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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Tem dia que de noite é assim mesmo



No último episódio, nosso errante herói (eu) havia deixado documentos, cartões e alguma plata no banco traseiro de um táxi argentino.

Pensei que nada mais de ruim poderia acontecer na viagem, afinal faltavam menos de 24 horas para voltar ao país mais lindo do mundo. Mas nunca se deve subestimar a capacidade da Aerolíneas Argentinas de fazer m...

Animado, pulei da cama às 7h15 e parti para o Aeroparque, que equivale ao nosso Santos Dumont, porque fica mais perto do centro que o distante Ezeiza (acho que é esse o nome), o outro aeroporto de Buenos Aires. O voo estava marcado para 10h35. Ao chegar lá, às 8h40, fui lépido e fagueiro ao chcek in, onde uma gentil atendente me informou que o meu voo tinha sido remanejado para... Ezeiza!

Não havia tempo para ir de táxi ao outro aerporto e a solução que me apontou a moça foi esperar o voo que sairia dali às 16h30.

Pela madrugada. A ideia de ficar mofando por oito horas naquele aeroporto não era nada animadora, mas, que jeito?

Ainda otimista, pensei:

_ Poderia ser pior, se o próximo voo fosse às oito da noite...

Despachei a bagagem e voltei para a cidade, onde fui conhecer um museu fantástico de artes plásticas. Preocupado com a hora do voo, passei correndo por Rodins, Manets e Toulouse Lotrecs. Almocei um macarrão com molho de tomate e cheiro de alicci num restaurante metido a besta e voltei para, enfim, embarcar para o Rio.

Qual nada.

O tempo passava e nada de o meu voo aparecer no placar eletrônico. De volta ao check in, a má notícia. Aquele voo da tarde fora cancelado. Sairia um outro às... 20h45! Pensei em cometer um atentado terrorista, mas, acalmado pelo vale de lanche que a atendente me deu, encarei como uma penitência. Passei o resto da tarde jogando forca e conversando com a minha filha, o que, aliás, foi delicioso.

O sol se pôs atrás do Rio da Prata, tão grande que nem dá para ver o Uruguai do outro lado...

Na hora do embarque, uma fila imensa. Como sempre faço, deixei todo mundo entrar para só então tomar meu lugar. Só que no meu lugar havia um simpático senhor brasileiro, a quem foi dado o mesmo número de poltrona. Idem para a da minha filha e ficamos nós (e mais três ou quatro azarados) parados no corredor esperando a decisão do tribunal de comissários. Tinha um até que era gentil, mas a chefe do grupo parecia nâo estar no melhor de seu humor e, ante à minha reclamação, foi logo ameaçando chamar " el trafico", que, pela entonação dela, concluí ser a segurança armada do aeroporto.

Por sorte, ainda havia uma poltrona vaga no corredor e me livrei de passar duas horas e meia ensanduichado num assento do meio. Minha filha não teve a mesma sorte e já se preparava para virar salsicha quando um senhor ao seu lado se propôs a trocar de lugar comigo. Assim, fiquei eu no corredor, ela no meio e uma moça na janela.

_ Muchas gracias _  caprichei.

_ De nada _ respondeu o bom samaritano com sotaque inglês. Mundo, vasto mundo...

O voo transcorreu sem intercorrências, a não ser o fato de eu estar na primeira fileira e ficar de cara para a tal comissária da gestapo.

Tudo bem, eu estava voltando pra casa.

À meia-noite e meia, pisei em solo carioca e desta vez prometo cumprir minha promessa de nunca mais sair do Brasil. O homem é uma criatura cujo passo não excede os 50 centímetros. Querer bater perna a 3 mil quilômetros de distância é anti-natural, só pode dar problema...

Então vou seguir o ensinamento da minha bisavó:

"Boa romaria faz, quem em sua casa fica em paz"

As fotos ficam para o fim de semana. Até!

Aliás, sobre viagens, leia
Tem gente que viaja para o exterior só pra "se amostrar", pra "se aparecer"

Tango na praça


quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Contratempos de viagem

Numa coisa Brasil e Argentina sao iguais: os taxistas rodam pela cidade fazendo proselitismo político.

Aliás, todo governante esperto de qualquer país, logo que entra, trata de dar um incentivo fiscal para essa categoria, porque assim se livra de que 40 mil motoristas (no caso de Buenos Aires) rodem pela cidade falando mal do governo. Uma caixa de ressonância muito inconveniente.

