emílio Surita, que parece ser o chefe ali, gostaria que fizessem esse tipo de "brincadeira" com seu filho?

Não sou amigo do Zeca Camargo e nem vejo o Fantástico (a não ser quando topo com a competentíssima e linda Sonia Bridi). Só acho que nem ele nem ninguém merece passar por esse tipo de estresse. Isso é crime. Se eu fosse o Zeca chamaria a polícia. E processaria o programa e a emissora, que eu acho que é o que ele vai fazer, porque, no último domingo, com os olhos rútilos de ódio, filmou com seu celular os seus algozes, enquanto eles perturbavam seu juízo como moscas da indústria do entretenimento.

E ai de quem reclamar disso! Não se pode ser contra a mídia. A TV pode tudo. Desde que os militares desmoralizaram completamente a palavra censura, assistimos a um festival de absurdos e crueldades na televisão. É a liberdade de expressão sagrada apregoada pelos barões da mídia, que lutaram enquanto puderam até contra a singela classificação indicativa antes dos programas. Eles querem audiência, lucro, não importa a que custo. Ainda por cima, com suas cabeças colonizadas, esses empresários e executivos dizem que não estão fazendo nada demais, pois quadros semelhantes estão no ar em emissoras de outros países do mundo.

Se não pensam nas mais de 300 mil crianças que assistem ao Pânico todos os domingos só em São Paulo, que pelo menos respeitem o cidadão Zeca Camargo, que paga seus impostos e tem o direito de ir e vir sem ser importunado por um bando de babacas.

Não importa se o próprio Zeca Camargo legitimou o mundo cão televisivo ao apresentar um reality show em que mandava um grupo de retardados comerem baratas e larvras. Isso só depreciou sua carreira, mas não justifica um tratamento como o que estão lhe dando.

É o mesmo que fizeram com o Clodovil, que, coincidência ou não, morreu pouco depois. E também com o Jô Soares. No fundo, todos os alvos das "brincadeiras" de mau gosto e das perguntas ofensivas do Pânico têm vontade de fazer o que o Netinho de Paula e o Vítor Fazano fizeram: meter a mão na cara desses caras que não têm respeito pelos outros.

Mas não podem, porque vivem da mídia e, se partirem para a ignorância, correm até o risco de ficar mal vistos pelos executivos que os empregam. Sem falar que serão acusados de não saber brincar... de não ter senso de humor.

Ninguém com um mínimo de juízo briga com a televisão. Muito menos um artista que tem nela seu maior mercado de trabalho. E, repito, a TV pode tudo. Não vi um só colega do Zeca e do Jô levantar a voz contra isso. Nem o Sindicato dos Artistas, o dos Jornalistas.

Depois reclamam que no Brasil se quer fazer lei para tudo. Mas, se o pai não sabe que não se bate numa criança, o governo tem que ensinar. Se o produtor de TV não sabe que deve respeitar a privacidade e a individualidade das pessoas, o Estado tem que intervir.

Desde que me entendo por gente a mídia ridiculariza as pessoas. No rádio, o Ari Barroso humilhava os calouros, artifício que Chacrinha levou para a TV. O homem do sapato branco colocava parentes para brigar diante das câmeras, tradição que continuou com Ratinho e hoje fica por conta da Cristina Rocha. Sem falar nas pegadinhas e nos reality shows que aviltam a condição humana.

Ninguém respeita ninguém nem nada nesse país desde Pedro Álvarez Cabral. É uma tradição brasileira, é nossa cultura. Danem-se a natureza e o sinal vermelho. Gostamos de levar vantagem em tudo, certo? O político que mete a mão no dinheiro público e o empresário que paga propina não estão nem aí para seus compatriotas, nem para a Nação. Assim como o imbecil que para em fila dupla atrapalhando o trânsito.

A TV só reproduz esse espírito de porco brasileiro. O único momento em que pensamos na pátria é quando a seleção está em campo. Fora disso, é cada um por si e os outros que se danem.

Até gosto de algumas coisas do Pânico. Eduardo Sterblitch, por exemplo, é um dos melhores humoristas que apareceram no Brasil desde Chico Anysio e Ronald Golias. Carioca e Ceará têm imitações ótimas, e o quadro Afogando o Ganso muitas vezes é engraçado, como foi neste último domingo, com um Papai Noel arrebentando a piscina.

Por que o programa não dá de presente aos brasileiros no ano que vem o fim desses quadros de bullying? Pedir que parem de anunciar cerveja seria demais, então, pelo menos, abandonem o bullying. Coloquem-se no lugar de suas vítimas.

