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domingo, 31 de julho de 2011

Tateando no escuro

Assim como alguém já disse dos livros, acontece o mesmo com o cinema: a única coisa que se aprende vendo muitos filmes é que a maioria dos filmes não merece ser vista.

Aproveitando um período de férias há muito negligenciadas por mim mesmo, tenho ido bastante ao cinema. E o que tenho visto de filmes ruins não está no mapa.

O mais recente deles foi Capitão América: o primeiro vingador, duas horas e pouco de tiros, explosões e porrada. História? Quem precisa dela? O argumento é o mesmo de sempre, só muda o super-herói. Um cérebro maligno quer dominar o mundo e coisa e tal... blerg! Com a computação gráfica, tudo é possível. Os produtores e diretores agora apenas buscam pretextos para mandarem metade do planeta pelos ares em 3D. O mote pode ser a terceira guerra, uma invasão de alienígenas, magia medieval, furacões, tsunamis... não importa. O negócio é manter a platéia com cara de ameba e engolindo pipoca e refrigerante vendidos a peso de ouro nos cinemas de shopping centers.

Outra bomba que vi foi Assalto ao Banco Central. Filme brasileiro, portanto o problema aqui é outro: excesso de falas, tudo explícito demais, didático como o programa Silvio Santos, para qualquer jegue entender que aquele é um filme sobre um assalto ao Banco Central. Não há pausas, nem silêncios, nem penumbras nos filmes brasileiros. Aquelas interpretações sempre acima do tom e a iluminação de novela impedem qualquer realismo.

A lista de chatices em cartaz tem também A Vênus Negra, inacreditáveis 2h40 em que um diretor tenta sem sucesso contar a vida de uma jovem africana exibida como animal exótico nos circos e altas rodas da Europa no século retrasado. Quando a personagem principal começa a contar pela terceira vez sua vida na África eu levantei do cinema e fui embora. E ainda faltava uma hora para o fim da penitência.

Também vi Poliche, a esposa troféu, que nem a beleza de Catherine Deneuve e o talento de Gerard Depardieu conseguem salvar. E Corações perdidos, um odioso filmeco daqueles que as emissoras de TV aberta passam sábado à noite. Assim como na semgraceira francesa, nesta produção americana o ótimo James Gandolfini naufraga na apelativa e previsível história do casal que perde uma filha e acaba adotando afetivamente uma prostituta adolescente.

Pensei que a coisa iria melhorar em Meia noite em Paris, que tem a grife Woody Allen, mas ele se repete mais uma vez, agora optando por um ator que encarna seu alter ego neurótico de sempre. A remissão do escritor sonhador a reencontros com personagens famosos do passado é uma boa ideia, mas o filme não chega a empolgar. Um dos meus critérios para avaliar um filme é a primeira vez que olho no relógio após o início da sessão. Nos grandes filmes, esqueço a hora; nos ruins, com 40 minutos de projeção, em média, já estou consultando para ver quanto tempo durará o martírio.

Não tinham se passado nem 15 minutos de A missão do gerente de recursos humanos quando consultei o artefato preso ao meu pulso esquerdo. Num ritmo modorrento, a tarefa de um funcionário israelense de agilizar o sepultamento de uma ex-colega enterrou a minha tarde.  Tudo bem, férias são férias...

Tempo de sobra eu tinha para perder também com Singularidades de uma rapariga loura, média metragem do veteraníssimo cineasta português Manoel de Oliveira, que nos mostra neste seu roteiro sem final que sempre chega a hora da aposentadoria... 

Mas nem tudo é bagaceira. Achei legalzinho Namorados para sempre, que conta a história de um casal em crise cuja separação é entremeada por lembranças dos tempos de namoro. Como é doce aquela época da paixão, quando cada um dá o melhor de si ao outro. O final é triste e desapontou minha filha, que vive o amor adolescente e sonha sempre com um final feliz. Deixar um gosto amargo na boca do espectador, às vezes salva o filme, como neste caso. Os atores Ryan Gosling e Michelle Williams convencem muito, principalmente ele.