Geralmente, taxistas sao conservadores. Peguei dois aqui que desancaram a presidente Cristina Kirchner. Chamaram-na de "terrotista" e "montonera". Um deles disse que como mulher é muito bonita, mas como presidente, péssima. Só que o povo vai reelegê-la no mês que vem.

Ainda lembro que, nos anos 80, era impossível pegar um táxi no Rio sem ouvir críticas a Brizola. E, em Sao Paulo, faziam campanha aberta e gratuita para Paulo Maluf e Jânio Quadros...

Bom, se algum de vocês vier a Buenos Aires e achar uma carteira num táxi, guarde para mim, porque ontem deixei a minha no banco traseiro de um deles. E, como tragédia pouca é bobagem, trocaram meu voo, que sairia hoje de manha direto para o Rio por outro que parte 16h30, com escala numa outra cidade daqui. Aerolineas Argentinas...

Vou chegar tarde da noite.

Sem documentos, fui muito bem atendido na delegacia da "policía" e no consulado brasleiro. Me deram um papel timbrado que, se Deus quiser, será aceito nas "imigraciones" pelas quais terei que passar.

Sei que esse papinho de turista deve estar um saco para você, mas estou por fora dos acontecimentos no Brasil.

Soube que a selecao (o c cedilha também sumiu do teclado portenho) deu olé nos argentinos, ontem, por um taxista torcedor do Boca, que riu da próprio infortúnio futebolístico.

Agora, para fazer hora até o embarque, vou visitar um museu que tem quadros do Picasso e do Modigliani. Ontem, no Malba, vi de perto o Abaporu, de Tarsila do Amaral, que foi comprado por um argentino. Estava protegido por um vidro blindado, claro, porque eu poderia querer me vingar das Aerolineas danificando a obra que vale milhoes. Há trabalhos fantásticos lá, principalmente do colombiano Cruz-Diez, que, aos 88 anos, é um artista fantástico.

Vou mostrar muitas imagens da viagem, inclusive das obras artísticas, logo que voltar ao Brasil, algo que, com sorte, espero conseguir antes da meia-noite desta quinta-feira. E com a bagagem intacta.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Já viu bancos se esconderem?

Ôla, que tal?

Gastando sola em solo argentino, já vi muito da cidade, graças a um casal de amigos brasileiros que já morou aqui e vai comigo para baixo e para cima.

A cidade é realmente muito bonita. Tem feito calor. Mas a cultura do povo é totalmente diferente da brasileira. Sao mais fechados, nao ficam rindo a toa para os outros na rua. No comércio, distinguem brasileiros de longe. Arrisam até um portunhol.

Os camelôs estao invadindo a Rua Florida, uma das principais ruas comerciais daqui, paraíso dos turistas. A maioria dos ambulantes é boliviana. Vivem nas favelas, fazem os trabalhos que no Rio sobram para negros e nordestinos. Me senti na rua da Alfândega, só nao tem choque de ordem... por enquanto...

Também há mulheres esmolando com crianças nos braços, como no Brasil. Claro, muito menos que no Rio... por enquanto. Argentinas e bolivianas, assim como os flanelinhas que ficam próximos aos restaurantes. Vivem nas favelas mais miseráveis, pois a concentraçao de renda e a falta de oportunidades é globalizada.

A coisa que mais me chamou a atençao é a discriçao dos bancos. Nao se vê aquela festa colorida das agências bancárias. Disseram-me que eles se retraíram depois daquelas invasoes de pessoas desesperadas com a crise econômica ocorridas há alguns anos. Faz sentido. Os bancos praticamente se esconderam na Argentina.

Os locais com quem conversei me confirmaram a admiraçao que tem pelo Brasil e pelos brasileiros, bem diferente que da ideia preconceituosa que a mídia do Brasil insiste em difundir.

O problema deles, me parece, é com os chilenos.

Quinta-feira estarei de volta. Nao aguento mais comer carne vermelha...

Mas está valendo muito a pena conhecer este país e, principalmente, ter vindo com a minha filha, com quem raramente tenho a oportunidade de conviver em tempo integral, pois no Brasil moramos separados.

domingo, 25 de setembro de 2011

Rio (da Plata) acima

Apesar de näo gostar muito de viajar, encarei três horas de aviao para conhecer Buenos Aires. Está valendo muito a pena, a cidade é bonita, mais ou menos o que seria Sao Paulo se tivesse dado certo...