Se eu fosse o Zeca Camargo, usaria as imagens do constrangimento público que lhe impuseram para exigir, na Justiça, indenização por danos morais e materiais (afinal, depois de ser insistentemente sacaneado e desmoralizado na frente de milhões de telespectadores, sua imagem ficou abalada profissionalmente).

E não aparece um promotor para mandar parar com isso! Para proibir que membros do Pânico cheguem a menos de 500 metros do Zeca Camargo e do Jô Soares. Será que o nosso Ministério Público só sabe apontar o dedo para traficantes da favela?

Televisão em botequim de Copacabana. Foto de Marcelo Migliaccio
Vale tudo em nome do entretenimento?

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Grandes encontros da História I

Essa foi a coisa mais linda que eu vi na televisão nos meus 48 anos de vida. Vale a pena assistir até o final. Os dois vivem às turras. Vaidade de dois gênios. Gênios não das palavras, nem dos atos, gênios do esporte mais popular do planeta. E esse encontro foi a jogada mais emocionante de ambos.

Leia também:

Os argentinos gostam da gente

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Licor de Anísio

Na porta da boate do Lido, um senhor de óculos pretos e cabelos brancos esbraveja. O segurança, que parece o Charles Henrique do Pânico na TV, o leva para longe. Duas prostitutas o acompanham até a esquina, onde o idoso cai num choro convulsivo. Uma delas o acaricia e consola maternalmente, ou seja, duro ele não está.

Na porta do inferninho, o baleiro despeitado tripudia em  meio aos bombados pitboys:

_ Quem vai querer bater num velho desses?

Eis que um comboio de carros da polícia deixa o velho brigão em segundo plano. As sirenes acordam Copacabana.

Rumam para o maior prédio da Avenida Atlântica. No céu, não um nem dois, três helicópetos dão razantes sobre a cobertura cinematográfica.

Teve até policial descendo de rapel na cobertura


Na portaria, jornalistas e cinegrafistas se amontoam. Policiais armados vigiam as garagens, outros mostram um papel ao sonolento porteiro. Que espetáculo  às cinco e meia da manhã! Ao ver a tropa, achei que lá em cima estavam entrincheirados o Bruce Willis, o Charles Bronson, o Schwarzenegger, o Rambo e o Vítor Belfort. Mas era só o velho Anísio de outros carnavais.

Nota dez para a policial da Core


Logo, os curiosos começam a chegar.

_ Vieram prender o Anísio da Beija-Flor _ conta um cinegrafista de má vontade e que, se fosse bom para botar essa banca toda, não estaria no plantão da madrugada...

Três helicópteros para pegar um beija-flor. Que exagero, quanto combustível. No meu tempo, chamavam isso de presepada. Uma patrulhinha bastaria para levar o bicheiro preso. Aliás, acho que a coisa que eu mais vi na vida foi o Anísio ser preso. E a segunda coisa foi o Anísio ser solto.

Alguém tem dúvida que um juiz vai soltá-lo a tempo de ver sua escola do coração na Marquês de Sapucaí? Aposto que rola o alvará de soltura, e você?

Mais uma vez Anísio. Poderiam variar o script e escolher outro bode expiatório. Além do mais, Anísio é tricolor. Por que o sistema sempre desfalca a torcida do Flu? Prendam um flamenguista para variar.

Esse é o país da mesmice. Sempre os mesmos presos, sempre os mesmos corruptores, sempre os mesmos mandando na mídia, no Senado, no futebol, no Carnaval, no cimento, nas terras, no tráfico, na Justiça. E só há olhos para os bicheiros. E para os ministros da Dilma.

O país mais previsível do mundo.

Ah, Anísio não estava em casa.

Hoje, deu zebra

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Nova amizade

Um dia, eu contei aqui como uma árvore entrou pela minha janela. De tanto eu admirá-la e, ás vezes, dirigir-lhe palavras afetuosas, virou minha amiga e veio ao meu encontro, desafiando nossa lógica animalesca, cartesiana e materialista.

Pois o fenômeno se repetiu. Nào tenho a intenção de ganhar a vida como encantador de serpentes, quer dizer, de vegetais, mas acho mesmo que eles nos ouvem e sentem nossas vibrações. Acho, não, agora, mais do que nunca, tenho certeza. E as pesquisas holísticas do Peru sobre as quais li passaram a ter para mim uma comprovação prática, mais uma.