Mas bom mesmo é Minhas tardes com Margueritte, deliciosa história francesa com o mesmo grande Depardieu e a linda octogenária  Gisèle Casadesus. Sensibilidade rara nas telas, pausas, silêncios, olhares, um filme para quem acha que emoção não barulho e correria e que amor não é sexo comprado em supermercado.


Ainda com alguns dias de férias para curtir, espero que, antes de voltar ao batente, um filme argentino como O Homem ao lado, que, aliás, ainda está em cartaz, venha me mostrar mais uma vez como se faz cinema.

De Capitão América, prefiro esse velho de guerra

terça-feira, 26 de julho de 2011

O fantasma do moleton punk


O primeiro que assustei hoje foi um comissário de bordo da Gol. Ele saía do prédio vizinho ao meu, sonolento, às cinco horas dessa madrugada ainda escura de inverno.

Ao se deparar comigo me esticando no muro vizinho, o comissário (ou seria piloto?) engoliu em seco. Decidi cumprimentá-lo com um efusivo "bom dia" para ver se evitava seu ataque cardíaco iminente, mas nem isso adiantou. Bem, a verdade é que não sou muito bom em cumprimentos efusivos...

_ Bom dia! _ tentei caprichar.

Não teve jeito, o homem uniformizado com sua malinha de rodinha sequer conseguiu responder. Achou que sua hora tinha chegado e que o avião partiria sem ele. Acelerou sem olhar para trás.

Matutando sobre a insegurança em que vivemos, saí em meu passeio de bicicleta, envergando o assustador moleton punk comprado numa dessas lojas de departamento que, de 20 em 20 anos, apresentam alguma peça de roupa que vale a pena. Esse moleton foi um achado. Todo mundo pensa que tomei de algum velho punk londrino, mas comprei aqui no Rio Sul mesmo...

Sentindo o frio dos 16 graus, tive que colocar o capuz por baixo do boné, o que me deu uma aparência ainda mais ameaçadora. Pelas ruas desertas e escuras, saí a ouvir o canto dos primeiros passarinhos do dia e o motor dos primeiros ôniubus a deixarem as garagens.

O segundo cara que tremeu de medo por minha causa foi um típico pit boy (quem diria?). Ele deixava um boteco que cerrava as portas na Avenida Princesa Isabel com destino a outro ainda a todo vapor na Prado Júnior. Saí do túnel voado e colei atrás do cara. Vi seus olhos desconfiados rodarem até a nuca para me examinar.

O cara era fortinho, mas pude ouvir seu coração embriagado a palpitar. Vestindo bermuda até o joelho, tênis sem meia e camiseta de manga curta exibindo a malhação e as bombas, ele ficou tão apreensivo que tive que mudar de rota para não terminar o dia de hoje afogado em sentimentos de culpa ou com um olho roxo.

Ainda dei muitas pedaladas pela Atlântica até me deparar com a minha terceira vítima, uma mulher de uns 60 anos que fumava diante de um prédio na Rua Santa Clara. Ao primeiro olhar meu, ela soltou um dedicido "bom dia", diferente daquele que dispensei ao aeroviário assustado. O cumprimento dela foi forte, quase autoritário. Tão intimidatório que pude perceber o medo por trás dele.

Respondi também com disposição, afinal já havia ensaiado pouco antes, e ainda dei um tchauzinho para descontrair ainda mais o escuro e frio ambiente. Continuei subindo a Santa Clara sentindo os olhos da mulher pregados nas minhas costas.

Lá em cima, dei a volta e desci a Figueiredo de Magalhães deserta a toda velocidade. Isso é que é viver! Levanto cedo, muito cedo, exatamente para isso: ter a cidade do Rio vazia à minha disposição!

De volta à orla, pedalo pela pista ainda deserta com a alvorada começando a se desenhar no céu. O negro da noite vai azulando no horizonte quando passo diante de um quiosque todo apagado onde uma mulher loura toda emperequetada, de uns 70 anos, se exercita na penumbra. Paro para fotografar o Pão de Açúcar recém-iluminado e percebo que a dona está a dirigir-me impropérios que a distância não deixa ouvir. Deviam ser coisas como as que a ex-namorada do jogador Adriano disse ao Cumpadre Washington na primeira festa alcoóloca de A Fazenda 4, programa da Record que levará o prêmio de maior festival de baixarias da história da TV brasileira.