Muitas praças, todas grandes e bonitas, largas avenidas, prédios clássicos e muito, muito comércio. Fiquei me perguntando como tantas lojas, cafés, restaurantes e teatros resistiram à crise econômica de que tanto ouvimos falar no Brasil.

Mas, nesta manha de domingo, peguei o Clarín, o maior jornal daqui, e logo comecei a entender um pouco melhor este país. Trata-se de um similar do nosso jornal que tem nome de biscoito de praia. Persegue a presidente Cristina Kirchner (que o Clarín insiste em chamar de Cristina Fernandes só de pirraça). O jornal diz que ela nao gosta da liberdade de imprensa... aquele papo que conhecemos bem. Cristina deve ter reclamado de pseudoreportagens como as que faz a nossa revista que pensa que o leitor é cego...

Só que, como os grandes jornais e revistas brasileiros, o Clarín influencia muito pouco os argentinos, que estao prestes a reeleger Cristina mais um mandato.

O Clarín deste domingo também trouxe uma reportagem (acho que posso chamar assim) sobre a desvalorizaçao do real em relaçao ao dólar. E diz que a cada ponto percentual que o Brasil deixa de crescer, a Argentina perde US$ 700 milhoes em exportaçoes.

Outra matéria que cita o Brasil é sobre o mercado imobiliário em Miami (EUA). Diz que os argentinos ricos estao investindo muito em apartamentos por lá, aproveitando a queda de preços decorrente da crise enfrentada pelos americanos. No ranking de compras de apartamentos com valores entre US$ 700 mil e US$ 1 milhao, os portenhos estao na frente dos brasileiros.

Bom, vou conhecer melhor a cidade e depois conto mais. E vou tentar nesse meio tempo descobrir onde está o til nos teclados dos computadores argentinos. Até agora, só encontrei um em cima do n: ¨ñ¨

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Rock brasileiro de verdade

Falei outro dia sobre o valor do elogio, e uma das coisas de que mais me arrependo foi ter visto o grande Zé Ramalho num aeroporto e não ter dito a ele o quanto essa música marcou a minha vida aos 13 anos de idade:



Bom fim de semana!

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Descanse em paz

Essa foi a última visão que tive dela.


Conheci aos 8 anos, quando cheguei na Urca. A Praça Cacilda Becker, que ninguém conhece pelo nome da atriz homenageada mas como Quadrado, tornou-se minha casa. Pelos 16 anos seguintes, nossa turma se divertiu com futebol, polícia e ladrão, barrili, carniça, jogo de taco, garrafão... mais tarde namoro, transgressão e tudo mais.

E ela sempre lá. Já a conheci idosa, com uma copa que fazia sombra farta, tronco grosso e enrugado, raízes que levantavam o chão de terra e, anos depois, também o de calçamento. E ainda dizem que concreto é mais forte que madeira... não se a madeira for viva.



Eu achava as amendoeiras do Quadrado imortais. Minha turma cresceu, se dispersou pelo mundo, estudou, trabalhou, casou, separou e, quando trouxe os filhos para conhecer a praça da nossa infãncia, as mesmas árvores ainda estavam lá. As nossas íntimas amendoeiras de sempre, que viram nosso riso, nosso choro, nosso medo e nossa coragem diante da vida.

Depois de nós, vieram outras gerações. E, como velhas professoras que veem passar diante de seus olhos levas e levas de alunos, aquelas árvores testemunharam as manobras dos novos meninos da praça na pista de skate.

Mas nem a elas foi dado o dom da eternidade. E, dia desses, ao passar pela praça, levei um choque.

Uma das grandes amendoeiras havia morrido. Desidratada pelos parasitas que se enredaram em seus galhos, ela sucumbiu. Jamais pensei que ela partiria antes de mim. Funcionários da Comlurb serraram suas raízes profundas e ainda firmes. Cortaram o mítico tronco em pedaços e colocaram no caminhão.

Para eles, era um trabalho de rotina.

Mas, para mim, foi como perder uma velha amiga. Pelo menos pude me despedir dela.

sábado, 17 de setembro de 2011

Regue as pessoas

O senso crítico tem dois lados.