Desta vez, aconteceu com uma planta de um prédio vizinho. Há algumas semanas, notei o acúmulo de orvalho e fotografei a dita cuja. Até mostrei a foto aqui no blog, falando não dela, mas do próprio orvalho, uma coisa delicada na qual a vida atribulada das metrópoles não nos permite mais reparar.

Pois eis que notei que aquela mesma planta mudou de posição depois da foto. Tombou para fora do canteiro do edifício, exatamente na direção do lugar onde costumo me exercitar todas as manhãs.

Como um gato, um cachorro ou qualquer outro animal de estimação, ela pareceu estender a cabeça no meu colo para ganhar um cafuné.

Não sou do tipo que conversa com plantas. No máximo, lhes digo um "oi, linda" matinal. Mas não entro em detalhes da minha vida particular com esse tipo de gente... não chego a ser como a personagem da Débora Duarte na novela Pecado Capital, que tornou-se amiga íntima de uma joaninha e levava com elas altos papos diariamente.

No entanto, é impossível não se emocionar com as plantas, que os mais apressados insistem em classificar como seres estáticos, desprovidos de sentimento e imóveis por definição.

Nada de estado vegetativo, os vegetais estão mais vivos e atentos do que nunca. Observe e faça novas amizades.

Ninguém forçou, ela veio porque quis



Sobre plantas:





quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Um jardim e a infância

Alguém acreditaria se eu dissesse que todos nós tivemos nossa primeira aula na mesma escola?

Claro que ninguém levaria fé, pois há milhares, milhões de creches e jardins de infância espalhados pelo planeta. Eu, por exemplo, pulei o jardim e o maternal, que era a creche da época. Já entrei no pré-primário, que também não existe mais. Dali, fui para a primeira série, segunda, terceira... e cá estou...

Então explico o papo inicial: acontece que não tivemos nosso primeiro contato com o mundo acadêmico numa sala, mas sim numa pracinha. Ainda hoje, é num lugar desses, com bancos, jardins e brinquedos que as crianças recebem sua primeira aula na vida. Uma aula tão completa e avassaladora que nem precisa de professor.

Na praça, ao ar livre pela primeira vez desde que foi da maternidade para o aconchego do lar, a criança toma contato com o mundo.

E a primeira aula de nossas vidas não é de beabá ou de dois mais dois. É uma senhora aula de... geometria, com desdobramentos para muitas outras ciências divertidíssimas.


No escorrega, somos apresentados ao triângulo-retângulo de Pitágoras e ao plano inclinado da física. Sem nos machucarmos, experimentamos a Lei da Gravidade e descemos mansamente até o chão.


No trepa-trepa, retas paralelas e perpendiculares aparecem pela primeira vez. Ao subir e entrar por dentro dele, somos apresentados a noções de área e perímetro.

E o que é melhor: sem nos darmos conta, brincando. Vivendo e aprendendo.


A eterna gangorra é um clássico dos parquinhos. Além do ângulo de 60 graus (ou 45?), é ali que valores físicos como massa e altura ditam as regras. Se sentamos no brinquedo com um garoto gorducho, vamos ficar de castigo. Não é a Lei de Newton, é a Lei da Gangorra. E não há métáfora melhor da vida: ora em cima, ora embaixo.


Até inconfundível a parábola está lá. Nunca gostei desse brinquedo... e odeio trigonometria.


E eis que surge o campeão de popularidade, o balanço! Movimento pendular, hipnotizante, vento no rosto e... quem nunca voou pelos ares e se estabacou no chão de tanto impulso que deu no banquinho suspenso? É assim que conhecemos a força inercial. O balanço fica e a criança vai. Novo encontro com a lei da gravidade e pronto, eis a pior maneira de sair pela tangente. Aprendemos assim que na vida é preciso ter cuidado.

Na praça não há lugar só para as ciências exatas. Nela, observamos formigas, passarinhos, borboletas e mosquitos da dengue na nossa primeira lição de biologia. Nada de livros, tudo ao vivo!

E, por fim, ao brincar com as outras crianças, conhecer mães e babás que não as nossas, somos introduzidos naquela que será talvez a matéria mais difícil de todas, a sociologia. Ali, ainda pequenos, começamos a conhecer e a tentar entender o ser humano.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Como o Rio é pequeno...

Que coisa mais feia essa prisão do William da Rocinha, líder comunitário acusado de associação ao traficante Nem e que há cinco anos era funcionário do gabinete da vereadora do PSDB do Rio, Andrea Gouvêa Vieira.

Andrea é filha do presidente da Federação das Indústrias do Rio (Firjan), mas, pela sua entrevista ao deixar a delegacia hoje, jamais poderia ganhar a vida como atriz... estava mais sem graça do que a festa dos melhores do Campeonato Brasileiro no Ibirapuera...