Fingi que os xingamentos dela não eram comigo. Poderiam ser para um dos gatos pingados que já começavam a correr e a caminhar pelo calçadão. Mas era comigo mesmo e resolvi dar o fora, porque a mulher tinha pinta de maluca. Ao mesmo tempo em que me olhava de cara feia, ela fingia cumprimentar alguém do outro lado das pistas, como a me dizer que não estava sozinha. Tive pena dela. Mais uma apavorada na madrugada.

Disposto a não assustar mais ninguém, tirei o capuz, afinal já estava com o corpo quente, e continuei a fotografar o lindo amanhecer que o inverno carioca deu hoje aos cidadãos desta maravilha dos trópicos. Fiz um pouco de ginástica e voltei para casa, ainda antes de o sol despontar no horizonte da Praia de Copacabana, com duas certezas: o Rio é fantástico e os cariocas andam cada vez mais assustados.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

E os abutres pouparam o nosso nadador...



Outro dia, escrevi aqui sobre os diferentes tratamentos que a grande imprensa dá a amigos e inimigos. Agora acontece outro exemplo no noticiário sobre o vexame do campeão de natação brasileiro Cesar Cielo, flagrado num exame anti-doping usando um estimulante proibido mundialmente.

Primeiro, o atleta e sua equipe tentaram jogar a culpa numa farmácia, que teria deixado o medicamento usado por Cielo se "contaminar" pela substância furosemida. A imprensa aceitou a desculpa esfarrapada na hora, sem pestanejar, afinal preservar os ídolos é um dos mandamentos do jornalismo mundial (isso quando os ídolos não são negros e ex-favelados, como vamos ver adiante).

Mas a farmácia gritou que não tinha nada a ver com o peixe e não iria ficar de bode expiatório. Mesmo com seu álibi desmentido, o nadador não abandonou a postura confiante de que não seria punido. Entrava e saía rindo dos tribunais. E veio a esperada pizza. Um tal de Tribunal Arbitral do Esporte decidiu que o astro das piscinas é inocente. Assim, ele pode disputar o campeonato mundial em Xangai e a Olimpíada de Londres em 2012. O presidente da Confederação Brasileira de Esportes Aquáticos, Coaracy Nunes, comemorou como um gol o vexame brasleiro.

Desapontado, o diretor executivo da Federação Internacional de Natação, Coronel Marculescu, lamentou o veredicto e disse que casos semelhantes resultaram em condenações em outros países. Já o ex-campeão em Atenas 2004 Roland Schoeman, disse que houve um grande desserviço ao esporte. Segundo o sul-africano, isso pode dar margem a surgimento de outros casos, pois é um exemplo.

Mas o ídolo está preservado internamente e poderá nos trazer mais medalhas graças à patriotada tupiniquim.

Mesma sorte não tiveram no ano passado os craques Adriano e Vagner Love, perseguidos por alguns jornais sem que houvesse nada que os incriminasse. Caso bem diferente do Giba do vôlei, flagrado por uso de maconha e também preservado pela mídia que adora uma carniça mas escolhe bem.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

A tampa de bueiro perdida

Esse negócio de os bueiros irem pelos ares aqui no Rio tem uma simbologia danada Todo mundo sempre diz "...uma hora essa merda vai acabar estourando". Pois chegou o momento. É fumaça saindo em Copacabana, tampa de ferro voando no Centro da cidade, e o carioca vivendo em um campo minado, com medo de ir comprar um leite na padaria e acabar entrando em órbita.

Parece que estou brincando e, afinal, estou mesmo, porque o cidadão do Rio tem o salutar poder de brincar com a própria desgraça. E a Francisca. uma professora de literatura que tive na sétima série, me ensinou que um homem que consegue rir dos seus problemas está bem próximo do amadurecimento.

As piadas com a paranóia que vem do subsolo já tomaram conta do Rio.

_ Tem gente marcando encontro com desafeto em cima de bueiro da Light e se atrasando de propósito _ troça um.

_ Agora, além de bala perdida, temos que fugir de tampa de bueiro perdida _ goza outro.