Um deles é o mais conhecido e usado. É aquele que reclama, que reivindica, que buzina, que avisa que estão pisando no nosso calo.

Não confundir com maledicência, que é o senso crítico esquizofrênico, tão cultuado nas rodas de fofoca e nos programas vespertinos da TV.

O outro lado do verdadeiro senso crítico é, para mim, o mais nobre. É aquele que desperta o elogio, o reconhecimento.

Hoje em dia, as pessoas têm uma dificuldade imensa de dar asas a esse estado fraterno. Talvez, pela competitividade em que vivemos. Ou pode ser pelo risco de o elogiado ficar convencido, mas... a vaidade é do ser humano, releva-se e ela logo cai por terra.

Eu nunca economizo elogios. Vejo que faz bem ao outro e, por tabela, à sociedade, porque quem é elogiado sente mais confiança para elogiar e assim formar uma cadeia positivista.

Como uma planta que foi regada, ele fica mais forte.

Os feitos e ações nobres deveriam ter tanta propaganda quanto as tragédias e atrocidades. Mas os bons são maioria silenciosa e por isso o bem não dá muita audiência.

Uma criança criada com elogios é mais auto-confiante, tem mais autoestima, não cresce na neurose do medo de lhe apontarem o dedo.

Além do mais, elogiar faz bem a quem elogia, deixa a alma mais leve e reforça o sentimento de que nem tudo está perdido.



Valeu, Caymmi!

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Acredite se quiser

_ Todo homem tem seu preço.

A frase foi dita em tom peremptório, definitivo. Era uma verdade que não admitia contestação.

Foi dita por um colega meu no primeiro científico, que depois virou primeira série do segundo grau e hoje nem sei como se chama.

Para mim, foi um choque. Eu estudava num colégio bacana, que se propunha a dar uma educação liberal e humanista. Mas o meu colega já trouxe a verdade pronta de casa.

_ Meu pai sempre diz isso _ completou ele, enquanto a primeira sentença ainda ecoava nos meus ouvidos, reverberava no meu cérebro e abalava meu idealismo.

Aos 17 anos, eu ainda carregava aquele sentimento infantil de que o mundo tem jeito. Aquela coisa de ainda jogar papel na lata do lixo achando que está contribuindo para o "nosso belo quadro social", como disse o Raul Seixas na música Ouro de tolo, que havia mudado a minha vida aos 9 anos de idade.

O pai desse meu colega de sala era um empresário. Devia estar acostumado a corromper. Essa é a tradição por aqui desde 1500, ou, quem sabe, antes disso. Começaram engambelando os índios com espelhinhos, se não me engano (hoje, os caciques trocam suas terras por picapes Pajero).

A partir do Descobrimento, com tanto litoral, a propina logo correu solta para que mercadores desfrutassem da vasta matéria prima. Nesta terra havia de tudo, de ouro a banana. E onde tem dinheiro, já viu, né?

_ Todo homem tem seu preço.

Eu até pensei em argumentar, mas vi que o meu colega já tinha sedimentada na cabeça a ideia de que o mundo não tem jeito mesmo. Se mulheres vendem o corpo, o que mais não estará à venda?

Um rim? Temos também na prateleira.

Será que todo homem pode ser comprado?

Bem, hoje ainda jogo papel na lata do lixo (se houver uma por perto, claro). Mas sempre acredito que as coisas podem ser melhores, mesmo que só veja sacanagem ao redor.

Talvez 90% da humanidade tenha seu preço. Talvez um pouco menos. Posso lembrar de estalo muita gente que não se vendeu. O próprio Raul Seixas foi um. Nelson Mandela, o doutor Sócrates, que agora luta pela vida. E muita, muita gente decente que não deixará seu nome na história. A lista, felizmente, é longa. E, nela, também há fascistas incorruptíveis, pois a honestidade não depende de ideologia.

Sei que por aí há muita gente trocando sua honra, e até mesmo sua juventude, por muito pouco. A maioria, aceita migalhas em troca de um mínimo de segurança. Um prato de comida é uma segurança.

Policiais do Rio Comprido recebiam envelopes com parcos R$ 100 para fazer vista grossa ao tráfico de drogas numa favela já "pacificada". Jã uma outra quadrilha roubou, sem cerimônia, milhões de reais da Previdência Social.