Vejam como o mundo é pequeno.

O outro preso com William por ter sido filmado recebendo dinheiro de Nem era funcionário do governo do Estado do Rio, olha só! Segundo a própria assessoria de Sérgio Cabral, o pinta braba começou como zelador mas logo foi promovido a analista de projetos!!!

Há cerca de um mês, dois advogados também muito próximos das altas rodas do governo estadual foram flagrados pela polícia trasportando no porta-malas... o traficante Nem! Foram interceptados pela PM, mas os soldados quase precisaram trocar tiros com policiais civis, que queriam levar o preso graúdo para a delegacia da Gávea.

Se esses advogados estão presos? Acabei de saber que ainda estão... mas a imprensa não se interessou em averiguar suas relações com o poder, assim como passou batida pela estranhíssima carreira do zelador-analista-de-projetos no governo do Estado. Nossa imprensa é muito sagaz quando lhe convém.

Nem, aliás, estaria negociando, na semana anterior, sua reudição com a polícia civil estadual, dizem... mas o secretário Beltrame deu declarações confusas sobre essa versão.

Agora, a vereadora, cujo partido os telejornais e impressos do Rio evitam vergonhosamente mencinoar (pode reparar), diz que alertou o governo do Estado de que ela e seu assessor da Rocinha estariam recebendo ameaças dos traficantes da Rocinha. Sem convencer muito, ela disse aos jornalistas que William era obrigado a aceitar dinheiro de Nem... essa eu nunca vi... veja se traficante vai obrigar alguém da favela a aceitar seu dinheiro. Se ele não gosta, mata. Sai mais barato. E também é estranho que Nem trate seus desafetos à base de uísque Johnny Walker, como aparece no vídeo em que os três adulam um fuzil.

E um jornal carioca contratou um perito em leitura labial que atestou não ter havido qualquer coação na conversa. A certa altura, o chefão do tráfico chega a pechinchar o preço da arma que os dois ilustres queriam lhe vender. Mas o mais importante é que o perito disse que a fita exibida pela polícia foi editada. Por quem? Quando? Que conversas ou nomes teriam sido suprimidos da gravação antes que ela se tornasse pública?

O governo do Estado confirmou rapidamente a tal denúncia de ameaça da vereadora tucana e informou que repassou-a à secretaria de Segurança Pública.

Procurada pela TV Biscoito (que está fazendo uma força danada para tudo isso parecer muito natural), a secretaria de Segurança, pega de surpressa nesse enredo rocambolesco, não conseguiu responder.

Parece que alguém faltou ao ensaio...

Leia também: O governador blindado

domingo, 4 de dezembro de 2011

Sócrates



Início de 1982. O repórter foi impiedoso e mandou na lata:

_ Sócrates, a seleção tem você, Toninho Cerezo, Falcão e Zico para apenas três vagas no meio de campo. Que trio o Telê deve escalar?

O objetivo do jornalista era colocar o jogador numa saia justa com os companheiros mas, verdadeiramente modesto e despojado como sempre, o doutor-craque-de-bola respondeu sem pestanejar:

_ Jogam Cerezo, Falcão e Zico. Sai Sócrates.

Noventa e cinco por cento dos jogadores de futebol profissionais responderiam que o técnico é quem iria decidir, que a seleção estava bem servida, aqueles chavões. Outros 5%, mais marrentos, fariam auto-promoção e se escalariam.

Mas Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira não era um jogador como os outros. Formou-se em medicina, era politizado, culto, simples, sincero, calmo. Dentro do campo, usava o calcanhar como ninguém. O calcanhar de aquiles deveria, aliás, ser rebatizado de calcanhar de Sócrates.

Arrebentou na Copa de 82 (Telê achou lugares para os quatro no time titular).


E também jogou bem na de 86, quando mostrou sua personalidade ao perceber que os mexicanos haviam colocado o Hino à Bandeira em vez do Hino Nacional antes da primeira partida do Brasil. Enquanto os outros jogadores ficaram com cara de tacho, o capitão saiu da tradicional perfilação balançando negativamente a cabeça.

Era muito alto e tinha os pés pequenos, o que, para qualquer um, seria um empecilho à prática do futebol. Não para ele. É verdade que foi mal na Fiorentina, mas outros craques como Didi, Renato Gaúcho e Edmundo também passaram maus momentos no futebol europeu. Acontece.

Valeu, Sócrates!


País sem memória

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011