Há uns três anos, fiz uma reportagem no <b>Jornal do Brasil</b> que mostrava a confusão de fios, tubulações de água e canos de gás no subsolo do Rio. Até então, nenhum bueiro tinha ido pelos ares, mas os engenheiros que entrevistei me disseram que estavamos em cima de um paiol de pólvora.

Achei que era exagero...

Na mesma reportagem, um ex-diretor do metrô, responsável pela construção das galerias que cruzam o Centro, me falou que eles tiveram até que desviar o trajeto inicialemente previsto tal era a balbúrdia que encontraram embaixo da terra. Uma coisa tão caótica que preferiram nem mexer. E o projeto, claro, ficou mais caro, mas não tão caro quanto seria ordenar o subsolo.

O trabalho das concessionárias de serviços públicos no Rio é sofrível. Trens, barcas e metrô irritam os usuários com seus atrasos e defeitos, fora a truculência dos agentes de segurança.

Agora, as permissionárias de exploração do gás encanado e da energia elétrica mostram que não querem ficar para trás nesse campeonato de ineficiência.

Tudo privatizado, e diziam que o estado não tinha competência para gerir.
A multa de R$ 100 mil para Light e CEG por cada acidente com vítima ou danos ao patrimônio é ridícula. Um desrespeito com as pessoas que se feriram e com as famílias dos que morrerem. Cadeia que é bom, nada. Ano passado, uma turista americana teve quase todo o corpo queimado quando passou com um marido sobre um bueiro explosivo em Copacabana.

Foi uma excelente propaganda para a Copa do Mundo no Brasil e a Olimpíada no Rio...

O mais incrível é que os acidentes já começaram com uma frequência absurda. São praticamente diários. Se fosse num país com histórico de terrorismo, poderíamos pensar em atentados.

Mas o brasileiro é um povo pacífico, dizem. Para mim, pacífico nem é o termo, pois a violência urbana mostra que somos uns raivosos.

Eu diria que o brasileiro é um povo embotado.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

O meu Maracanã

Nasci pela segunda vez no dia 14 de abril de 1974. Apesar de haver recém-completado 10 anos de idade, foi na tarde ensolarada daquele dia de outono, com céu azul e brisa fresca, que conheci o estádio Mário Filho, o gigante do Maracanã, onde quero que minhas cinzas sejam jogadas quando trilar para mim o apito final desta longa e emocionante partida para qual fomos escalados e que não terá revanche, a não ser para os que acreditam em reencarnação.

Jamais esquecerei o momento em que, ao lado do meu pai, vi o campo de jogo pela primeira vez. Nunca sairá da minha mente a imagem do atacante Jairzinho, camisa amarela da seleção e calção azul bem claro, dando entrevista a um repórter de campo. Foi a primeira coisa que avistei naquele imenso gramado verde. A TV em cores ainda era coisa rara no Brasil e, para mim, a grama era cinza como mostravam os videotapes em baixíssima definição com que tínhamos que nos contentar na época. Futebol colorido, só ao vivo, nas fotos estáticas das revistas ou nos parcos e emocionantes três minutos do Canal 100, um noticiário que era exibido nos cinemas antes dos filmes de longa-metragem.

Do jogo, entre Brasil e Bulgária, lembro pouco. Para ser sincero, lembro apenas daquela primeira imagem do Jairzinho e do gol que ele mesmo fez, aos 43 minutos do segundo tempo, dando a vitória ao Brasil naquele amistoso preparatório para a Copa do Mundo que começaria dentro de dois meses na Alemanha Ocidental. Depois, muitos anos depois, pesquisando na internet, eu soube que entre aquelas 72.545 pessoas que pagaram ingresso para a partida, pelo menos uma estava ali pela primeira vez. Eu.

Para mim, foi um êxtase, pois havia tempos eu sonhava em assistir a um jogo no Maracanã. Na escola, meus colegas contavam suas idas ao estádio e eu tinha que inventar as minhas, tamanha era a frustração por nunca ter tido aquela experiência. Meu pai, ao contrário dos pais de muitos deles, não era um fanático por futebol. Gostava, via na TV, já tinha ido muito aos campos na juventude, mas àquela altura, andava fugindo de tumulto.