_ Os velhinhos que se danem na fila, eu quero é meu iate!

O agora ex-ministro do Turismo também foi apanhado com uma etiqueta de preço pregada no meio da testa. O dinheiro público pagava seus luxos e o chofer de sua mulher. Dilma aceitou a demissão. "Já vai tarde", deve ter pensado.

Num país que cultua a corrupção, onde ser ladrão é ser esperto, deve ser muito difícil formar uma equipe de governo. Ainda mais quando se tem que compor com partidos da base para aprovar projetos no Congresso.

Mas eu incluo a Dilma na minha lista de pessoas que me fazem acreditar no futuro. Apesar do que escrevem os jornalistas que venderam suas consciências a ses patrões.

Eu sei que é difícil olhar ao redor e ver tanta corrupção, tanta falsidade, tanta hipocrisia, tanto jogo de interesses.

Mas eu espero, que como eu, você continue sempre jogando papel na lata do lixo. Porque quem não acredita que o futuro pode ser melhor nada mais tem a fazer aqui.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Achado no espaço

Eu nem era muito fã da série, preferia Túnel do Tempo e Batman, mas não se tinha muita opção aos 6 anos de idade e eu via Perdidos no Espaço também. Por isso, divido com você essa lembrança deliciosa. Para os mais novos, vale ver como eram os efeitos especiais há 45 anos, muito antes que a computação tornasse tudo possível e fácil de fazer.

sábado, 10 de setembro de 2011

O cheiro da amendoeira

Com o passar dos anos, descobri que o inverno tem pelo menos duas coisas boas. Duas não, três. A primeira é a tangerina, fruta perfeita para se comer num ensolarado dia de verão, mas que, por um capricho da natureza, só dá na estação mais fria do ano.

A segunda coisa boa do inverno também ficaria muito melhor no verão: a água do mar tem uma temperatura muito mais convidativa. No verão. quando está todo mundo de férias e as praias ficam lotadas, ela é gelada...


E da terceira maravilha do inverno, me dei conta numa manhã de sábado, pedalando pelas ruas internas de Copacabana. São as amendoeiras, que liberam aquela noda com um aroma... um aroma...

Quem me dera ser um Aloisio Azevedo para encontrar as figuras de retórica perfeitas para definir esse tão especial cheiro. Mas a gente tenta. É um cheiro forte... bom, isso é muito pouco. Não é um perfume, chega a causar um leve incômodo, acho que pela acidez. Há algum químico ou botânico na platéia?

Um dia, logo, sua internet vai ter cheiro e eu te mostro o aroma das amendoeiras no inverno. Viajei para a minha infância na Urca, repleta dessas árvores e de morcegos, que são comedores compulsivos de amêndoa.

Meu amigo Edinho atirava uma amêndoa verde e derrubava uma madura, que ele mesmo pegava, antes de ela bater no chão, e comia.

Nas nossas guerras de amêndoa, ter o Edinho no exército inimigo era garantia de hematomas. A 50 metros, ele podia estalar uma fruta madura na sua barriga. Pior que bala de borracha do Exército no Alemão.

Uma vez, ele acertou o olho do Luis Camarão, que também era bom de mira. Mas, depois do teco que o Edinho lhe deu, ficou parecendo que o "Camara" tinha levado uma bifa do Minotouro.

Nunca comi amêndoa. Me parece muito seca.

Mas o cheiro da noda das amendoeiras entrava até as entranhas. Por isso, numa dessas manhãs de sábado, voltei à minha infância, olhando para o céu, numa esquina de Copacabana.

Um beijo é um beijo

Como mostra a foto do jornalista Pedro Mox, que está passando uma temporada em Londres


Não há nada mais íntimo nem mais delicioso do que um beijo na boca. Um beijo molhado, encharcado de paixão.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Outra versão para a "guerra no Alemão"

Esse texto foi extraído do site da ANF (Agência de Notícias das Favelas), organização não governamental que se dedica a veicular informações sobre o que se passa dentro das comunidades do Rio.