Mas, percebendo a minha crescente paixão pelo futebol, meu pai encarou o desafio. Sem ligar para engarrafamento e cambista, me levaria ainda a muitos outros jogos nos dois anos seguintes, até que eu conquistasse autonomia para ir _ primeiro acompanhado de colegas mais velhos _ da Urca, na Zona Sul do Rio, ao bairro da Zona Norte que acabou emprestando seu nome para sempre ao maior estádio de futebol que o mundo já conheceu, o Maracanã. Só tive a dimensão exata do quanto meu pai se sacrificou por mim naqueles tempos quando, depois que passei ir sozinho ou com amigos aos jogos, ele nunca mais se aventurou. Ia só por minha causa mesmo, algo que vou guardar no coração para sempre como um grande presente que ganhei dele.

Sentado nas antigas cadeiras azuis, que ficavam abaixo das grandes arquibancadas, eu não tinha olhos suficientes para tudo que queria ver. Sabia que aquela tarde pasaria voando e os 90 minutos, mais rápidos ainda. Olhava para todos os lados, buscava cada detalhe, reparava na cor da pele dos jogadores búlgaros, quase tão brancos quanto os uniformes que usavam. O cabelos black power de Jairzinho e Paulo Cesar Caju, a juba loura esvoaçante do Marinho Chagas, até o bigode do Rivelino, eu vi tão perto como nunca. Comi cachorro quente, dei gargalhadas com as figuras populares que ficavam ali à frente das cadeiras, na chamada geral, a parte da platéia onde o ingresso era mais barato, pois todos assistiam ao jogo inteiro em pé e, pasmem, num nível mais baixo que o campo de jogo, o que lhes obrigava a passar toda a partida na ponta dos pés e esticando seus pescoços. Para piorar, os geraldinos eram alvos constantes de objetos atirados da arquibancada, que iam desde bolinhas de papel a sacos cheios de urina.

O Maracanã era o microcosmos de um país que eu não conhecia, pois passara a maior parte da minha vida até então dentro de salas de aula ou em casa, vendo desenhos e seriados na televisão. Ali estavam ricos e pobres, artistas e militares, atletas e sedentários, homens e mulheres, todos unidos pelo magnetismo do esporte mais emocionante e popular do planeta. E eu, enfim, também estava lá! Pela primeira vez no templo em que viveria algumas das maiores emoções desta vida que se aproxima de completar meio século e que um dia, sem aviso prévio do treinador, será interrompida pelo juiz reserva na beira do campo, a mostrar uma placa com o número da minha camisa.

Hoje, aquele Maracanã não existe mais. Foi praticamente demolido para que surja outro estádio, dizem, mais moderno, na próxima Copa do Mundo. O charme, o encanto e as histórias do velho Maracanã, porém, viverão para sempre dentro de mim e de tantos outros.


Assim era o Maracanã quando veio ao mundo: arquibancadas em cima, cadeiras azuis mais abaixo e a geral, em volta do campo, para os que tinham menos dinheiro



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Minhas tardes de domingo...

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Nem trem-bala, nem fusão dos supermercados

Depois, alguns ainda duvidam de que Deus seja mesmo brasileiro.

Acabo de ler que o BNDES desistiu de colocar quase R$ 4 bilhões do nosso suado dinheirinho na aventura megalômana do senhor Abílio Diniz, que quer juntar seu enorme Pão de Açúcar ao gigantesco Carrefour, condenando o consumidor brasileiro a comprar o que ele quiser vender ao preço que quiser cobrar.

Abílio, como disse o Latino, você já foi mais humilde. Fica na sua, meu filho, não mexe com isso, não. Pegue seus bilhões e vá fazer caridade. Vá abrir orfanatos, vá salvar crianças da miséria, da violência e da droga. Chame o seu amigo Eike Batista e mãos à obra. Há muitos irmãos por aí precisando de uma mão amiga.


O quê? Já faz caridade? Então faça mais, meu filho. Pelo que tu tens, é pouco. Em vez de pensar em acumular, em monopolizar, faça mais gente feliz. Dê sentido a mais vidas, que não precisam ser só de privação e sofrimento.

Bom, não sei se meu apelo vai sensibilizar nossos multi-bilhardários, mas está feito.

Em todo caso, podemos comemorar a saída do BNDES da fusão dos supermercados. Pelo menos por esse ralo nossa granda não vai descer...
Outra mostra que o homem lá em cima gosta de nós, brazucas, é a falta de interessados no leilão do Trem de Alta Velocidade (TAV) que ligará (ou ligaria) Rio-São Paulo-Campinas. O negócio está estimado em R$ 33 bilhões, mas há quem diga que vai custar o dobro.

Para quê?, pergunto.

Os aviões andam mais baratos que os ônibus, numa guerra de tarifas que é especialmente mais acirrada justamente nesse eixo que o trem bala pretende cobrir. Tem passagem do Rio para São Paulo, via campinas e com parte do trajeto feita em ônibus das empresas aéreas, por R$ 100. O TAV vai custar os olhos da cara, coisa para gente rica fazer social. E pensar que desativaram o trem comum que ligava os dois estados vizinhos e era de um romantismo ímpar.

Mas, como Deus anda de bom humor conosco, nenhuma empresa se apresentou ontem para tocar o projeto. Graças!

segunda-feira, 4 de julho de 2011

A era da acumulação

O Pão de Açúcar vai se casar com o Carrefour Com a fusão, os dois supermercados vão abocanhar quase 70% do mercado em São Paulo, a maior cidade da América Latina. O governo não só diz que é legal como vai jogar R$ 3,9 bilhões do nosso dinheiro na mão dos empresários. Aos consumidores, vai restar ter que comprar os produtos que eles decidirem vender e pagar o preço que eles decidirem cobrar.
 
Vivemos a era da concentração. Quem tem muito, quer mais ainda e se junta com outros que também têm muito. Se Deus é por nós, quem será contra nós? O governo? Já vimos que não. A sociedade? Essa menos ainda, porque está vendo novela e Big Brother. A única preocupação do brasileiro médio hoje é com a vida privada das celebridades...

Há algum tempo, as maiores cervejarias do Brasil se uniram. Das dez marcas mais vendidas no país, a corporação gigante deve ser dona de oito ou nove. Nào satisfeita, associou-se a outra gigante mundial e agora molha a boca de meio mundo. No Brasil, apesar de seu domínio nacional, despeja publicidade na TV o dia inteiro, simulando uma concorrência fictícia e formando consumidores entre as crianças. As emissoras faturam milhões com a publicidade. Quem se importa com o futuro?

O jogo econômico hoje é tão viciado que a tentativa de estabelecer livre concorrência para a compra dos direitos de transmisão do futebol pela televisão revelou-se um tremendo vexame. Quando viu que poderia perder, a emissora que detém os direitos virou a mesa e aproveitou-se do fato de os clubes lhe deverem dinheiro para mantê-los no cabresto. O governo, em vez de moralizar o processo, endossou a transação. Mas, não tenha dúvidas, se estivessem no lugar da líder, as outras emissoras provavelmente fariam o mesmo.

A acumulação é a regra também entre os cidadãos. Quem tem um imóvel para morar, quer outros para viver dos aluguéis. Prosperidade, irmão!

Cristo repartiu o pão, mas vamos pular essa parte.

O mais fraco que se dane. Quem mandou ser fraco?

sábado, 2 de julho de 2011

Minha primeira vez no trem da Central

Corria o pré-cambriano 1977. Aos 13 anos, eu peguei um trem na Central pela primeira vez. O motivo era nobre: assistir ao jogo Fluminense x Madureira no campo do Bangu.

Meu amigo Alemão tinha uns programas exóticos. Gostava de pegar o 107 na Urca pra comer pastel na Central do Brasil. No dia do jogo, ele bem que tentou incluir o pastel no roteiro, queria partir às 11h para um jogo que começaria às 15h. Tudo bem que Bangu é longe, mas nem tanto...

Foi conosco o Patrick, que era Botafogo mas topava assistir até pelada no Aterro.

Entrar naquele trem foi uma descoberta pra mim. O que mais me encantou foi a alça de metal presa no alto do vagão e que o passageiro poderia puxar para baixo para segurar quando viajasse em pé. Sacolejo e a sinfonia de molas, pinos e ferros embalaram a odisséia dos garotos da Zona Sul até nosso destino. Pala janela, eu via um Rio que até então não conhecia.