Por Patrick Granja (http://www.anf.org.br/)

No final da tarde de ontem, dia 6 de setembro, nossa reportagem foi ao Complexo do Alemão ouvir os relatos de moradores vítimas da violenta ação do exército na noite de domingo. No momento em que faziamos uma entrevista, moradores alertavam uns aos outros que o exército estaria subindo o Complexo para levar a cabo um toque de recolher. Nossa reportagem ficou horas escondida na laje de uma casa no alto da favela de onde era possível assistir aos tiros de munição traçante disparados para o alto pelas tropas. Os disparos foram feitos durante horas e sempre partiam de localidades onde existem quartéis do exército.

Quando nossa equipe deixou a favela, repórteres do monopólio dos meios de comunicação e militares diziam que os tiros se travam de um suposto confronto com traficantes. Contudo, durante as sete horas em que permaneceu na favela, nenhum traficante foi visto por nossa reportagem, a única dentro do Complexo no momento dos disparos. Durante as sete horas em que nossa equipe esteve no local, trabalhadores mostraram-se revoltados com a militariazação e dispostos a lutar contra os desmandos do exército. Focos de protestos podiam ser vistos na Nova Brasília, na Fazendinha e na Grota. Nas ruas, moradores começavam a sair de casa e comentar a ação dos militares que, segundo rumores, deixou mortos um senhor de idade e uma menina que voltava da escola.

Trecho de outro texto do mesmo site:

Por Rafael Huguenin

Para esconder do povo a falência de sua política de segurança, falidas já a saúde, educação e transporte, o governo do Estado do Rio de Janeiro, aliado a setores irresponsáveis da imprensa, coloca em prática o que podemos interpretar como uma verdadeira campanha de contrainformação.

Qual seria a finalidade desta campanha? Retirar a legitimidade das inúmeras manifestações que se multiplicam nas favelas submetidas à ocupação militar, ocultando assim aos olhos do restante da população não apenas a falência completa de sua política de segurança, mas um barril de pólvora prestes a explodir. Exemplos da insatisfação popular foram largamente noticiados nas últimas semanas. Antes dos conflitos entre moradores e tropas do exército brasileiro registrados neste início de Setembro de 2011, ocorreram anteriormente incidentes semelhantes no Turano, no Pavão Pavãozinho, no Cantagalo e até mesmo no Santa Marta, primeira comunidade a ser militarizada.

Em todos estes casos apontados acima, os incidentes não se relacionam propriamente com confrontos com bandidos, que devem ser combatidos com inteligência e rigor, mas com a insistência em impor à população favelada procedimentos, regras e padrões militares de comportamento, submetendo assim aos critérios e à hierarquia da caserna a dimensão política e cultural do povo, seus mais caros bens. Se considerarmos estes incidentes a partir de uma perspectiva política mais ampla, veremos que eles representam partes de uma ampla tentativa de exercer o controle completo da mão de obra e do comportamento político dos trabalhadores favelados, fazendo assim com que os efeitos da luta de classes sejam restritos apenas a territórios ocupados por tropas de guerra.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Alguém viu minha cabeça por aí?

Já que os Miquinhos Amestrados não satisfizeram 100% da audiência (não é, Teresa?), recomendo o feriado com o talento e o charme da Roberta Sá cantando uma das músicas mais legais do Chico Buarque. Afinal, nem só de punks e skinheads é feita a vida, felizmente!

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

A mola comprimida

"Se você comprime uma mola, chega uma hora em que ela vai se expandir com toda a força reprimida".

Não sei se foi assim, mas foi mais ou menos assim que o ex-governador do Rio Leonel Brizola se referiu ao Plano Cruzado, que tentou acabar com a inflação por decreto durante o governo de José Sarney, quando o custo de vida chegou a subir até 80% ao mês. Claro que a inflação voltou muito mais forte depois do congelamento artificial de preços. Brizola, chamado de pessimista pelos otimistas da época, pais dos coxinhas de hoje, estava certo.

Agora, a frase parece se aplicar à politica de Unidades de Polícia Pacificadora do governo do Rio.

Depois de expulsar o tráfico armado de favelas que estão no roteiro geográfico da Copa do Mundo e da Olimpíada, a Polícia Militar agora está sendo confrontada na maioria delas. Os casos de revolta de moradores contra policiais se sucedem, ao mesmo tempo em que os crimes cometidos nas ruas da Zona Sul tornam-se mais numerosos.

Neste fim de semana, moradores do Alemão atacaram um grupo de dez PMs com paus, pedras e garrafas. Os policiais haviam acabado de dar ordem de prisão a um homem que os insultou, segundo eles, sem motivo.

Na Cidade de Deus ocorreu algo parecido.

Na Mangueira, um puxador de samba que saíra da quadra da escola teve seu carro roubado por homens que ainda lhe deram uma coronhada.

Antes foi no Dona Marta, no Chapéu Mangueira, na Formiga, no Borel...

Em Ipanema, um arquiteto foi morto a tiros numa tentativa de assalto. Há alguns dias, foi uma mulher. Parece que os bandidos querem deixar a população em pânico. Uma espécie de operação visibilidade do crime organizado.

Nas favelas mais distantes, como a Vila Kennedy, quadrilhas trocam tiros em meio aos moradores para dominar a venda de drogas. Os banidos dos morros "pacificados" precisam de novos pontos de venda. A PM entrou, mas nem assim a guerra parou.


Para se capitalizar, o exército da droga desalojado rouba carros e residências no asfalto, sempre com estardalhaço para que a mídia reverbere suas ações. Querem convencer a opinião pública de alguma coisa.

Tiraram os fuzis de algumas comunidades, e isso é elogiável. Mas os governos não têm fôlego para restagar tanta gente do abandono de 500 anos. A mola comprimida é muito forte. É fácil dizer que a revolta nas comunidades é coisa de parente de traficante. Difícil é admitir que o estado só chega ali com a força bruta e não com educação, saúde, cultura e cidadania.

Não resolveremos as coisas com mágicas. A solução, para mim, passa pelo fim de um preconceito, de um dogma.

Legalizem a droga, entreguem o comércio a empresas formadas nas comunidades, e fiscalizadas pelo governo, para absorver os que hoje trabalham no tráfico. Já passou da hora de acabar com essa tutela hipócrita sobre o cidadão. O álcool é difundido e incentivado. Patrocina esportes na TV, mas dizem que as outras drogas são proibidas por fazerem mal à saúde.

Além de acabar com esse tabu, invistam muito mais em educação e saúde. Parem de roubar os cofres públicos, democratizem os meios de comunicação e reformem o Código Penal para que ricos também fiquem presos.

Ai, sobrarão só os bandidos-bandidos, como acontece nos países que respeitam os direitos individuais.

Comunidade Dona Marta, em Botafogo, no Rio de Janeiro. Foto de Marcelo Migliaccio
Problemas na fronteira entre a Bélgica e a Índia

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

A Líbia

O que acontece na Líbia foi tema da última enquete deste blog,  Para 50% dos leitores, a derrubada de Kadafi tem por trás interesses dos países europeus, que compram quase todo o petróleo líbio. Seriam esses países os financiadores dos rebeldes que, ao que parece, tiraram o ditador do poder.

Outros 35%, também adeptos da teoria de que ocorreu um golpe de estado e não uma revolução popular, acham estranho o poderio bélico dos chamados rebeldes líbios, que estariam sendo financiados por grandes grupos econômicos.

No entanto, 17% acreditam que o povo líbio cansou de obedecer as ordens e os caprichos da família Kadafi e resolveu dar a ela um passa-fora definitivo.

E 3% creditam a queda anunciada do regime à onda revolucionária que tomou alguns países do Oriente Médio e que agora teria chegado ao país.

Não conheço a Líbia, mas conheço as agências de notícia internacionais para saber que seu conteúdo é filtrado de acordo com interesses de seus acionistas e anunciantes. Assim como os grandes jornais brasileiros e como as agências oficiais dos governos ditos de esquerda _ não espere imparcialidade do Granma cubano ou do chinês Diário do Povo. Informação é poder.

Não sei se o povo líbio cansou dos mandos e desmandos da família Kadafi, mas abomino qualquer espécie de ditador, seja de esquerda ou de direita, monarquista, republicano ou tribal.

Não sei se na Líbia ocorre um golpe de estado ou uma revolução popular, mas ainda não vi multidões nas ruas participando do processo. Só vi tanques de guerra, canhões e civis portando fuzis. O povo não porta fuzil.

Nunca fui à Líbia, mas já ouvi falar que sua economia ia bem.

Enfim, não tenho como dizer o que está havendo lá nem como vai ficar. O que sei é que, com certeza, o petróleo está mudando de mãos.

O ouro negro, razão de tantas batalhas