Chegamos ao estádio Proletário por volta das 13h30. Um sol de rachar. Quando sentamos na arquibancada de seis degraus havia meia dúzia de gatos pingados.

Mas, com Rivelino no time, eu nào tinha dúvidas de que aquilo encheria. Até encher, ficamos nós a torrar sentados naquele cimento quente. Teve preliminar, vimos todinha. E preliminar de juvenis é um saco, porque os garotos erram tudo que têm para errar, afinal ainda estão aprendendo.  Naquela época, se dizia juvenis, não havia essa frescura de juniores, nem de chamar craque de "jogador diferenciado".

Quando alguém xingou um dos garotos que se esfalfavam em campo, um coroa que estava perto de mim protestou:

_ Não xinga esse moleque não porque eu conheço a mãe dele!

E veio o jogo principal. O Flu, apesar de não ser mais a máquina do ano anterior, meteu 5 a 0 no pobre Madura. Ate o Carlos Alberto Pintinho fez gol.

Quando foi substituído, Rivelino saiu ovacionado por todo o estádio de Moça Bonita (nome lindo). Antes de entrar no vestiário, o fantástico craque tirou a camisa e entregou a um garotinho maltrapilho que vagava pela beira do campo.

Naquele instante, todos os 5 mil tricolores invejaram o menininho.

Foi quando alguém atrás de mim sentenciou.

_ O pai dele vai arrumar um troco.



Observado por Doval e Zezé, Luis Carlos tenta o cruzamento naquele Flu x Madureira de 1977

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Conselho de amigo ao governador do Rio

1/7/2011

O governador do Rio, Sergio Cabral, está num momento decisivo de sua vida. Não só da vida política, da vida mesmo. Reeleito com a popularidade lá no alto, ele saboreia os frutos da colaboração estreita com o governo de Lula e, agora, de Dilma. Lula foi o presidente que mais jogou dinheiro no Rio, grana essa que, em grande parte, serviu para Cabral tocar seus projetos.

Com as UPPs, ele ganhou o apoio da classe média, que, de Ipanema à Tijuca, está livre dos guetos armados do tráfico. Ganhou também a elite, e isso inclui os proprietários dos meios de comunicação de massa.

A bandidagem está se concentrando na Baixada e em São Gonçalo, para onde deve ser empurrada até a Copa do Mundo, mas isso é outra história.

A oposição a Cabral praticamente não existe, já que o ex-governador Garotinho foi demonizado na mídia e sofre constante assédio da Justiça. Nem quando foi alvo de um suposto atentado a tiros, o deixaram falar no Jornal Parcial. Cesar Maia hiberna para ver se esquecem seus 16 anos de governo e Crivella e o PT, além do prefeito Paes, fecham com Cabral, todos contemplados pelas verbas dos mandarins petistas.

A cumplicidade geral é tanta que ninguém liga para o fato da mulher do governador ser advogada da concessionária do metrô. Não fica bem, né?

Então Cabral subiu no salto alto. Achou que podia até mesmo ignorar professores e peitar bombeiros. PMs ameaçaram aderir e o governador recuou. Pediu até desculpas.

Nas horas de folga, Cabral cultiva amizade com magnatas, alguns deles signatários de contratos públicos. Um vai receber R$ 3 bilhões de obras do PAC. O trágico acidente de helicóptero revelou que empresários dão carona para o governador em suas máquinas voadoras. O convívio é constante nas altas rodas e resorts. Mas não é muito usual alguém de classe média ser aceito em tais ambientes. E Cabral começou sua carreia política levando velhinhas ao teatro de kombi...

Portanto, eu o previno, Cabral, não é uma amizade daquelas que se carrega para sempre. Daquelas da sua infância lá em Cavalcante. Daquelas das rodas de samba e das peladas na terra batida. Cuidado com esses caras, pois só enxergam milhões. Não são amigos de ninguém, governador.

E, além do mais, são uns chatos de galocha.

Volte para as suas origens. Recoloque os pés no chão. Peça uns conselhos ao velho. Não se torne um novo Aécio.


Foto: Marcelo Migliaccio